No último 11 de setembro, as redes sociais brasileiras ficaram em polvorosa. E não foi, desta vez, por causa das disputas fratricidas entre ministros do Supremo – os guardiões de plantão da nossa famigerada República, sempre tão ocupados em explicar ao país quem pode guardar o quê, quem pode abrir o sigilo de quem e quem, afinal, tem a chave do cofre.
O assunto era mais urgente: uma festa de Halloween ocorrida três anos antes.
A República, quando achincalhada, não cai. Ela viraliza. Vira carrossel, corte de podcast, dancinha, apelido e meme. No lugar da crise institucional, entra o Vorcaroween. No lugar do relatório, entra o “Vampirão”. No lugar da prestação de contas, a pergunta que realmente move a cidadania digital: “Você receberia o PIX do Drácula?”
Daniel Vorcaro voltava ao palco. O homem mais conhecido da República – ou, pelo menos, o homem cujo celular parece ter conhecido gente suficiente para montar um ministério (ou país) paralelo – reaparecia fantasiado de Drácula numa festa no Madame Satã, no Bexiga. A informação veio da reportagem da revista Piauí, baseada em mensagens de WhatsApp constantes de um relatório da Polícia Federal, entrevistas e documentos consultados pela revista.
A festa aconteceu em 31 de outubro de 2023, na rua Conselheiro Ramalho, 873, num casarão de arquitetura eclética, atmosfera gótica e história subterrânea. Não é força de expressão: a pista do Madame fica no subsolo, iluminada por estrobo, com uma decoração que inclui morcego e gárgula de olhos vermelhos. É uma casa onde, segundo a memória cultural de São Paulo, já passaram bandas, DJs, punks, góticos, artistas, travestis, roqueiros e gente que achava a normalidade uma forma muito cansativa de opressão.
Foi nesse endereço, marcado por pós-punk, new wave, darkwave, performances e liberdade de comportamento, que o capital financeiro decidiu produzir seu próprio filme de terror.
A cenografia já vinha pronta. Um homem de perna de pau na porta. Entre vinte e trinta personagens de Halloween. Lustres, tecidos, chaise longues, ambiente escuro, open bar, open food, queijo, sushi. Vorcaro, coberto por capa escura, com um corte sangrento desenhado no peito. Fábio Faria, mais discreto, de boné – como quem foi apenas levar um recado ao inferno e não queria sair marcado na foto. No subsolo, Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture: o submundo gótico recebendo a visita sonora da alta festa eletrônica, aquela em que até a batida vem com consultoria de branding.
É uma cena tão perfeita que parece escrita por um roteirista que odeia a sutileza. O Drácula chega ao casarão. As mulheres são convocadas em escala industrial. Os homens são selecionados como se fossem convidados para uma reunião de conselho. Os celulares ficam na porta. As autoridades aparecem nas mensagens, mas não necessariamente na pista. O anfitrião teme o vazamento. E, no fim, o vazamento é justamente o que transforma a festa em produto cultural.
A proporção informada numa das mensagens é de 120 mulheres para 20 homens. Seis por um. A escala 6×1, na República do entretenimento de luxo. Não é preciso censurar a festa, a fantasia, o desejo, o open bar ou a alegria – alegria, aliás, é uma das poucas coisas que ainda não deveriam exigir autorização judicial. O problema está em outro lugar: na maneira como o corpo feminino aparece organizado como infraestrutura de privacidade para homens poderosos.
Nas conversas, aparece a preferência por “só menina nova”, a preocupação com a quantidade de brasileiras e o desejo de ter estrangeiras suficientes para reduzir o risco de publicidade. A nacionalidade, nesse vocabulário, deixa de ser história, língua, cultura ou passaporte e vira tecnologia de silêncio. É o capitalismo transformando mulheres em categoria de controle de danos.
A frase é brutal porque o mecanismo também é. Não se trata de afirmar que todas as convidadas foram vítimas, que houve prostituição ou que ocorreu atividade sexual na casa. As reportagens não apresentam prova disso. Uma convidada ouvida pela Piauí disse não ter visto qualquer atividade sexual. As agências mencionadas nas mensagens negaram ter enviado modelos, e o promoter Tiago Polo contestou a associação entre seu trabalho e recrutamento de acompanhantes.
Mas uma festa pode revelar uma estrutura sem que cada pessoa dentro dela seja reduzida à estrutura. O que está em questão é a linguagem de gestão: convocar “novinhas”, calcular nacionalidades, equilibrar homens e mulheres, contratar segurança, recolher celulares, prever vazamentos. A noite não é apenas uma noite quando alguém a administra como uma operação de risco reputacional.
No vocabulário de Vorcaro e de seus interlocutores, a palavra “festa” parece ter sido promovida a departamento. Há logística, casting, segurança, fornecedores, produtora internacional, pagamentos em dólar, DJs globais e homens relevantes para os negócios. A diversão chega com organograma. O desejo vem acompanhado de compliance. O erotismo tem gerente de crise.
É aí que o Madame Satã importa.
O Bexiga não é apenas um endereço para o GPS de uma festa privada. É um bairro formado por camadas de imigração, população negra, samba, teatro, cantinas, festas religiosas, memória operária, especulação imobiliária e invenções de sobrevivência. A Prefeitura reconhece a Bela Vista como uma região de identidade cultural própria, embora o nome oficial tenha substituído o Bexiga há mais de um século. As estudiosas e estudiosos da arquitetura e do urbanismo descrevem o bairro como um território multicultural, patrimonializado e permanentemente ameaçado pela verticalização e pela perda de suas casas e traçados tradicionais.
O Madame nasceu nesse cruzamento. Abriu em 1983 como Restaurante Cultural Madame Satã e, no ano seguinte, ganhou pista de dança, palco e espaço para performances. O site da casa contabiliza dezenas de bandas que passaram por ali nos primeiros anos: RPM, Fellini, Inocentes, Ira!, Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial. A Folha de São Paulo registra que o lugar foi ponto de encontro da cena alternativa paulistana e que sua história se confunde com a formação de uma certa ideia de liberdade noturna.
O Madame não era um palácio da respeitabilidade. Era justamente o contrário: uma casa para quem não cabia no catálogo oficial da cidade. Um lugar onde a diferença não precisava pedir licença ao segurança da porta. Um espaço de corpos, roupas, músicas e afetos que não se apresentavam ao mundo como investimento. Tal qual sua inspiração: João Francisco dos Santos, defensor implacável dos homossexuais, prostitutas e marginalizados da Lapa carioca, contra os abusos policiais e preconceitos da época.
Então chega o capital financeiro, que não precisa destruir um símbolo para domesticá-lo. Basta alugar sua sala por uma noite.
O clube afirmou que apenas cedeu o espaço para uma produtora terceirizada e que não foi responsável pela organização, pela lista de convidados ou pelo conteúdo da festa. É uma distinção factual importante. O Madame não se torna cúmplice automático de tudo o que acontece dentro de suas paredes. Mas a imagem continua irresistível: a velha contracultura alugando seu porão para o novo dinheiro, como se a História tivesse sido obrigada a trabalhar de freela.
De um lado, a gárgula de olhos vermelhos. Do outro, o banco com seus parceiros. De um lado, a memória de Cláudia Wonder, dos punks, dos góticos e dos DJs que fizeram da pista uma forma de dissidência. Do outro, o line-up importado, o open bar, os homens relevantes, as mulheres numeradas e o telefone recolhido na entrada. O que se encontra ali não é simplesmente o underground e o luxo. É a capacidade do dinheiro de cooptar os símbolos que antes o desafiavam.
O grande capital não quer apenas comprar casas, aviões, ações, influência e contratos. Ele quer comprar a atmosfera. Quer a penumbra, o estrobo, a fantasia, a aparência de transgressão. Quer parecer perigoso sem correr o risco de ser surpreendido pelo perigo real. Quer o subterrâneo, desde que o subterrâneo tenha segurança armada, catering e equipe para derrubar post.
Porque o verdadeiro horror da noite não foi o Drácula de capa. Foi a administração da visibilidade.
Ninguém podia entrar com celular. Depois, uma convidada publicou um vídeo no TikTok com o título “MELHOR FESTA DE HALLOWEEN”, e a reportagem da Piauí relata que o post acabou apagado após a reação do anfitrião. Em outro episódio, documentado por G1 e BBC, Vorcaro enviou a um interlocutor o link de uma publicação sobre a festa e escreveu: “Derrubar esse”; em seguida, especificou: “Só o post”. O vídeo continuava acessível, e as reportagens ressaltam que não foi comprovado que o pedido tenha provocado a suspensão posterior da conta da autora.
Mesmo assim, a frase diz muito. “Só o post.” É o mínimo autoritário: não queremos calar o mundo inteiro, apenas aquela parte do mundo que nos compromete. Não é censura, é curadoria – diria o assessor de comunicação do vampiro. Não é ocultação, é gestão de reputação. Não é medo da luz, é estratégia de marca.
As mensagens também citaram autoridades e empresários. Mas aqui a República nos oferece um detalhe ainda mais engraçado do que a festa: os convidados são mais firmes no WhatsApp do que na pista. Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco, Dias Toffoli, Arthur Lira e Alexandre de Moraes aparecem entre convites, referências ou suspeitas de identificação. Os citados negaram presença ou participação, e o Poder360 conferiu agendas e registros públicos que apontam para Brasília naquela noite. Não há lista nominal independente de participantes.
A festa, portanto, teve uma lista de presença curiosa: muitos nomes possíveis, poucos nomes confirmados e um relatório inteiro tentando descobrir se a República esteve lá ou apenas mandou lembranças.
É nesse ponto que a coisa vira happening surrealista. Imagine: um banqueiro vestido de Drácula, num antigo templo da contracultura, diante de um homem de perna de pau, cercado por uma proporção 6×1, ao som de Swedish House Mafia, enquanto senadores e ministros são convidados por mensagem, desmentidos por nota e localizados por ata. Ao fundo, uma gárgula encara o lustre de cristal. O sushi resiste. O patriarcado também.
Não é apenas uma festa. É a República em forma de instalação artística. O título poderia ser Capitalismo, uma história de horror. A técnica: WhatsApp, dólar e open bar. O material: capital financeiro, patriarcado, agências de modelos, DJs, ex-ministros, seguranças e uma casa underground com aluguel por diária. A crítica do público: emojis de risada.
Eis a tragédia cômica do nosso tempo: a exploração chega tão bem produzida que pode ser confundida com entretenimento. O poder aparece de capa preta, a desigualdade recebe iluminação cênica e a opacidade vira experiência exclusiva. Quando a notícia vaza, o sistema não entra em colapso. Ele ganha um nome simpático, uma hashtag e milhares de visualizações.
A República achincalhada transforma tudo em marketing. O escândalo vira atração. O investigado vira personagem. O endereço histórico vira cenário. O relatório vira roteiro. O meme funciona como extintor de incêndio: provoca uma gargalhada no momento em que deveria haver fumaça suficiente para enxergar o prédio em chamas.
Mas há uma diferença entre rir do poder e deixar que o poder ria da nossa capacidade de rir. O meme pode ser uma arma crítica, desde que não sirva apenas para converter indignação em tráfego. Caso contrário, o Vampirão ganha duas vezes: primeiro, quando compra a festa, depois, quando a festa compra a nossa atenção.
No fim, o que aconteceu no Madame Satã naquela noite talvez seja menos importante do que o que a cena revela. O capital financeiro entrou no porão da contracultura e descobriu que também podia usar a escuridão. O patriarcado descobriu que podia chamar a própria logística de celebração. A República descobriu que uma negativa bem redigida pode funcionar como fantasia. E as redes descobriram que até o horror precisa de um bom nome para circular.
Só falta combinar o próximo tema. Talvez uma festa junina no Banco Central. Talvez um baile de máscaras no Supremo. Talvez um bloco de Carnaval patrocinado pelo mercado, com abadá, camarote e a velha pergunta nacional: quem pagou a banda?
Enquanto isso, no Bexiga, a gárgula continua olhando. O morcego permanece na fachada. A pista subterrânea ainda recebe quem quer dançar de preto, ouvir uma música estranha e encontrar uma turma tão deslocada quanto ela própria. O Madame continua sendo mais complexo do que a festa que alugou suas paredes.
E talvez essa seja a última ironia: o underground sobreviveu ao Drácula. O Drácula é que precisou alugar o underground para continuar sugando o nosso sangue para parecer vivo.
Porta de entrada do “Madame Satã”, casa noturna do bairro do Bexiga em SP. Reprodução. Fonte: DCM.




