Um episódio extremo de El Niño pode provocar perdas de pelo menos 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe ao longo de três anos e levar até 4,8 milhões de pessoas adicionais à pobreza até o fim da década.
A estimativa faz parte de um relatório especial divulgado nesta segunda-feira (21) pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas. Os números representam um cenário de forte intensidade do fenômeno e não significam que as perdas necessariamente ocorrerão.
Segundo o estudo, aproximadamente metade do impacto econômico estimado poderia se concentrar já no primeiro ano. Agricultura, geração de energia, pesca e infraestrutura estão entre as áreas mais expostas.
O alerta ganha importância diante da possibilidade de um El Niño particularmente intenso no ciclo 2026-2027.
O que é um Super El Niño?
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial. A mudança interfere na circulação atmosférica e altera padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
Quanto maior o aquecimento das águas, maior pode ser a intensidade do fenômeno e de seus impactos.
No cenário analisado pela Cepal, projeções climáticas indicam elevada possibilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte durante o fim de 2026 e o início de 2027.
O relatório também trabalha com a possibilidade de um evento de magnitude excepcional, chamado de “Super El Niño”, caracterizado por anomalias particularmente elevadas na temperatura da superfície do Pacífico.
Isso não significa, porém, que os impactos econômicos estimados pela Cepal estejam garantidos. O tamanho das perdas dependerá da intensidade, duração e distribuição dos efeitos climáticos entre os diferentes países.
Energia entra na zona de risco
Um dos principais pontos de preocupação é a geração de eletricidade.
Diversos países latino-americanos dependem fortemente das hidrelétricas, o que aumenta a exposição do sistema elétrico a períodos prolongados de seca.
A combinação de chuvas abaixo da média e temperaturas mais altas pode reduzir a disponibilidade de água nos reservatórios ao mesmo tempo em que aumenta o consumo de eletricidade para refrigeração.
Segundo o relatório, algumas áreas da região podem enfrentar probabilidade de déficit de precipitação de até 60% entre outubro e dezembro de 2026.
Grandes centros urbanos também podem sofrer pressão pelo aumento simultâneo da demanda de eletricidade e redução da disponibilidade hídrica.
Agricultura pode sofrer com secas
O setor agropecuário aparece entre os mais vulneráveis a um episódio extremo.
Secas podem reduzir a produtividade das lavouras, diminuir a disponibilidade de água e alimentos para os animais e afetar diretamente a renda de produtores e trabalhadores rurais.
Com base em análises da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o relatório aponta risco elevado de seca agrícola em partes da América Central, Colômbia, Venezuela e Caribe.
Além das perdas no campo, uma redução da oferta de alimentos pode pressionar preços e ampliar os efeitos sobre famílias de menor renda.
Pesca também pode perder produção
Os impactos podem chegar ainda à atividade pesqueira no Oceano Pacífico.
O aquecimento das águas provocado pelo El Niño enfraquece o processo que transporta águas profundas e ricas em nutrientes para a superfície. A mudança afeta a cadeia alimentar marinha e pode alterar a distribuição de espécies comercialmente importantes.
A Cepal lembra que episódios extremos anteriores provocaram fortes quedas nas capturas pesqueiras da região.
No evento de 1972-1973, a redução chegou a 52,7%. Durante o El Niño de 1997-1998, considerado um dos mais intensos já registrados, a queda foi de 26,9%.
Até 4,8 milhões podem entrar na pobreza
Os impactos sobre produção, emprego, renda e preços ajudam a explicar por que um fenômeno climático pode também aumentar a pobreza.
No cenário extremo calculado pela Cepal, até 4,8 milhões de pessoas adicionais poderiam ficar abaixo da linha de pobreza até o fim da década, em comparação com um cenário sem os efeitos do El Niño.
Uma quebra de safra pode simultaneamente diminuir a renda no campo e aumentar o preço dos alimentos. Problemas na geração de energia podem elevar custos para consumidores e empresas, enquanto a redução da pesca atinge diretamente comunidades dependentes da atividade.
Para reduzir os danos, a Cepal recomenda que os governos reforcem sistemas de alerta, mecanismos de proteção social e fundos para emergências, além de investir em infraestrutura mais resistente aos eventos climáticos.
O órgão também aponta a necessidade de diversificar as fontes de geração de energia, ampliar a integração dos sistemas elétricos e preparar estoques e recursos para possíveis períodos de seca.
A avaliação é que antecipar medidas de adaptação pode reduzir tanto o impacto econômico quanto os efeitos sociais caso o El Niño alcance intensidade excepcional.




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