Por Cleber Lourenço
Um levantamento do ICL Notícias mostra que o investimento diário em anúncios pagos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governo federal aumentou 123% em setembro, ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes passaram a ocupar um espaço até então residual nesse tipo de publicidade.
O gasto diário declarado passou de R$ 15,4 mil em agosto para R$ 34,5 mil em setembro. No mesmo período, a presença de STF e Moraes mais que quadruplicou: saiu de 3,3% para 14% das peças monitoradas.
A comparação com os dados coletados desde agosto mostra uma mudança que vai além do aumento do dinheiro. Até o início de setembro, o Supremo praticamente não aparecia entre os principais assuntos dos anúncios. No levantamento fechado em 3 de setembro, conteúdos relacionados a instituições, Polícia Federal e STF representavam apenas 1% das peças. Ataques pessoais contra Lula concentravam 73,4%, enquanto economia, impostos e taxação respondiam por 21,2%.
Nas semanas seguintes, o quadro mudou rapidamente. Em setembro, o eixo institucional chegou a 13,9% das peças. Quando a análise considera especificamente a presença de referências ao STF e a Moraes, a participação chega a 14%, contra os 3,3% registrados em agosto.

Mais dinheiro e mais anunciantes
O crescimento dos gastos começou antes de o STF ganhar protagonismo. Dados coletados até 3 de setembro já mostravam que o valor mediano aplicado em cada peça havia passado de R$ 199 para R$ 299. O valor médio subiu de R$ 714 para R$ 1.150, e a parcela de anúncios acima de R$ 2 mil aumentou de 11,8% para 18,3%.
A expansão também ocorreu pelo aumento do número de anunciantes. Entre 1º e 16 de agosto, foram identificados 160 perfis diferentes. Entre 26 de agosto e 3 de setembro, eram 229. Destes, 163 não tinham aparecido na primeira janela e foram responsáveis por 61% das 410 peças registradas no período.
Também mudou quem colocava dinheiro nesses conteúdos. Candidatos sem mandato respondiam por 31,1% das peças na primeira quinzena de agosto e passaram a representar 60,1% entre 26 de agosto e 3 de setembro. No sentido contrário, páginas classificadas no monitoramento como “satélite” recuaram de 23,9% para 7,6%. A parcela sem partido identificado caiu de 27,5% para 9%.
Os dados mostram, portanto, duas mudanças sucessivas. Primeiro, a publicidade contra Lula cresceu, ficou mais cara e passou a envolver um número maior de anunciantes identificados. Depois, já em setembro, o STF e Moraes ganharam espaço no conteúdo dessas peças.

STF chega a um quarto dos anúncios em uma semana
Ao todo, o levantamento mais recente identificou 123 peças com referências ao STF ou a Alexandre de Moraes. Elas somaram R$ 183,9 mil em investimento declarado no período analisado.
A evolução semanal evidencia a velocidade da mudança. O eixo institucional chegou a representar 16,1% das peças em uma semana de setembro e 21,5% na seguinte. Considerando especificamente as referências a STF e Moraes, a presença chegou a 25,4% na semana de maior incidência — aproximadamente uma em cada quatro peças monitoradas.
O contraste com agosto é significativo. Até o começo de setembro, mesmo com o volume e os gastos já em crescimento, assuntos ligados a instituições, PF e STF continuavam próximos de 1% do conteúdo. O salto ocorreu posteriormente, transformando o Supremo em um novo eixo da publicidade paga contra o presidente.

Master aparece, mas não explica avanço do STF
O Banco Master também ganhou espaço nos anúncios. Foram identificadas 42 peças relacionadas ao banco ou ao banqueiro Daniel Vorcaro, das quais 34 estabeleciam alguma associação com Lula ou o PT. O investimento declarado nesse conjunto chegou a R$ 56,7 mil.
Os dados, porém, mostram que a entrada do STF nesse tipo de publicidade é mais ampla do que a narrativa sobre o Master. Das 123 peças que fazem referência ao Supremo ou a Moraes, apenas 13 também mencionam o banco, o equivalente a 10,6%. Nove associam especificamente Moraes ao Master.
A linguagem utilizada também é diferente. Nas peças relacionadas ao Master, predominam associações entre pessoas, o banco e personagens ligados a ele. Nos conteúdos sobre STF e Moraes, são mais frequentes acusações e ataques diretos ao tribunal e ao ministro.
As curvas dos dois assuntos também se descolaram. O Master chegou a representar 10,6% das peças em seu pico, mas depois recuou para 2,8%. Já o eixo institucional continuou crescendo e alcançou 21,5%.
Páginas sem identificação perderam espaço
O monitoramento também permite observar outra transformação desde agosto. Em uma fase anterior, foram identificadas 110 peças publicadas por 59 páginas nas quais não havia candidato, partido ou empresa claramente identificável por trás do anúncio.
Esse tipo de perfil teve uma participação especialmente elevada em meados de agosto. Na semana de 15 a 21 daquele mês, páginas satélite chegaram a responder por 46,5% das peças. Na última semana analisada no levantamento encerrado em 3 de setembro, a participação havia despencado para 5,8%.
Houve ainda uma concentração temporal incomum: 39 das 110 peças começaram a circular somente nos dias 15 e 16 de agosto, distribuídas por 15 páginas. A coincidência, sozinha, não permite afirmar que havia comando comum entre os perfis, mas indicou um movimento concentrado que posteriormente perdeu força.
A mudança de perfil ajuda a reconstruir a evolução da publicidade monitorada desde agosto. O período começou com peso maior de páginas sem identificação clara e anúncios de baixo valor. Depois houve entrada de novos anunciantes, maior participação de candidatos identificados e aumento dos valores investidos. Em setembro, com o gasto diário 123% superior ao de agosto, STF e Alexandre de Moraes passaram de tema praticamente residual a um dos principais assuntos das peças contra Lula.



