Condenado por estelionato organizou encontro de Flávio Bolsonaro em São Caetano

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Por Bernardo Cotrim e Cleber Lourenço

Um condenado por estelionato organizou um encontro de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com empresários e o prefeito de São Caetano do Sul, Tite Campanella, segundo o secretário municipal de Planejamento, Fábio Cruz. O almoço ocorreu ontem, sexta-feira (7), na churrascaria Vivano, no ABC Paulista. Lucas Jeronymo de Moraes, apontado pelo secretário como responsável pela organização, também já disputou eleições e se envolveu em controvérsias judiciais.

O almoço reuniu Flávio, Campanella, integrantes da Prefeitura e mais de 60 empresários e políticos da região. Durante o encontro, o senador discursou ao lado do prefeito e concentrou parte de sua fala em ataques ao Judiciário. Lucas Jeronymo aparece ao fundo do vídeo. É o mais alto entre os homens e veste terno e camisa branca. Confira:

Em uma publicação nas redes sociais após o encontro, Cruz agradeceu Lucas Jeronymo de Moraes pelo trabalho na organização do evento, classificando a atuação de Lucas – chamado de “amigo” pelo secretário – como “brilhante”. Nos registros do almoço que circulam na internet, Lucas aparece sentado ao lado do secretário e acompanha Flávio na saída do restaurante.

O agradecimento foi feito por meio de uma menção ao perfil de Lucas nos stories de Fábio Cruz

A participação de Lucas nos bastidores da agenda chama atenção por seu histórico vinculado a acusações de golpes e condenações por estelionato. O empresário também é um dos nomes que aparecem no entorno da campanha do PL e que acumulam problemas na Justiça, segundo registros e reportagens consultados pelo ICL Notícias.

Condenações por estelionato

A atuação de Lucas na organização do encontro chama atenção também pelo histórico judicial. Há pelo menos duas condenações por estelionato associadas ao empresário, além de outros episódios que foram alvo de reportagens e disputas na Justiça.

Uma delas remonta a 2018. Reportagens publicadas posteriormente sobre seu histórico registraram que ele havia sido condenado a um ano e três meses de prisão por estelionato, com substituição da pena.

Outro caso é mais recente e permite reconstruir em detalhes a maneira como Lucas atuou.

A história começou em 2019 e envolveu a família de um jovem de 18 anos que queria se tornar jogador profissional. Lucas se apresentou como alguém capaz de abrir portas no futebol. Inicialmente, a oportunidade apresentada seria em Andorra, na Europa. Posteriormente, a promessa mudou: o jovem poderia chegar ao Palmeiras.

Segundo a acusação do Ministério Público, Lucas afirmou à família que Leila Pereira, então conselheira do Palmeiras e hoje presidente do clube, teria feito uma proposta de 8 milhões de euros pelo jogador.

Para transmitir credibilidade, mostrou fotografias nas quais aparecia ao lado de Leila e de outras personalidades ligadas ao futebol. A suposta negociação, entretanto, exigiria gastos.

A família passou a entregar dinheiro que supostamente serviriam para bancar documentos, impostos e outras despesas que seriam necessárias para concretizar a transferência. Os pagamentos chegaram a aproximadamente R$ 84 mil. Mas a proposta milionária não existia.

No processo, o Palmeiras informou não ter mantido contato com Lucas sobre a contratação do jovem e negou ter apresentado qualquer proposta. Também foi constatado que Lucas não tinha credenciamento da Confederação Brasileira de Futebol para atuar como agente de atletas. O caso terminou em condenação criminal.

Em junho de 2024, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação por estelionato e fixou pena de um ano e dois meses de reclusão, substituída por prestação de serviços à comunidade. Lucas também foi condenado ao pagamento de dez salários mínimos à vítima, além de multa.

A defesa sustentou que não houve fraude, mas um problema decorrente de uma relação contratual. Também negou que Lucas tivesse agido com a intenção de enganar a família. A tese não prevaleceu no julgamento.

Fantástico reuniu outros relatos sobre Lucas

Em reportagem exibida em 2021, o Fantástico reuniu relatos de pessoas que afirmaram ter sofrido prejuízos em negócios ou projetos ligados a Lucas. Augusto Recife, ex-jogador de Cruzeiro e Flamengo, contou ao programa que participou de um projeto no Arapongas, no Paraná, após Lucas se apresentar como ligado a investidores e prometer salário de R$ 18 mil. Segundo Recife, após cerca de três meses, havia recebido aproximadamente R$ 1,5 mil.

O programa também abordou a participação de Lucas na aproximação entre o São Paulo e a corretora iSure para um contrato de patrocínio que durou três partidas. A parceria terminou em disputa judicial entre o clube e a empresa. Segundo a versão apresentada pela iSure à Justiça, Lucas buscava benefícios como notoriedade e a possibilidade de negociar jogadores com o São Paulo. O contrato, porém, foi firmado diretamente entre o clube e a corretora, sem Lucas como parte.

A reportagem também apresentou relatos de ex-companheiras que afirmaram ter sofrido prejuízos financeiros. Uma delas disse ter perdido cerca de R$ 50 mil. Esses episódios foram apresentados pelo Fantástico como relatos e disputas, e não como condenações por estelionato. Lucas negou as acusações feitas por ex-companheiras à época.

O retorno à política

Lucas disputou uma cadeira na Câmara Municipal de São Bernardo do Campo em duas eleições consecutivas, em 2012 e 2016. A segunda candidatura acabaria aparecendo anos mais tarde na reportagem do Fantástico sobre seu histórico.

Segundo o programa, depois de encerrar formalmente as contas da campanha eleitoral de 2016, Lucas teria distribuído pelo menos 20 cheques que não puderam ser compensados.

Entre os destinatários estavam comerciantes que afirmavam ter fornecido produtos ou serviços. Parte deles recorreu à Justiça para tentar receber. Lucas acabou condenado a ressarcir comerciantes.

O episódio dos cheques, porém, não deve ser confundido com suas condenações criminais por estelionato. Não há nos documentos consultados pelo ICL Notícias elementos para afirmar que a condenação por estelionato tenha sido provocada pelos cheques relacionados à campanha eleitoral.

A presença de Lucas no almoço de sexta-feira ganha outra dimensão quando colocada diante desse histórico.

A reportagem questionou a campanha de Flávio Bolsonaro sobre a relação do senador e de sua equipe com Lucas Jeronymo de Moraes, se ele participou da organização do encontro a convite da campanha ou por meio de uma articulação local e se a equipe tinha conhecimento de suas condenações e de seu histórico judicial. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.





ICL Notícias

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