TSE e adversários esquadrinham hipóteses de fraude em crescimento de Cury

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Na madrugada da quarta para a quinta-feira da semana passada, entre os dias 26 e 27 de agosto, o número de perfis que seguem o psiquiatra e escritor de “autoajuda” Augusto Cury, candidato do Avante à presidência da República, recebeu um acréscimo de 1,6 milhão de novas contas. Impossível deixar de perceber. Na esteira do dia 3 de janeiro desse ano, nas oito horas seguintes ao anúncio de que havia sequestrado e a expatriado Nicolás Maduro na Venezuela, o perfil de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, engordou na ordem de 1,4 milhão de novos seguidores.

A estupidez do que falam e a queda para professarem ideias sem nexo e descoladas da realidade pode aproximar Trump e Cury. Porém, a similaridade dos números, com vantagem para o brasileiro autor de manuais de “autoajuda” não pode deixar margem para dúvidas de ninguém: havia algo errado no crescimento exponencial do candidato presidencial do Avante nas redes.

No sábado, 29 de agosto, a semana se encerrada para ele com um saldo positivo de quase 2,5 milhões de novos seguidores antes mesmo da “sabatina” à qual foi submetido no Jornal Nacional (Rede Globo). No dia anterior, sexta-feira, dia 28, ele tinha sido sabatinado por uma bancada da GloboNews que não escondeu a impaciência com as platitudes e aberrações ditas por Augusto Cury. O escritor virou motivo de chacota (fazia todo o sentido) dos repórteres da emissora de TV por assinatura. Na TV aberta, contudo, as ironias ficaram por conta da repercussão nas redes sociais porque os âncoras do JN se creem “isentos”.

Mesmo que tivesse tido um desempenho histórico nas duas sabatinas, o que não foi o caso (longe disso), Cury obteve menos de 19 mil menções na rede “X” (antigo Twitter) contra quase 39 mil menções feitas a Ronaldo Caiado quando ele abriu a temporada de sabatinas nas emissoras das Organizações Globo. A se crer que o crescimento exponencial de seguidores de Cury é orgânico (não fermentado por dinheiro, por verbas abusivas que compram seguidores em “fazendas” mantidas no exterior, geralmente em paraísos fiscais, o que é proibido pela legislação eleitoral brasileira), ele teria ocorrido num momento anterior à hiperexposição de mídia. Por quê? Como isso se deu? Houve anabolizantes (dinheiro) nesse processo? É isso o que analistas do Tribunal Superior Eleitoral precisam determinar nos próximos dias. A Justiça Eleitoral foi provocada por ações do PT e do Missão, além de uma interpelação do PL. As assessorias jurídicas do PSD e do Novo não se manifestaram ainda.

 

NADA EXPLICA O SALTO DE CURY NAS PESQUISAS

Ontem, dia 31, com a base de seguidores do presidenciável do Avante já inflada misteriosamente, as empresas de pesquisa Nexus (grupo FSB, que presta serviços de comunicação e publicidade a políticos e administrações de vários matizes) e Atlas Intel (que presta serviços a instituições do Sistema Financeiro) divulgaram números de suas pesquisas semanais de intenções de voto e Cury surgiu estranhamente alavancado e em terceiro lugar em ambos os levantamentos.

Na BTG/Nexus, paga pelo Banco BTG, de André Esteves, que esteve com Donald Trump no último fim de semana num Clube de Golfe segundo a jornalista Mônica Bérgamo (Folha de S Paulo), o candidato do Avante dá um salto de nove pontos percentuais – saiu de 2% de intenções na semana anterior para 11% de acordo com os dados de ontem. Na Atlas Intel (encomendada e paga pela agência de notícias Bloomberg, uma das mais solicitadas pelo Sistema Financeiro), o psiquiatra surgiu com 7,8% de intenções de voto agora contra 1,6% no fim de do mês de julho.

A pesquisa BTG/Nexus ouviu 2.005 eleitores por telefone entre 28 e 30 de agosto. O levantamento tem margem de erro de 2 pontos percentuais e registro no TSE BR-08900/2026. A Atlas/Intel ouviu 5.014 eleitores por recrutamento digital aleatório entre 25 e 30 de agosto. A margem de erro é de 1 ponto percentual e o registro no TSE é BR-07972/2026.

A hipótese que se investiga – entre adversários do presidenciável do Avante e também na Justiça Eleitoral – é a possibilidade de algum sistema de robôs que agem responsivamente a pesquisas realizadas pelo método IVR (Interative Voice Response, ou “resposta de voz interativa”) utilizado pela empresa Nexus, e também outros tipos de bots que responderiam positivamente ao recrutamento digital feito pela empresa Atlas Intel, tenham sido adquiridos pelo esquema de campanha de Augusto Cury e estejam sendo usados durante essa campanha brasileira. Ambas as tecnologias são desconhecidas no Brasil – porém, depois da explosão de uso e de formatação de prompts específicos para softwares de Inteligência Artificial, dá-se de barato na área técnica do TSE que robôs com esses atributos específicos “podem existir”. Se existirem, eles podem estar na raiz da explicação para o crescimento repentino das intenções de voto em Augusto Cury na disputa presidencial. Caso as pesquisas Quest e DataFolha programadas para a quarta e quinta-feira desta semana mantenham o candidato do Avante no bloco dos nanicos – com menos de 5% de intenções de voto, sem ter sido alçado à terceira colocação – as teses investigadas ganham força.

Quaest e DataFolha utilizam, respectivamente, entrevistas interpessoais face a face e em ponto de fluxo. Os entrevistadores as duas empresas não atuam por meio de robôs eletrônicos. Os analistas do Tribunal Superior Eleitoral, por sua vez, procuram se antecipar a toda e qualquer novidade no campo da burla à legislação brasileira para evitar o que ocorreu em 2018. Naquele ano, só na última semana da eleição, antes do segundo turno em que Jair Bolsonaro (PSL, à época) venceu Fernando Haddad (PT), descobriu-se o esquema ilegal de disparo em massa de whatsapp com mensagens eivadas de crimes eleitorais. Agora, os técnicos do TSE se prepararam para agir antecipadamente em relação à imprensa.





ICL Notícias

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