‘Teve conotação político-eleitoral’, diz candidata do PT espancada e alvejada pela PM em SC

0
1


“Eu não tenho dúvida de que, num estado onde o slogan da nossa segurança pública é ‘o bambu vai roncar’, o que aconteceu comigo teve conotação político-eleitoral”. O sentimento da candidata do PT, suplente na disputa ao senado em Santa Catarina, Fernanda Klitzke (PT), é captado nas imagens que viralizaram ao longo da semana. Lá ela aparece sendo rendida, espancada e alvejada por tiros de bala de borracha por parte da Polícia Militar, mas sua dor também está expressa nas marcas do corpo e na fala, bastante calma, apesar das agressões sofridas.

No último sábado, 12 de setembro, Fernanda viveu um dia cheio de alegrias, como ela mesma resume. Reuniu-se com mulheres da campanha, lideradas pela candidata a vice-governadora Angela Albino (PDT). À noite, quando retornou de Florianópolis a Jaragua do Sul, onde reside, deu tempo de parar na confraternização dos amigos de partido. Foi lá que a PM bateu para resolver uma desavença de vizinhança que escalou para uma série de agressões testemunhadas e reunidas em vídeos virais.

O conflito começou quando um convidado da festa, um rapper, negro, chegou à rua na carona do carro guiado pela companheira. No veículo tocava uma música de apoio a Lula, que atraiu a ira da vizinha do local onde a festa estava sendo realizada. Imagens das câmeras de vigilância mostram a mulher indo abordar o carro, mas não registram o som alto.

Quando a PM chegou, mais de uma hora após a ocorrência, já não havia mais conflito a ser mediado, mas os policiais foram procurar o proprietário do carro dentro da festa, abordagem considerada desproporcional. Eles tentaram revistar o homem, que exigiu um mandato e foi algemado e colocado no camburão. Uma convidada saiu da festa e se reportou à agente policial para mediar o conflito, mas recebeu um mata-leão.

Foi aí que Fernanda começou a participar da cena. Vendo a situação escalar, rapidamente se apresentou como advogada, com as mãos erguidas. Nesse momento, foi alvejada com a primeira bala de borracha nos pés. Depois, sofreu uma rasteira, caiu, e foi chutada. Um amigo tentou intervir, alertando que ela era advogada e também candidata, e recebeu um disparo na virilha. Depois, Fernanda foi algemada e levada para o camburão. Antes, ela também foi alvejada nas pernas, o que fez com que a chave do carro, que estava no bolso, explodisse. Os hematomas ainda são fortes e visíveis.

Ainda no carro da PM, ao lado do homem que causou a reclamação da vizinha, Fernanda testemunhou conversas que deixaram explícitas as motivações políticas da escalada de agressões. Com ironias, policiais comentavam que se fosse uma festa verde e amarela nada disso teria acontecido, mas era uma festa vermelha. Eles ficaram no portal malas por mais de uma hora, parados, enquanto os agentes se articulavam para construir a versão que justificasse o fato.

Não há registros em vídeo desse momento, pois a PM de Santa Catarina não usa câmeras corporais, descontinuadas no governo Jorginho Mello. As cenas gravadas por testemunhas e registradas pelas imagens de vigilância das ruas, entretanto, são coerentes com as lembranças da mulher que vivia um sábado pacífico até se ver como vítima do Estado.

Reprodução de imagens do vídeo que registrou a abordagem violenta

De homenageada a alvo

Fernanda conta que já foi homenageada pelo batalhão da Polícia Militar de Jaraguá do Sul. Advogada e filha de promotor aposentado, ela também atuou como chefe de gabinete e controladora geral na gestão do ex-prefeito Dieter Janssen (PP). A pauta da segurança sempre foi tratada com respeito às instituições e cordialidade. Dessa vez, no entanto, a cordialidade e as condecorações foram substituídas pela truculência.

A candidata não recebeu um pedido de desculpas, nem mesmo informal, do batalhão da cidade. “A corporação não fará nenhum outro pronunciamento até que todos os trâmites sejam seguidos e finalizados”, disse a PM, em nota na qual reforça que “os fatos estão sendo apurados pela Corregedoria-Geral, que adotará as providências necessárias à análise das circunstâncias da ocorrência”.

Em nota logo após o ocorrido, a PM já havia informado que o assunto seria tratado pela corregedoria, mas o governador licenciado e candidato à reeleição, Jorginho Mello, se apressou em gravar um vídeo, em tom eleitoral, descredibilizando a versão da vítima e inflando a ocorrência que deu origem à abordagem com tons de narrativa policialesca.

“Eu acho que a gente está esquecendo de um fator muito importante, que é a saúde mental dos nossos policiais, que precisam de um amparo mental e psicológico, de capacitação. A gente precisa começar a tratar os nossos policiais adequadamente, disponibilizar acompanhamento psicológico”, diz. Ela também avalia que os protocolos para ocorrências foram descumpridos desde a oitiva da denúncia pelo 190, o que reforça a urgência de capacitação constante.

O caso também marca a Fernanda pela simbologia a respeito da violência de gênero. Santa Catarina registrou, em 2025, uma média de um caso de feminicídio por semana. No primeiro semestre de 2026, os registros já apontavam para um aumento na média, o que reforça a importância de políticas claras e eficientes de combate à violência contra mulher.

“Eu acho que o aspecto de gênero tem muito tom nesse episódio. A gente precisa começar a conversar sobre isso com um olhar diferente, sabe? É importante que a gente coloque na mesa as situações graves e analise o papel de cada um dentro delas”, fala Fernanda.

Sobre esse papel, ela lembra que foram as mulheres que tentaram interceder pelo homem constrangido pela PM e que, depois, cuidaram dela durante os exames médicos. Foi uma mulher, também, que filmou a abordagem e publicou em tempo real os registros que ganharam o país. “O sentimento é de que as mulheres sempre estão à frente”, relata.

Desdobramentos

A PM garante “que adotará as providências necessárias à análise das circunstâncias da ocorrência”. Um deputado estadual, entretanto, chegou a sugerir uma moção de aplausos aos agentes envolvidos com a abordagem, que foi arquivada na Assembleia Legislativa. Panfletos extremistas passaram os últimos dias tentando reforçar o discurso do governador, que tenta tratar o caso de modo completamente diferente do que o registrado pelas imagens.

Imediatamente após a ocorrência, o Tribunal Regional Eleitoral também emitiu nota, manifestando confiança “na célere e transparente apuração dos fatos pelas autoridades competentes”. A Ordem dos Advogados do Brasil é outra entidade a acompanhar o caso, já que Fernanda foi abordada e agredida após se apresentar como advogada, com violação das suas prerrogativas.

O Partido dos Trabalhadores solicitou que a Polícia Federal ficasse à frente das apurações, e Fernanda recebeu um telefone do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, solidarizando-se com o ocorrido. Para ela, a dimensão política do fato também abre uma brecha para se discutir o impacto do discurso institucional na violência do Estado. “A partir do momento que você vê o governador do estado dizendo ‘o bambu vai roncar’, a gente percebe que o bambu ronca para baixo, né? Eu imagino dessa forma”.

Em julho de 2022, uma festa de um militante do PT terminou em tragédia no Paraná, quando um policial penal invadiu uma festa e matou o tesoureiro do partido em Foz do Iguaçu, Marcelo Arruda, de 50 anos. Os advogados da vítima consideraram o crime político. Jorge Guaranho, condenado pela morte de Marcelo, teve a prisão convertida para o regime domiciliar em março deste ano.

 





ICL Notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui