Por Leila Cangussu
A Suprema Corte dos Estados Unidos recusou analisar o recurso de Donald Trump e confirmou sua condenação por agressão sexual e difamação contra a escritora E. Jean Carroll. Com a decisão, Trump terá de pagar 5 milhões de dólares, cerca de 26 milhões de reais, à autora, que afirma ter sido agredida sexualmente pelo então empresário num provador de roupas em Nova York, na década de 1990.
Carroll, ex-colunista da revista Elle, também venceu um segundo processo. Nele, Trump foi condenado a pagar 83,3 milhões de dólares por declarações difamatórias feitas em 2019, quando negou publicamente as acusações. Em ambos os casos, ele recorreu e perdeu. A recusa da Suprema Corte encerra, na prática, as tentativas de reversão.
O que a derrota judicial de Trump representa, porém, vai além do valor das indenizações. Como debatido no programa ICL Notícias Primeira Edição desta terça-feira, a condenação tem peso simbólico, mas pouco efeito prático sobre um bilionário. ‘A mensagem que isso manda para grandes bilionários é que não pega nada, e se pegar, você paga alguns milhões e está tudo resolvido’, avaliou o jornalista Cesar Calejon durante o programa, ‘Você normaliza a conduta por um determinado preço.’, pois crimes de violência sexual resolvidos com multas, sem pena de prisão, constroem um sistema em que dinheiro compra impunidade.
Essa lógica se aprofunda quando se observa a trajetória financeira de Trump no atual mandato. Segundo análise do ICL, a fortuna do presidente cresceu 70% em apenas um ano: era de 4,3 bilhões de dólares em setembro de 2024 e chegou a 7,3 bilhões um ano depois. Parte desse crescimento, apontou o programa, tem origem em operações que envolvem diretamente o exercício da presidência, incluindo negócios com criptomoedas, movimentações no mercado de defesa com informação privilegiada e contratos que beneficiam o círculo familiar, como o genro Jared Kushner e o enviado especial Steve Witkoff.
‘Esse dinheiro está saindo do bolso do próprio contribuinte estadunidense, porque ele está enriquecendo de forma absurdamente ilegal’, disse o comentarista Cesar Calejon no programa. A comparação é precisa: enquanto cidadãos comuns respondem à Receita Federal por diferenças de centenas de reais, o presidente da maior potência do mundo multiplica sua fortuna em bilhões sem consequências fiscais ou legais aparentes.
Outro ponto levantado no ICL diz respeito ao caso Jeffrey Epstein, no qual Trump figura entre os nomes citados em denúncias de abuso sexual envolvendo menores. O assunto praticamente desapareceu da agenda pública nos Estados Unidos. ‘Ele inventou uma guerra, inventou um conflito e acabou a história’, disse Heloisa Villela. A capacidade de Trump de gerar crises sucessivas e desviar atenção de investigações anteriores é parte do padrão, não exceção.
O programa do ICL também traçou um paralelo com o Brasil. ‘Aqui a gente prendeu o nosso golpista’, disse William de Lucca, referindo-se à prisão de Jair Bolsonaro após a tentativa de golpe de Estado. ‘O Trump não seria presidente do Brasil se tivesse tentado dar golpe aqui.’ A observação coloca em xeque a narrativa que posiciona os Estados Unidos como modelo de democracia consolidada e Estado de Direito, narrativa que o programa qualificou como falácia.
A condenação mantida pela Suprema Corte é uma derrota judicial para Trump, sem dúvida. Mas ela não muda o quadro estrutural: um homem condenado por agressão sexual segue ocupando o cargo mais poderoso do mundo, com a fortuna crescendo e as investigações mais graves varridas para debaixo do tapete da crise permanente que ele mesmo alimenta.
Assista ao ICL Notícias Primeira Edição desta terça-feira, 30 de junho de 2026:




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