Rubio ‘detesta’ Lula, mas negociação com Brasil depende mesmo de Trump, dizem analistas dos EUA — Brasil de Fato

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O secretário de Estados dos Estados Unidos, Marco Rubio, é um político de extrema direita que enxerga o governo brasileiro de Luiz Inácio Lula da Silva como ameaça socialista. Mas, tendo sido encarregado de negociar as tarifas de exportações brasileiras para os EUA com nosso vice, Geraldo Alckmin, deve seguir as orientações de seu chefe, Donald Trump, segundo analistas estadunidenses ouvidos pelo Brasil de Fato.

Michael Galant, pesquisador sênior no Centro de Pesquisa Econômica e Política de Washington DC, ressalta que o governo Trump traz contradições em seu núcleo duro e “Rubio e sua corja não são a única opção”.

“Marco certamente pode ser anulado por Trump e será obrigado a tomar posições que já declarou se opor, caso Trump lhe mande fazer isso. Então não é desesperador.”

Posição semelhante expressou James Green, pesquisador da Brown University. “Rubio como todas as pessoas que trabalham com o presidente, sabe que não pode enfrentar o Trump, tem que aceitar o que ele diz. Se Trump insistir em ter boas relações com o Brasil isso vai acontecer”, disse ele à reportagem.

Afeto imprevisível

Nada mais distante do panorama de fins de julho, quando Trump anunciou tarifas extras de 40% sobre as exportações brasileiras, elevando o tarifaço contra nós a 50%, a mais alta do mundo, ao lado da Índia. Pior: o tarifaço foi justificado como pressão para o judiciário absolver Jair Bolsonaro, chantagem reinvindicada por seu filho Eduardo como sendo de sua autoria intelectual.

Mas o judiciário não cedeu, Bolsonaro pegou mais de 27 anos de cana e o governo se impôs, surgindo aos olhos do mundo como um dos únicos países a peitar o império. Em 23 de setembro, enquanto muitos temiam palavras durísimas do magnata em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump surpreendeu. Ele improvisou um discurso amistoso no qual disse que ele e Lula haviam se encontrado pouco antes de sua fala, que havia ocorrido “química” entre eles, trocaram telefones pessoais e marcaram de conversar brevemente.

A conversa “amistosa” segundo ambos, selou que ocorreriam negociações entre Rubio e Alckmin para rever o tarifaço. Mas Green pondera que “é fundamental entender que o Trump é uma criança de sete anos, que é uma carência enorme dessa criança que não foi amado”.

“Ele precisa de aceitação dos outros, todos sabem disso, e tem muito a ver com a receptividade que ele teve com o Lula, que foi por acaso, porque o discurso dele mesmo, o que estava escrito, atacava horrivelmente o Brasil”, disse ele.

“Essa sua peculiaridade psicológica indica que não pode confiar nele. Se ele é constante, ou se ele vai abandonar esse bromance [romance hétero entre dois grandes amigos] que está inventando com o Lula, ninguém hoje sabe. Esse elemento está obviamente favorável ao Brasil, mas é instável, não se sabe se é uma mudança geopolítica ou apenas por acaso.

Marco Rubio, anticomunista radical (desde que não atrapalhe os planos)

O senador republicano e figura influente na política dos EUA tem sido um crítico das políticas brasileiras, especialmente em relação a Cuba e ao governo Bolsonaro. Rubio liderou ações como a revogação de vistos de autoridades brasileiras e criticou a condenação de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, classificando o processo como “caça às bruxas”.

O filho de imigrantes cubanos que chegaram aos EUA sem falar inglês, nascido em 1971, também ameaçou o Brasil com possíveis medidas em resposta ao que considera uma “ruptura do Estado de Direito”. A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, foi incluída na Lei Magnitsky após as declarações de Rubio.

“Rubio é astuto, ideologicamente motivado e não respeita a soberania das latino-americanas. O Brasil não é seu o principal alvo, que são, claro, Cuba e Venezuela, mas é certamente decepcionante que ele esteja liderando estas negociações”, diz Michael Galant.

“Ele é um aliado de Bolsonaro e há muito detesta Lula, em particular, por sua oposição ao bloqueio dos EUA a Cuba. Um ponto importante é que, ao contrário de Trump, ele não pode ser influenciado por bajulação.”

James Green pondera que apesar de anticomunista ferrenho, “Rubio também é um oportunista total. Na campanha eleitoral de 2016, Trump fez um ataque brutal contra ele, que engoliu e aceitou tudo, inclusive fazendo coisas que são contra as ideias ideológicas dele, para poder ser perto do poder.”

“Mais importante: a principal preocupação dele agora é vencer a disputa com o atual vice. J.D. Vance, para ser o candidato republicano nas eleições presidenciais de 2028, caso Trump seja impedido de mudar as regras e concorrer a um terceiro mandato”, diz ele.

O que deve acontecer?

Em entrevista à TV Mirante, do Maranhão, nesta terça-feira (7), Lula disse que pediu a Donald Trump que Rubio converse “sem preconceito” com o Brasil.

“Pedi a ele [Trump] para dizer ao Marco Rubio para conversar com o Brasil sem preconceito, porque, pelas entrevistas que ele deu, há um certo desconhecimento da realidade do Brasil”, disse o presidente brasileiro.

Por outro lado, Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro nos EUA, elogiou a escolha de Marco Rubio para negociar com o Brasil, afirmando que isso significa “zero de avanço”. Figueiredo e Eduardo foram denunciados pela PGR por coação, acusados de articular sanções contra o Brasil para influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro.

Michael Galant calcula que “a equipe de Trump tem ouvido muito sobre os impactos de suas tarifas sobre empresas americanas poderosas. Esperaria que o Brasil também esteja mantendo linhas abertas com outros indivíduos menos comprometidos ideologicamente na administração, como o secretário do Tesouro, Scott Besant.”

“Se Lula conseguir manter a linha direta com Trump, inclusive nas próximas reuniões intergovernamentais, isso seria um ponto positivo. Não é um bom sinal que Rubio esteja no comando, mas muito depende de quanta liberdade Trump está dando a ele neste caso específico”, conclui ele.

James Green afirma imaginar que “após a Casa Branca ter conversado com a JBS, é provável que abaixem as tarifas para a carne, além do café, como já ventilou Trump. Importante ter em mente que Trump precisa ter o que mostrar, deixar claro que tirou algo do Brasil, como terras raras, por exemplo.”

“Mas em última instância, se Trump decidir ter boas relações com o Brasil, isso vai acontecer.”



Fonte:Brasil de Fato

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