Por Cleber Lourenço
Relatórios da Polícia Federal apontam que um núcleo ligado aos interesses da família Vorcaro operava com veículos blindados, homens armados com fuzis, pagamentos destinados à manutenção de equipes de segurança e participação de um policial federal da ativa que mantinha uma arma considerada “irrastreável” pelos investigadores. As conclusões fazem parte da Operação Compliance Zero, que investiga uma suposta organização criminosa associada ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo a PF, os elementos analisados indicam que Manoel Mendes Rodrigues comandava uma estrutura no Rio de Janeiro com características semelhantes às de uma organização paramilitar. O relatório afirma que o grupo era colocado à disposição de interesses do núcleo empresarial vinculado à família Vorcaro.
Em outra frente da investigação, Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa identificado como integrante do núcleo conhecido como “A Turma”, foi preso em flagrante após a apreensão de uma arma de fogo com numeração raspada. No mesmo contexto, a PF afirma ter encontrado com ele cinco armas, 18 carregadores e 1.192 munições de diversos calibres, incluindo 182 munições de fuzil.
Estrutura armada
A análise da Polícia Federal sustenta que Manoel Mendes Rodrigues possuía “uma estrutura semelhante a uma organização paramilitar”, com “pessoal treinado como se agentes de segurança pública fossem”, uso ostensivo de armamento de alto potencial lesivo, veículos com proteção balística e hierarquia própria.
Segundo os investigadores, essa estrutura teria sido utilizada em favor da segurança da família Vorcaro no Rio de Janeiro.
Os relatórios citam conversas entre Manoel Mendes e André Martins Hodge, identificado como intermediário entre Henrique Vorcaro e Manoel. Em um diálogo de 19 de fevereiro de 2026, os dois comentam um encontro envolvendo pessoas ligadas ao grupo empresarial dos Vorcaro.
De acordo com a investigação, André Hodge afirma recordar que André Beraldo e Felipe Vorcaro foram recebidos em veículos blindados e na presença de homens armados com fuzis. A recepção, que segundo Manoel deveria transmitir segurança, acabou provocando medo.
O relatório registra que Manoel explicou ter determinado que “nosso pessoal” realizasse a segurança dos visitantes. Disse ainda que havia pedido para todos ficarem “o mais paisana possível” e que posicionou o grupo à distância para que os convidados se sentissem em “boas mãos”.
O resultado, porém, teria sido o oposto.
Segundo a transcrição reproduzida pela PF, André Hodge afirma que os visitantes foram recebidos “com pessoa com fuzil” e ironiza que havia sido “só gente boa”. Em outro trecho, os participantes comparam a situação à “Rússia do Putim”, numa referência ao aparato armado empregado no encontro.
A investigação destaca que entre os presentes estava Felipe Vorcaro, sobrinho de Henrique Vorcaro e primo de Daniel Vorcaro, preso na quinta fase da Operação Compliance Zero sob suspeita de atuar como operador financeiro do esquema. O relatório também menciona André Beraldo, alvo de busca e apreensão por suspeita de operar empresas ligadas aos interesses de Daniel Vorcaro.
‘Botei nosso pessoal pra tomar conta deles’
As mensagens reproduzidas no relatório mostram a tentativa de Manoel Mendes de justificar a presença armada.
Em uma das conversas, André Hodge escreve que os visitantes haviam sido recebidos em “carro blindado” e “com pessoa com fuzil”.
Manoel responde:
“Botei nosso pessoal pra tomar conta deles, ao invés de relaxarem ficaram assustados.”
Em seguida, acrescenta:
“Eu pedi pra todo mundo ficar o mais paisana possível e deixar eles à vontade.”
A resposta de André é direta:
“Acho que vc fracassou nisso.”
Para a Polícia Federal, os diálogos reforçam a existência de uma estrutura privada armada, organizada e mobilizada para atender interesses ligados aos Vorcaro.
O relatório afirma que os elementos demonstram a “periculosidade” de Manoel Mendes Rodrigues e apontam que ele exercia gestão e controle de uma estrutura “hierarquizada e extremamente organizada”, semelhante a grupos paramilitares.
Segundo os investigadores, o grupo atuava “às margens do Estado” e estaria à disposição dos investigados tanto para proteger integrantes da organização quanto para promover ameaças e retaliações contra pessoas consideradas inconvenientes aos seus interesses.
‘Botei um sniper de longe’
A PF também cita um diálogo de 25 de setembro de 2025 que reforça a preocupação dos investigadores com o potencial bélico do grupo.
Na conversa, Manoel e André Hodge discutem problemas relacionados à segurança de um empreendimento. Segundo o relatório, Manoel relata que foi se reunir com o responsável anterior pela vigilância do local, que estaria acompanhado de quatro policiais militares.
Embora afirme ter ido sozinho ao encontro, Manoel acrescenta:
“Cheguei lá de boa com 4 pm armado pra me receber.”
Na sequência, faz uma revelação que chamou a atenção dos investigadores:
“Eu fui sozinho e botei um sniper de longe.”
A Polícia Federal observa que “sniper” é uma expressão utilizada para designar atiradores de elite treinados para disparos de precisão a longa distância.
Ainda no mesmo diálogo, Manoel faz uma afirmação de hostilidade contra policiais militares.
“PM bom é debaixo de 7 palmos.”
André responde:
“PM bom é os que estão do nosso lado.”
Para os investigadores, a resposta sugere uma lógica de cooptação de agentes públicos compatível com o funcionamento atribuído à organização investigada.
Cobrança para pagar ‘a segurança’
O relatório também relaciona a estrutura armada a cobranças financeiras feitas por Manoel Mendes a Henrique Vorcaro.
Em 9 de janeiro de 2026, após a primeira fase da Operação Compliance Zero, Manoel volta a cobrar valores que afirma estarem em atraso.
Em um áudio transcrito pela Polícia Federal, ele diz precisar receber ao menos R$ 200 mil para pagar a segurança e outras despesas relacionadas ao grupo.
“Eu preciso de pelo menos desse valor aí, uns 200 conto. Porque aí eu pago esse mês, pago a segurança, pago todo mundo aqui embaixo.”
Em outro trecho, Manoel afirma que já havia utilizado recursos próprios para manter a estrutura funcionando.
“Eu já botei um pedaço do meu aqui e esse mês eu também tô apertado.”
Para os investigadores, a conversa reforça a suspeita de que havia pagamentos recorrentes destinados à manutenção da estrutura coordenada por Manoel.
A análise da PF aponta ainda que Henrique Vorcaro e Manoel Mendes mantiveram contatos frequentes até a véspera da sexta fase da operação, deflagrada em 14 de maio. Apenas nos dias 12 e 13 de maio, segundo o relatório, os dois se falaram nove vezes por chamadas de voz. Uma delas teve duração superior a 27 minutos.
Na avaliação dos investigadores, os contatos indicam que Henrique continuava atuando como operador financeiro em favor da “Turma”.
Arma considerada ‘irrastreável’
A outra frente do relatório envolve Anderson Wander da Silva Lima.
Segundo a Polícia Federal, o policial federal foi preso em flagrante após a apreensão de uma arma calibre .38 com numeração raspada.
Após a realização de exames periciais, os investigadores conseguiram recuperar a numeração de série originalmente suprimida. Ainda assim, a consulta ao Sistema Nacional de Armas não localizou qualquer registro vinculado ao armamento.
A conclusão da PF é que Anderson mantinha em sua posse uma arma considerada “não existente” e, portanto, “irrastreável” pelos sistemas oficiais de controle.
Segundo o relatório, isso permitiria a utilização do armamento sem associação imediata ao policial ou a terceiros.
Arsenal fora do padrão
A investigação também afirma ter encontrado no armário funcional de Anderson, na Delegacia de Polícia Federal do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, uma segunda arma de fogo calibre .22 com indícios de supressão de número de série. O armamento foi encaminhado para perícia.
No mesmo armário, os investigadores localizaram munições intactas e deflagradas do mesmo calibre. O volume total de material apreendido chamou atenção da Polícia Federal.
Segundo o relatório, foram encontradas cinco armas de fogo, 18 carregadores e 1.192 munições de diversos calibres. Desse total, 182 eram munições de fuzil calibre 5.56.
Os investigadores observam que Anderson não integrava grupo tático nem atuava em área operacional que justificasse, segundo a análise da PF, a posse de tamanha quantidade de munições de alto calibre.
Embora parte do armamento pudesse ser compatível com sua condição de policial federal, a investigação sustenta que o contexto do caso e sua vinculação à “Turma” ampliam a relevância do material apreendido.



