Polícia Federal pede ajuda aos EUA para rastrear dinheiro de filme sobre Bolsonaro

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Por Cleber Lourenço

A Polícia Federal (PF) fez, nesta sexta-feira (9), um pedido de cooperação internacional aos Estados Unidos para rastrear o destino de recursos movimentados pelo fundo Havengate, utilizado no financiamento de Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Os investigadores querem esclarecer como o dinheiro foi distribuído e se parte dos valores teve destinação diferente da produção cinematográfica.

A informação foi confirmada pela Polícia Federal ao ICL Notícias. O pedido foi encaminhado ao Ministério da Justiça, responsável pela tramitação da cooperação jurídica internacional, e representa um novo passo na investigação sobre o financiamento do longa-metragem, que envolve o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Uma das suspeitas investigadas é a de que parte do dinheiro enviado ao fundo americano tenha sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e atividades de articulação contra autoridades brasileiras. A hipótese já havia sido revelada em junho, quando a PF ainda estudava os mecanismos para obter acesso às informações financeiras mantidas no exterior.

O Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. A estrutura recebeu recursos associados a Vorcaro por meio da Entre Investimentos e Participações, empresa vinculada ao ex-banqueiro.

Documentos da investigação apontam que Vorcaro havia negociado um investimento de até US$ 24 milhões na produção. Os repasses identificados pela PF, entretanto, somaram aproximadamente US$ 12,3 milhões, equivalentes a cerca de R$ 64 milhões.

As negociações envolveram diretamente Flávio Bolsonaro. Em gravações reveladas pelo The Intercept Brasil, o senador cobra de Vorcaro a liberação de parcelas do financiamento e menciona compromissos financeiros assumidos com pessoas envolvidas na produção.

Fundo ficou anos sem movimentação

Outro elemento identificado pela Polícia Federal é que o Havengate, constituído em 2020, permaneceu sem atividade operacional por quase quatro anos antes de voltar a movimentar recursos em 2025, justamente no período em que começaram os repasses relacionados ao filme.

O fundo passou a ser uma das principais peças da investigação porque concentra parte das movimentações financeiras realizadas fora do Brasil. O acesso aos registros americanos pode permitir que a PF identifique os beneficiários das transferências, os contratos associados aos pagamentos e a eventual existência de repasses a terceiros.

Em junho, a Folha de S.Paulo revelou que os investigadores pretendiam solicitar a quebra do sigilo financeiro do Havengate. Na ocasião, a PF avaliava os instrumentos jurídicos necessários para conseguir a colaboração das autoridades americanas.

O pedido formalizado nesta sexta-feira representa o avanço dessa iniciativa. A obtenção dos dados, porém, ainda depende da tramitação da solicitação e das providências cabíveis nos Estados Unidos.

Prestação de contas não esclareceu todos os repasses

A produtora Go Up Entertainment apresentou uma perícia privada segundo a qual o filme custou US$ 13,39 milhões, aproximadamente R$ 75 milhões. O documento atribuiu ao Havengate o financiamento da produção, mas não apresentou publicamente a identificação completa dos investidores nem todos os contratos e comprovantes das despesas.

A ausência dessas informações mantém em aberto questões sobre a origem e o destino dos recursos, especialmente diante das suspeitas de que parte do dinheiro possa ter sido utilizada para finalidades diferentes daquelas previstas nos contratos de produção.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades no financiamento de Dark Horse e sustenta que os recursos tiveram destinação legítima. O senador também afirmou anteriormente que a prestação de contas já havia sido realizada pela produtora.

A investigação sobre o financiamento do filme integra as apurações relacionadas ao Banco Master e foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. O caso envolve suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, ainda sob investigação.

Com a cooperação internacional, a Polícia Federal pretende avançar sobre uma parte da movimentação financeira que depende de informações mantidas fora do Brasil. Os registros poderão ajudar a esclarecer se os milhões enviados ao Havengate foram integralmente utilizados na produção de Dark Horse ou se houve pagamentos a outros beneficiários.





ICL Notícias

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