Por José Henrique Mariante
(Folhapress) – Em relatório publicado nesta quarta-feira (2), o Pnuma, o programa das Nações Unidas para o meio ambiente, faz um amplo relato sobre as implicações de um planeta acima do 1,5°C de aquecimento e as escolhas que restam para trazer a temperatura global de volta a níveis suportáveis. Lista também o estrago que o processo deixará pelo caminho.
Há opções, não muitas, e elas são urgentes, segundo a publicação “Limiting overshoot”, que traz no título o termo científico usado para descrever uma trajetória de aquecimento acima do preconizado pelo Acordo de Paris. “Precisamos nos empenhar para manter o pico do aquecimento o mais baixo possível e esse próprio pico o mais curto possível para derrubar as temperaturas”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
Assinado em 2015, o acordo definiu que as nações signatárias têm o compromisso de conter o aumento da temperatura do planeta bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com o esforço de não superar 1,5°C. Pelo cenário atual de emissões, provocado sobretudo pela queima de petróleo, carvão e gás natural, esse limite será superado antes do fim da década; 2,8°C são projetados para o fim do século.
A estratégia descrita por Andersen se chama “trajetória de pico e declínio do ‘overshoot’”. Pelo plano, o planeta realizaria reduções rápidas e profundas nas emissões de CO₂, metano e outros gases de efeito estufa em busca de emissões líquidas zeradas. Na sequência, buscaria ir além desse marco, trabalhando com emissões líquidas negativas.
Tudo isso significa retirar dióxido de carbono do ar, com os métodos naturais conhecidos, como reflorestamento, e também por meio de tecnologias ainda em desenvolvimento. “Como complemento da redução das emissões, não como seu substituto”, alerta a diretora.
Para cada 0,1°C de aumento nos termômetros, o IPCC, painel intergovernamental sobre mudanças climáticas, calcula que seriam necessárias emissões negativas de 220 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, algo como quatro vezes o que é lançado anualmente na atmosfera.
“Para ter sucesso, portanto, precisamos de uma vontade política mais firme e de multilateralismo, além de uma governança mais ágil e inclusiva”, diz Andersen, lembrando que preceitos como igualdade e Justiça precisam balizar as ações. “Países com maior responsabilidade histórica pela mudança climática têm que fazer a maior parte do trabalho”.
Em termos gerais, o estudo do Pnuma lista três fases ou desafios para enfrentar o “overshoot”:
- Respostas já. É preciso políticas imediatas para cortar as emissões de carbono e também de gases de vida mais curta, como o metano; medidas urgentes de adaptação devem ser tomadas para proteger populações e ecossistemas, já submetidos a inúmeros efeitos deletérios da mudança climática.
- Limitar o aquecimento e gerenciar riscos. Investir em uma descarbonização profunda rumo às emissões líquidas zero; ao mesmo tempo, aprimorar estratégias de adaptação, prevendo uma gama mais ampla de riscos e impactos, pois, ainda que os termômetros sejam contidos, os estragos de um planeta aquecido estarão em curso.
- Sustentar a redução das emissões e ampliar a adaptação. Depois de zerar as emissões líquidas,será preciso torná-las negativas para retirar CO₂ da atmosfera e baixar os termômetros; buscar sustentabilidade para gerenciar riscos climáticos persistentes.
“Já estamos vendo esses riscos crescendo em frequência, intensidade e duração, com implicações para os sistemas naturais que nos sustentam”, diz Debra Roberts, uma das autoras do relatório, em referência à ocorrência cada vez maior de eventos extremos no planeta, como ondas de calor, secas, enchentes e elevação do nível do mar.
Boa parte desses fenômenos, mostram estudos de atribuição, vem sendo intensificada ou mesmo provocada pela mudança climática. Um exemplo eloquente, ainda em análise, é o recente deslizamento de terra entre o Nepal e a China, com milhares de vítimas. Um novo normal para o planeta e sem volta, na maioria dos casos.
O estudo reconhece que fazer o mundo retornar a uma determinada temperatura não vai reverter as perdas acumuladas durante o período de “overshoot”. “É o caso dos ecossistemas em risco: corais, zonas úmidas costeiras, florestas tropicais, montanhas polares e outros sistemas naturais vulneráveis que vão ultrapassar limites críticos durante essa trajetória. Todos seremos impactados.”
Questionada qual era a diferença de mudar de verbo em relação ao limite de 1,5°C, de evitar ultrapassá-lo para agora, admitido o fracasso coletivo, trabalhar para voltar a ele, Andersen declarou que era uma forma de reconhecer o momento em que o planeta se encontra.



