ONU projeta nova alta nos preços dos alimentos até o fim de 2026

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O mundo pode enfrentar uma nova onda de encarecimento dos alimentos nos próximos meses, impulsionada por uma combinação de fatores: a guerra entre Irã e Israel, o conflito na Ucrânia e os efeitos do El Niño sobre a produção agrícola. O alerta é de Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), que prevê alta nos preços das commodities agrícolas ainda neste ano, com impacto mais intenso sobre os alimentos entre o fim de 2026 e ao longo de 2027.

Em entrevista à Reuters, Torero explicou que o repasse do aumento das commodities para o preço final pago pelo consumidor costuma levar entre três e seis meses. “Acredito que os preços das commodities comecem a subir mais agora, e que os alimentos passem a encarecer até o fim do ano. No ano que vem, com certeza, a alta será ainda maior”, afirmou.

Segundo Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas, os preços dos alimentos devem aumentar nos próximos meses (Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)

Por que os alimentos ficaram estáveis até agora

Os alimentos foram um dos principais motores da disparada da inflação global em 2022, mas neste ano os preços seguiram relativamente estáveis, ajudando inclusive a suavizar, em alguns países, o impacto do aumento dos custos de energia. Segundo Torero, essa calmaria deve ser temporária.

Isso porque uma série de fatores está pressionando os custos de produção agrícola: a alta do petróleo, a redução na oferta de fertilizantes vindos da região do Golfo, a escassez de diesel em algumas partes do mundo e eventos climáticos extremos. Para o economista, esse aumento de custos inevitavelmente chegará ao consumidor final, ainda que com algum atraso.

Mesmo com a alta recente de commodities como trigo, milho e arroz, os preços atuais ainda refletem boas safras dos últimos meses e não incorporam totalmente as dificuldades esperadas para o próximo ciclo agrícola.

O papel do Estreito de Ormuz na crise

Torero chama atenção para o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural comercializados no mundo, que se tornou um ponto crítico de preocupação também para o setor agrícola. “O Estreito de Ormuz afeta todos os insumos da agricultura. O petróleo Brent é usado no bombeamento de água, nas embalagens, no processamento e no transporte. Já o gás natural é essencial para a produção de fertilizantes”, explicou.

Paralelamente, os ataques da Ucrânia à infraestrutura russa de petróleo e gás reduziram a oferta disponível para exportação de diesel e gás natural, dois insumos essenciais para a produção de alimentos. Como os preços das commodities são definidos globalmente, os efeitos acabam sendo sentidos em diferentes países, mesmo que as economias mais ricas tenham mais recursos para proteger seus produtores. “Estamos ouvindo isso na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil e na Ásia. As margens apertadas estão influenciando as decisões de plantio”, disse Torero.

Nos Estados Unidos, por exemplo, produtores das nove principais culturas agrícolas podem acumular perdas de US$ 32 bilhões (R$ 164,48 bilhões) em 2027 caso não recebam apoio do governo federal, segundo estimativa da American Farm Bureau Federation. A entidade projeta que todas as culturas analisadas devem operar abaixo do ponto de equilíbrio financeiro no próximo ano.

Produção mundial já sente os primeiros efeitos

Os impactos já começam a aparecer no campo. O plantio de trigo e milho recuou nos três primeiros meses da guerra envolvendo o Irã, enquanto parte dos agricultores americanos migrou para o cultivo de soja, que exige menos fertilizantes.

Na Austrália, um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, o governo prevê queda de 21% na produção das culturas de inverno, atribuída em parte à forte alta nos preços de combustíveis e fertilizantes, além da incerteza sobre a disponibilidade desses insumos.

El Niño deve intensificar ainda mais a pressão

Somando-se a esse cenário, o El Niño deste ano deve ser especialmente intenso. O fenômeno altera os padrões de chuva em diversas regiões do planeta, reduz a produtividade agrícola, eleva os preços das commodities e pode levar dezenas de milhões de pessoas à insegurança alimentar grave.

Na Índia, por exemplo, a temporada de monções já começou com atraso, e as previsões indicam chuvas abaixo da média neste mês, o que pode prejudicar a produção de arroz e pressionar ainda mais os preços globais dos alimentos.





ICL Notícias

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