O pesadelo da uberização dos professores

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Por Valter Mattos da Costa*

Imagine a cena. Uma escola da periferia de São Paulo precisa de um professor de Matemática para duas aulas na manhã seguinte. Não há concurso, lotação ou quadro permanente. Há apenas um aplicativo. O sistema identifica os professores disponíveis na região, calcula a distância, compara avaliações, cruza métricas de desempenho e dispara a oferta. O primeiro que aceitar ganha o direito de trabalhar por algumas horas.

O economista responsável pela ideia aparece sorridente nos jornais. Trata-se, segundo ele, de uma revolução educacional. O problema da falta de professores teria sido finalmente resolvido. Nada de estabilidade, nada de carreira, nada de vínculo institucional. Liberdade total. O docente agora seria empreendedor de si mesmo.

Se a proposta parece absurda, convém lembrar que argumentos semelhantes já foram utilizados para justificar a expansão do trabalho por plataformas em diversos setores da economia. O motorista de aplicativo não teria patrão; teria autonomia. O entregador não seria explorado; seria dono do próprio negócio. O trabalhador não perderia direitos; ganharia liberdade.

Talvez Karl Marx sorrisse diante da novidade. Não porque concordasse com ela, mas porque reconheceria imediatamente o velho mecanismo. A força de trabalho continua sendo comprada e vendida. A diferença é que agora ela aparece fragmentada em pequenas tarefas, mediadas por um algoritmo. O capital continua acumulando riqueza, mas consegue apresentar a exploração como escolha individual.

Já Michel Foucault perceberia outro aspecto da questão. O aplicativo não serviria apenas para contratar. Ele também vigiaria. Avaliações dos estudantes, notas atribuídas pela direção, índices de presença, pontualidade, produtividade e reputação digital comporiam um gigantesco sistema de monitoramento. O panóptico deixaria de ser uma prisão para tornar-se uma plataforma.

Mas a crítica talvez se tornasse ainda mais interessante com Byung-Chul Han. Em vez de um chefe ordenando que o professor trabalhe mais, haveria notificações. Em vez de coerção explícita, incentivos. Em vez da disciplina, o desempenho. O docente passaria a acreditar que trabalha porque quer, quando, na verdade, aceitaria cada nova chamada para garantir renda suficiente ao final do mês. O resultado seria a ampliação daquilo que Han chamou de Sociedade do Cansaço: indivíduos que se exploram a si mesmos acreditando exercer sua liberdade.

É aqui que entra a contribuição de Shoshana Zuboff. No Capitalismo de Vigilância, o trabalho não produz apenas valor econômico. Produz também dados. O aplicativo saberia onde o professor está, quanto tempo leva para chegar à escola, quais conteúdos ensina, quantas aulas aceita, quais turmas rendem melhores avaliações e quais horários geram maior produtividade. A atividade docente se transformaria simultaneamente em trabalho e em informação comercializável.

Talvez nem fosse necessário criar uma nova teoria para explicar o fenômeno. Bastaria reunir as anteriores. A vigilância descrita por Foucault, o cansaço analisado por Han e a captura de dados estudada por Zuboff passariam a funcionar em conjunto. O professor seria monitorado, avaliado, ranqueado e incentivado a competir permanentemente consigo mesmo e com seus colegas.

Naturalmente, a proposta seria apresentada de outra forma. Nenhum relatório oficial utilizaria palavras como precarização ou exploração. Os documentos falariam em inovação, eficiência, flexibilidade e modernização. O mercado possui um talento notável para mudar os nomes das coisas sem alterar sua essência.

Dir-se-ia que a educação finalmente entrou no século XXI. O curioso é que o resultado se pareceria menos com o futuro do que com o passado. Antes da consolidação dos direitos trabalhistas, milhões de trabalhadores sobreviviam justamente da venda descontínua de sua força de trabalho, sem estabilidade, proteção social ou garantias mínimas. A tecnologia seria nova. A insegurança, não.

O aspecto mais perverso, e paradoxal, dessa fantasia neoliberal é que ela provavelmente seria justificada pelo próprio adoecimento docente. Como faltam professores, dir-se-ia, precisamos flexibilizar as relações de trabalho. Como os docentes estão exaustos, precisamos transformá-los em prestadores de serviço, pejotizados. Como a escola enfrenta dificuldades, precisamos entregar sua gestão aos algoritmos.

É uma lógica peculiar: o sistema produz o adoecimento e depois apresenta a precarização como remédio para a doença que ele próprio criou.

Se esse cenário parece distante, talvez seja prudente lembrar que quase toda forma de precarização começa como promessa de liberdade. O trabalhador perde direitos, mas ganha autonomia. Perde estabilidade, mas ganha flexibilidade. Perde proteção, mas ganha oportunidade.

E, quando percebe o que aconteceu, descobre que continuou sendo um profissional mal pago. Enriquecendo os donos das escolas e, principalmente, os proprietários do aplicativo.

Talvez fosse oportuno recordar Paulo Freire. Para ele, ensinar nunca foi uma simples prestação de serviço, mas um ato de diálogo e formação humana. O professor não é um operador de plataformas nem um entregador de conteúdos. A escola pode até ser administrada por algoritmos; a educação, não. Porque, no dia em que a docência for reduzida a uma corrida aceita por aplicativo, não teremos perdido apenas direitos trabalhistas. Teremos perdido a própria compreensão de que educar é uma prática de liberdade.

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP, editor da Dissemelhanças Editora e autor de Diário do Professor.





ICL Notícias

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