Os donos do poder no futebol brasileiro não compreendem o esporte como cultura, mas apenas como negócio. Recentemente, abraçaram as bets como náufragos segurando boias de salvação recheadas de grana e o bolsonarismo nada de braçada nas direções de vários clubes.
O que esse fato tem a ver com o dia 15/4/1989, quando 96 torcedores morreram e 766 ficaram feridos durante o jogo entre Liverpool e Nothingan Forest, pelas semifinais da Copa da Inglaterra ?
A catástrofe – a maior do futebol inglês – estimulou o governo neoliberal da Primeira-Ministra Margareth Thatcher a atacar o ‘hooliganismo’. Um primeiro relatório do governo sobre a tragédia atribuiu a culpa aos torcedores do Liverpool, que abusaram do álcool e da violência. Investigações posteriores desmentiram o primeiro relatório, que teria sido adulterado pelo governo, e comprovaram que a tragédia ocorreu em virtude da superlotação, das condições do estádio e de erros dos responsáveis pela segurança da partida, que abriram uma entrada durante o jogo com acesso a setores que já estavam superlotados, causando o esmagamento e o sufocamento de centenas de pessoas.
Naquele contexto, o governo de Thatcher desmontava o estado de bem-estar social e estava em guerra aberta contra os sindicatos de trabalhadores. Vários desses sindicatos tinham ligações com torcidas de futebol, desde as origens do jogo na Grã-Bretanha. No discurso do governo, praticamente todos os torcedores de futebol foram genericamente definidos como hooligans.
O discurso de combate à violência, que de fato ocorria, ensejou, então, diversas mudanças no futebol da Inglaterra e na própria cultura do torcedor. Exigências passaram a ser feitas para melhorar o funcionamento dos estádios, da obrigatoriedade de lugares marcados para torcedores sentados à melhoria do acesso. O preço dos ingressos aumentou de forma significativa, afastando o torcedor de baixa renda das novas arenas. Quem quiser conhecer mais sobre esse processo e suas complexidades, indico o livro Rainha de Chuteiras, do professor Marcos Alvito.
Ao mesmo tempo em que o processo de assepsia ganhava terreno, os principais clubes do país romperam com a Football League e criaram a Premier League, buscando autonomia para negociar a transmissão de jogos para a televisão e os contratos de patrocínio. A cereja do bolo foi o acordo com o magnata das telecomunicações Rupert Murdoch e o contrato para que a Sky TV assumisse a transmissão dos jogos.
Se o dinheiro do contrato trouxe recursos até então inimagináveis para os clubes ingleses, por outro lado veio acompanhado de estratégias cada vez mais ancoradas em um princípio: o futebol deve ser cada vez mais moldado à lógica das telas, inclusive em relação às características do jogo.
A cobertura da TV, com ângulos de câmera inusitados, técnicas de repetição constante de jogadas, exploração de imagens ressaltando o contato físico entre os jogadores, redução do tamanho do campo para reforçar esse contato, jogos praticamente todos os dias para atingir a demanda dos assinantes; escancara a estratégia que norteia a nova era do futebol: a assepsia dos estádios, transformados em arenas multiuso, restringe o público presente a uma parcela com poder aquisitivo maior. O torcedor da nova ordem do futebol deve estar na frente da televisão. Dentro das arenas devem estar os consumidores do ‘produto futebol’, conforme o jargão empresarial.
O governo Thatcher atacou o futebol com objetivos mais profundos, ligados a disciplinarização e contenção das massas urbanas, confrontos com os sindicatos de trabalhadores, sufocamento de movimentos de resistência ao desmonte do estado de bem-estar social no Reino Unido, ataque e criminalização a qualquer tipo de organização capaz de ensejar laços de sociabilidade, se apropriar de espaços públicos e construir redes de proteção entre os mais pobres, etc.
O que começou na Inglaterra ganhou, exceções confirmam a regra, dimensões globais. O processo de aburguesamento do futebol, visto cada vez mais como negócio pelos novos ‘donos do jogo’, não é, portanto, um fenômeno isolado de dimensões mais amplas e está diretamente ligado a processos de disputas, tensionamentos e confrontos típicos de cidades capitalistas (sugiro aqui a leitura dos textos fundamentais do saudoso professor Gilmar Mascarenhas, o cara que entendeu melhor tudo isso).
Pensemos nisso e no que o futebol brasileiro se transformou: um jogo elitizado, em estádios/arenas “mcdonaldizados”, priorizando o pay-per-view, as redes sociais, a infantilização histriônica de parte da crônica esportiva, o culto às celebridades de ocasião, os almofadinhas do mercado. O cliente do jogo, nas arquibancadas, anda mais preocupado em filmar o próprio desempenho e jogar em tempo real nas redes do que no desempenho dos jogadores em campo.
Trata-se de um processo mais amplo de ‘arenização’ do cotidiano e afastamento das camadas populares dos elementos lúdicos que permitiram a apropriação da cidade pelos subalternizados que, nas gerais e arquibancadas, construíram formas de reinventar, no precário, a vida.
Nós estamos assistindo ao assassinato da cultura do futebol brasileiro, ao esfarelamento das ligações afetivas entre clube e torcedor, com a entrega do jogo ao falcões do mercado, que mensuram o futebol apenas a partir de cifrões e engenharias financeiras. Essas aves de rapina ainda querem propor a falsa oposição entre “profissionalismo” e ‘jogo popular’. Recentemente, em nome dessa obscena profissionalização, entregaram o jogo às casas de apostas e cassinos virtuais que estraçalham a economia de milhares de famílias.
A completa submissão do futebol brasileiro ao deus mercado não é resultado, é projeto. Que morram clubes menores, que se esfacelem laços de sociabilidade que o futebol gera. Em maior amplitude, temos um sintoma da financeirização e da precarização absoluta da vida. Esse empreendimento do mercado, não nos enganemos, opera às custas do enfraquecimento do futebol como cultura associativa e desarticula mais um elemento de sociabilidade do nosso povo. Lutar por um futebol popular é, também, lutar por um projeto de Brasil plural, soberano, mais afeito às festas de afirmação da vida que aos réquiens raivosos e obscenos dos cifrões.




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