No Despertar 2026, Marcelo Adnet relata ataques virtuais

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Por Leila Cangussu

Marcelo Adnet afirmou neste sábado (19) que recusou um convite para realizar um novo trabalho de humor político por receio de que os ataques recebidos nas redes sociais chegassem à sua filha. O relato foi feito durante a participação do humorista no Despertar 2026, realizado no Vibra São Paulo.

Adnet contou que recebeu o convite para voltar a se posicionar politicamente por meio do humor e chegou a considerar a importância do trabalho para o debate público. No entanto, decidiu não aceitar.

Agora eu sou pai. As pessoas me xingarem, eu estou acostumado. Não vejo problema. Agora, a pessoa ir para cima da minha filha, eu não quero”, afirmou.

O humorista relatou que passou a receber acusações falsas de ter sido beneficiado pela Lei Rouanet depois de produzir sátiras sobre políticos. Também recebeu mensagens que mencionavam o abuso sofrido por ele na infância.

“Pensaram que iam me vencer, né? Me venceram, realmente, porque não tem dinheiro que pague isso. Como é que você vai se expor a uma coisa dessas?”, disse.

Para Adnet, esse tipo de ação busca desgastar e intimidar artistas e outras pessoas que se posicionam publicamente. O humorista citou ameaças, ataques coordenados e o impacto da violência digital sobre a saúde mental.

“É uma estratégia para me cansar, me dar rugas, me causar problemas psicológicos, aumentar a dose do remédio. Aí eu paro de falar. É assim que funciona”, afirmou.

Humor e disputa política

Adnet disse que se interessou por política ainda na infância, quando acompanhava o horário eleitoral e observava a atuação dos candidatos diante das câmeras. Mais tarde, passou a usar esse repertório em imitações, vídeos e outros trabalhos de sátira. Segundo ele, o humor consegue atingir a imagem de autoridades com poucos recursos, enquanto campanhas políticas investem grandes quantias para construir essas mesmas imagens.

“Enquanto a política gasta milhões e milhões para construir a imagem de alguém, às vezes um comediante com um celular na mão consegue destruir essa imagem com um vídeo”, disse.

Adnet avaliou que a divisão do debate público também beneficia a classe política. Enquanto parte da população direciona sua revolta contra outros grupos sociais, autoridades deixam de ser o alvo principal das cobranças.

“Conseguiram fazer algo muito grave, que foi dividir o povo e fazer com que o povo se ataque. A classe política fica protegida”, afirmou.

O humorista também criticou a transformação da opinião em produto nas redes sociais. Segundo ele, elogios, ataques e até o silêncio sobre determinados assuntos podem envolver interesses financeiros.

Desinformação e ataques automatizados

Durante a apresentação, Adnet falou sobre o uso de robôs na disseminação de ataques. Ele lembrou que foi alvo de mensagens agressivas depois de publicar um texto no qual usava a palavra “bolso” em seu sentido comum. Na avaliação do humorista, sistemas automatizados interpretaram o termo como uma referência a Jair Bolsonaro.

Adnet também ironizou teorias conspiratórias sobre a Terra plana, clones de políticos e outras informações falsas que circulam nas redes. Para ele, a repetição faz com que conteúdos sem base na realidade sejam aceitos por parte do público.

Qualquer coisa que você lê repetidamente, dez vezes, 15 vezes, passa a ser verdade. Isso é muito assustador”, alertou.

O humorista afirmou que não pretende responder à desinformação recorrendo às mesmas práticas.

“Eu não estou preparado para jogar um jogo em que vou precisar mentir sobre o outro, criar fake news. Talvez ninguém aqui esteja, mas tem muita gente preparada para isso, muita gente vivendo apenas disso”, disse.

Abuso na infância e início da carreira

Adnet também falou sobre o abuso que sofreu aos sete anos. Ele contou que levou cerca de oito para compreender o que havia acontecido e que, inicialmente, sentiu culpa e raiva. Sem a possibilidade de mudar o passado, encontrou no humor uma maneira de lidar com a experiência.

“Eu vi que tem outro caminho, que é o caminho da subversão e da vingança através do riso. Eu vou rir da desgraça, eu vou rir da nossa condição humana”, afirmou.

Hoje, compara a lembrança a uma cicatriz. “A ferida fechou. Ela está aqui. Eu não tenho como fazer essa cicatriz ir embora, mas eu aceito. Eu passei por ela. Eu sobrevivi.”

Formado em Jornalismo, Adnet trabalhou em jornal e como assessor de imprensa antes de seguir carreira artística. Segundo ele, o palco ofereceu a liberdade de expressão que não encontrava no trabalho anterior. O humorista também atribuiu sua capacidade de fazer imitações e reproduzir sotaques à escuta.

“Quando você consegue escutar bem, consegue fazer sotaques, cantar uma música, imitar o registro da voz de alguém. Tudo vem da escuta”, explicou.

“O limite do humor é a lei”

Ao falar sobre os limites da comédia, Adnet afirmou que a legislação deve definir o que não pode ser tratado como humor. “O limite do humor é a lei. Se eu matar alguém durante um esquete, isso não é humor, é homicídio. Se eu cometer um ato de racismo durante um esquete, isso não é humor, é crime”, disse.

O humorista também defendeu a capacidade da comédia de questionar hierarquias e reduzir a distância entre autoridades e o público. “O humor é capaz de despir a autoridade de alguém, colocar todo mundo no mesmo lugar. Eu não tenho autoridade só porque estou no palco com um microfone e a luz me segue. Se desligarem o meu microfone, eu perco a minha autoridade”, afirmou.





ICL Notícias

1 COMENTÁRIO

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