Por Cleber Lourenço
A mulher agredida pelo empresário bolsonarista Diogo Freire Estevão na estação Butantã do metrô de São Paulo denunciou ao ICL Notícias que testemunhas do episódio estão com medo de represálias e decidiram não prestar depoimento voluntariamente.
Segundo a vítima, identificada como Mariana, a esposa do agressor procurou uma das mulheres que divulgaram imagens da violência, ameaçou processá-la e mencionou o poder econômico do casal. Após o contato, duas testemunhas teriam apagado publicações e desativado temporariamente seus perfis nas redes sociais.
A denúncia foi feita nesta sexta-feira (23), cinco dias depois da agressão, ocorrida no domingo (18). Mariana afirma que o medo das testemunhas está relacionado também ao histórico de ameaças atribuído ao empresário, que possui uma medida cautelar decretada pela Justiça em razão de acusações de ameaças contra outra mulher.
Em mensagens encaminhadas ao ICL Notícias, Mariana relatou que as testemunhas inicialmente se dispuseram a colaborar com a investigação. Uma delas chegou a publicar o vídeo da agressão, posteriormente compartilhado por outra mulher. A situação mudou, segundo a vítima, depois que a esposa de Diogo entrou em contato com uma das responsáveis pela divulgação.
“A esposa dele entrou em contato com ela, falando que eles iam denunciar, novamente que tinham dinheiro. Conseguiram deixar a menina com medo, até que ela apagou o vídeo, e as duas desativaram o perfil por alguns dias”, contou Mariana.
Nesta sexta-feira, a defesa da vítima voltou a procurar as testemunhas, mas recebeu a informação de que elas não pretendem depor voluntariamente neste momento, por receio de exposição e possíveis represálias.
Mariana afirma compreender a decisão. Segundo ela, as mulheres temem enfrentar alguém que, além de possuir recursos financeiros, já teria feito ameaças envolvendo armas de fogo.
“Ele tem dinheiro e nós não. Ele tem arma e nós não”, relatou.

Defesa confirma receio e busca imagens das câmeras
Em nota enviada ao ICL Notícias, a defesa de Mariana, representada por Leandro Raca e Miguel Fragelli, confirmou que o histórico de Diogo tem provocado insegurança entre as pessoas que presenciaram a agressão.
“Dado o histórico de Diogo Freire Estevão, que já ameaçou outra mulher e possui medida cautelar decretada contra si em razão disso, testemunhas que presenciaram a agressão sofrida por Mariana no metrô têm se mostrado receosas em se disponibilizarem para depor e informar o que presenciaram”, afirmaram.
Diante da resistência das testemunhas, a defesa informou que adotará medidas para assegurar a produção de provas, incluindo a obtenção das gravações do circuito interno de segurança da estação Butantã.
Os representantes de Mariana sustentam que as imagens serão suficientes para comprovar a prática do crime, mesmo diante da dificuldade de obter depoimentos voluntários.
A decisão das testemunhas não impede que sejam posteriormente convocadas pelas autoridades. O episódio, porém, acrescenta um obstáculo à investigação: pessoas que presenciaram a violência afirmam temer as consequências de identificar o agressor e relatar o que viram.
Empresário é acusado de ameaçar casal de morte
O receio relatado pelas testemunhas ocorre em meio a outras acusações contra Diogo Freire Estevão.
Em maio deste ano, após uma discussão envolvendo sua esposa em um supermercado, o empresário passou a ser acusado de ameaçar Priscila Lopes Soares e Claudio Renato Soares.
Em petição apresentada à Justiça pela defesa do casal, foram atribuídas a Diogo declarações como “vou acabar com a vida de vocês”, “se eu pegar vocês, eu acabo com vocês” e “eu tenho arma, eu tenho dinheiro”.
Segundo os relatos apresentados no processo, as ameaças teriam ocorrido por telefone e mensagens. O empresário teria utilizado referências à posse de arma de fogo e à sua condição financeira para intimidar os envolvidos.
Em 13 de outubro, cinco dias antes da agressão no metrô, a Justiça determinou medidas de proteção em favor do casal, proibindo Diogo de se aproximar ou manter contato com os denunciantes. O empresário negou as ameaças à Polícia Civil.
Mariana afirma possuir vídeos recentes em que Diogo faz declarações sobre armas e ameaças contra uma mulher. Segundo ela, em uma das gravações, ele diz que, caso encontrasse a pessoa mencionada, ela estaria “a sete palmos da terra”.
As declarações relatadas pela vítima ainda precisam ser confrontadas com os arquivos originais.
Registro policial de 2024 aponta outra acusação de agressão
O histórico de ocorrências envolvendo o empresário inclui um episódio registrado em abril de 2024, em Vargem Grande Paulista, na região metropolitana de São Paulo.
Na ocasião, Diogo e outro homem foram apontados em um registro policial relacionado a acusações de injúria e lesão corporal contra o administrador de um centro empresarial.
Segundo o relato registrado, a confusão começou após um desentendimento sobre regras de estacionamento.
O administrador afirmou que Diogo o insultou e avançou em sua direção para agredi-lo, mas foi contido por funcionários. Outro homem envolvido na discussão teria tentado atingir a vítima com um chute, acertando um veículo estacionado.
O registro policial documenta as acusações feitas na ocasião, mas não representa, por si só, comprovação de culpa ou condenação dos envolvidos.
Mariana denuncia ataques e dificuldades após agressão
Além do medo das testemunhas, Mariana relata dificuldades para conseguir atendimento e dar continuidade às providências após a agressão.
A vítima diz que continua apresentando hematomas, enfrenta dificuldades para dormir e ainda não conseguiu retomar sua rotina de trabalho.
Mariana também denuncia ataques nas redes sociais. Atriz, ela afirma que sua profissão passou a ser utilizada por usuários para colocar em dúvida a veracidade da agressão, apesar da existência de imagens do episódio.
“Eu sou atriz e não ganhei um real pra isso, na verdade eu apanhei, estou gastando dinheiro e perdendo dinheiro, me expondo”, desabafou.
Segundo Mariana, algumas pessoas chegaram a sugerir que a agressão teria sido encenada, enquanto outras ironizaram a repercussão do caso.
Ela também contesta a versão apresentada por Diogo, que alegou ter reagido a um contato físico no ombro. A vítima afirma que o empresário a atingiu com três socos fortes e que a esposa dele tentou arrancar seus dreadlocks durante a confusão.
O empresário alegou legítima defesa em sua versão sobre o episódio.
Para Mariana, tornar pública a violência foi uma forma de denunciar não apenas a agressão, mas também as dificuldades enfrentadas pelas vítimas que procuram responsabilização.
“Não tem que fazer filme nenhum não, só tô divulgando porque eu não sou a primeira, nem a segunda”, afirmou.
O ICL Notícias procurou Diogo Freire Estevão, por meio de contatos eletrônicos vinculados à sua empresa, para solicitar esclarecimentos sobre as denúncias de intimidação de testemunhas e as acusações anteriores. Até o fechamento desta reportagem, não havia recebido resposta.



