Metamorfose no Planalto – ICL Notícias

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Acordar de sonhos intranquilos, naquela manhã de 1 de janeiro de 2027, foi menos um despertar e mais a constatação de um erro burocrático do destino. Olhei para as próprias mãos e vi apenas patas quitinosas, segmentadas e trêmulas, que se agitavam no ar úmido do quarto enquanto a TV da sala proclamava a posse de Flaviano. O teto fedia a mofo e a decreto revogado.

Com a ascensão do novo governo, a realidade desabou como uma laje de porão. O país amanhecera sob a égide absoluta do estado de exceção: cada folha de papel timbrado do Estado trazia a carimbada anulação de todas as políticas públicas e sociais, varrendo em um único traço de caneta qualquer simulacro de amparo à vida comum. Na foz do Amazonas, longe dos olhos da capital, o presidente cumprira a promessa feita aos gabinetes do Norte Global: Trump obtivera passe livre para erguer uma imensa base militar americana sobre o lodo dos igarapés, transformando a soberania da bacia em pista de pouso para bombardeiros  e para cargueiros de ouro e terras raras, além do tráfico humano.

Em São Paulo, o Palácio dos Bandeirantes havia sido ocupado de vez pela milícia, que agora despachava nas salas de piso de madeira nobre com a naturalidade de quem sempre mandou na polícia e no porto. Do lado de fora, a já combalida história oficial foi substituída a golpes de marreta: as estátuas dos antigos bandeirantes, de botas, gibões e arcabuzes, foram arrancadas dos pedestais para dar lugar aos monumentos de mármore cinzento e frio da família Bolsonaro, a nova nobreza armada que reescrevia o mapa da província. Sim, um decreto transformou os antigos Estados em Províncias da Revolução Bolsonarista. Até o Museu do Ipiranga amanheceu desfigurado por uma lona preta, rebatizado oficialmente como Museu da Liberdade Bolsonarista, onde a única relíquia exposta era a ata de rendição dos rebeldes da República.

A faísca da revolta, quando veio, rebentou em Recife. Trabalhadoras, estivadores, marginalizados, excluídos de toda sorte e estudantes ergueram barricadas nas ruas de paralelepípedo, recusando o jugo da nova ordem. Mas a resposta do centro do poder foi a cirurgia implacável do batalhão de elite “Jair Messias”. As tropas federais avançaram sobre os estados nordestinos rasgando praças e quintais, deixando um rastro de chacinas e valas comuns que silenciaram qualquer tentativa de levante na base da baioneta e do estrondo.

Enquanto tentava mover meu corpo de inseto contra o assoalho frio, compreendi que a minha monstruosidade solitária era apenas a consequência do que acontecia do lado de fora. Nas fazendas e terras reconquistadas (roubadas) do interior, nos canteiros de obras improvisados nas periferias e nas margens das rodovias federais, o decreto de exceção desaguou na sua consequência mais antiga e secreta. Quilombos inteiros foram cercados e convertidos em frentes de trabalho forçado; comunidades indígenas acuadas nas matas viram suas aldeias transformadas em depósitos de mão de obra acorrentada; e nos bairros operários, as mulheres tornaram-se espólio de servidão reprodutora nos quartéis da milícia.

O relógio batia o primeiro dia do ano e o país inteiro, rebaixado à condição de grande senzala tecnocrática, abaixava a cabeça sob o chicote invisível do progresso. Por sorte, acordei atordoado e percebi que era tudo um grande pesadelo, li Kafka demais na noite anterior…mas sei também que o meu mundo onírico só exercitou aquilo que já existe e que está prestes a nos anular…ainda há tempo, ainda é tempo.

“Metamorfoses do século XXI.” Fonte: Lindener Pareto. 





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