Marqueteiro João Santana copia a si mesmo na campanha de ACM Neto na Bahia

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Por André Uzêda

O principal slogan de ACM Neto (União Brasil) para tentar vencer as eleições de 2026 na Bahia é uma cópia de duas campanhas vitoriosas de candidatos de esquerda na América Latina.

No fim do mês passado, o ex-prefeito de Salvador revelou durante um evento que vai utilizar a frase “Mudança com Segurança” como mote para nortear sua disputa contra Jerônimo Rodrigues – atual governador que busca a reeleição e tenta ampliar a hegemonia do PT no estado para 24 anos consecutivos.

A frase utilizada por ACM Neto encontra um sentido muito similar com a que foi utilizada por Mauricio Funes na campanha de El Salvador, em 2009. Na ocasião, Funes aparecia em cartazes com as palavras “Un Cambio Seguro” (em português, “Uma Mudança Segura”).  

Slogan da campanha de ACM Neto: Mudança com segurança
Campanha presidencial de Mauricio Funes, em El Salvador: Un cambio seguro

 

Três anos depois, foi a vez de Danilo Medina, da República Dominicana, apostar em palavras de ordem que também reproduziam este tipo de construção. “El Mejor Cambio, El Cambio Seguro (traduzindo: “A melhor mudança, uma mudança segura”).

“El mejor cambio, el cambio seguro” foi o slogan de Danilo Medina na República Dominicana

Tanto Funes quanto Medina foram eleitos presidentes dos seus respectivos países na contagem final dos votos. As três frases não são mera inspiração uma das outras, como acontece com alguma frequência na publicidade, seja política ou comercial. Todas partiram exatamente do mesmo criador: o jornalista e publicitário baiano João Santana, hoje com 73 anos. 

O ICL Notícias procurou João Santana e a campanha de ACM Neto, mas nenhum dos dois comentou o assunto. O espaço segue aberto.

Ex-marqueteiro do PT, João Santana coordenou as campanhas presidenciais de Lula em 2006 e Dilma, em 2010 e 2014, vencendo todas elas. A relação íntima com a esquerda brasileira abriu portas para que fosse chamado, além de El Salvador e República Dominicana, para disputas presidenciais também em Angola e na Venezuela. Nesta última participou da reeleição do presidente Hugo Chávez, em 2012.

Em março deste ano, o publicitário foi anunciado como principal marqueteiro de ACM Neto na Bahia. No evento de divulgação do slogan, o ex-prefeito de Salvador deu os créditos a Santana pela concepção da ideia final.

“Claro que passou por mim. Não havia nenhuma hipótese de qualquer slogan ou peça publicitária não passar por nossa avaliação, mas, vocês todos sabem, que quem está coordenando e sendo o principal responsável por conceber nosso marketing é João Santana. Então, esse slogan foi produzido por ele e sua equipe. Assim como toda a proposta gráfica e todas as peças que vocês vão ver a partir de hoje”, disse o herdeiro carlista.

Aposta na segurança pública

A frase foi pensada para ter um um duplo sentido, colocando no centro do debate o tema da Segurança Pública, principal aposta da oposição para conquistar o eleitorado baiano. 

A Bahia lidera  o número absoluto de mortes violentas intencionais no país, além de ter cinco das 10 cidades mais violentas no ranking do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgado no fim do mês de julho.

“A segurança também quer dizer que nós não somos uma aventura. Essa mudança não é para algo desconhecido, algo incerto. Essa mudança é para alguém que tem experiência de ter governado Salvador por oito anos e saído com mais de 80% de aprovação”, disse ACM Neto, no evento de lançamento do slogan, em Salvador.

Na última pesquisa Quaest divulgada para a disputa eleitoral na Bahia, ACM Neto e Jerônimo Rodrigues aparecem tecnicamente empatados. O ex-prefeito de Salvador aparece com 39% das intenções de voto contra 38% do atual governador. A margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Os dois candidatos reeditam este ano o mesmo confronto que aconteceu em 2022. Naquela ocasião, Jerônimo venceu a disputa para ocupar o Palácio de Ondina no segundo turno, com 57,79% contra 47,21%.

Delação e rompimento de João Santana com o PT

Em junho de 2017, João Santana e sua esposa e sócia, Mônica Moura, foram condenados a 7 anos e 6 meses de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro. A condenação partiu do então juiz Sergio Moro, hoje senador pelo PL e candidato ao governo do Paraná, no âmbito da operação Lava Jato.

A pena, no entanto, foi diminuída para um ano e seis meses, após o casal fechar um acordo de delação premiada, que previa a devolução de cerca de R$ 80 milhões, além de cumprimento de parte da pena nos regimes fechado e semiaberto.

O casal ficou proibido de trabalhar com comunicação eleitoral até o fim de 2020. Após o fim da proibição, a cúpula do PT passou a não mais chamar Santana para participar de campanhas eleitorais do partido.

No ano passado, o partido pagou de uma só vez R$2,3 milhões  à Polis Propaganda e Marketing, empresa de João Santana e Mônica Moura, finalizando uma dívida que corria na Justiça desde 2018.

Nas últimas eleições presidenciais, o marqueteiro baiano comandou a campanha de Ciro Gomes, então no PDT. O resultado foi um completo fiasco. Ciro teve apenas 3% dos votos e ficou em quarto lugar na disputa, atrás de Simone Tebet, que teve 4% dos votos.

Contexto na América Latina

Mauricio Funes foi o primeiro presidente de esquerda eleito na história de El Salvador. Em 2009, ele derrotou o então candidato governista Rodrigo Avila por uma margem muito pequena de votos: 51,2% contra 48,7%.

O partido de Avila governava El Salvador por exatos 20 anos, enquanto Funes fazia parte de uma legenda (a FMNL) com histórico de guerrilha marxista. 

O mote da campanha escolhido por João Santana (“Un Cambio Seguro”) era uma forma de sinalizar a necessidade de renovar o governo, mas também de garantir que o partido tinha também abandonado as antigas práticas de combate armado. Funes morreu ano passado, aos 65 anos.

Na República Dominicana, Danilo Medina foi eleito pela primeira vez em 2012, ao derrotar Hipólito Meija, que já havia governado o país antes entre 2000 e 2004.

Uma das frases repetidas por Medina naquela campanha era:

“continuar o que está bom, corrigir o que está mal e fazer o que nunca foi feito.”

Praticamente o mesmo discurso foi repetido por ACM Neto na convenção que o confirmou como candidato para a disputa do governo da Bahia este ano

“Não vamos abandonar o que porventura esteja bom, mesmo que saibamos, por antecipação, que não é muita coisa. Mas vamos sobretudo corrigir o que está mau e, muito especialmente, tentar fazer o que nunca foi feito.” 

Em 2016, quando Medina buscava a reeleição, ele voltou a contratar o marqueteiro baiano para coordenar a campanha. Santana, no entanto, abandonou o projeto ainda no começo, quando foi deflagrada a 23ª fase da Operação Lava Jato. Na ação, batizada de Operação Acarajé, foi expedido um mandado de prisão temporária do publicitário e da sua esposa.





ICL Notícias

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