por José Francisco Sieber Luz Filho*
Acabava de tomar meu café. Já estava praticamente pronto para sair para o escritório quando, por volta das 7h30, senti uma súbita falta de equilíbrio. Alguns segundos depois, lembrando de situações semelhantes que vivi mais de uma vez em Cabul e tantas outras na Cidade do México, entendi que uma vez mais na minha carreira sentia um novo terremoto.
O tremor era bem forte e o balanço aumentou rapidamente de intensidade. Não tive dúvidas. Peguei o celular, a mochila de emergência, aquela que todos nós na ONU mantemos preparada e que não pode ultrapassar quinze quilos, e desci os quatro andares do prédio até chegar ao pátio aberto e seguro onde os moradores já começavam a se reunir.
As horas seguintes são sempre as mais importantes. Em qualquer crise, os primeiros minutos costumam determinar a qualidade da resposta que virá depois. Era preciso entender a magnitude do evento. Pouco a pouco começaram a chegar as informações. Magnitude 7,4, o maior terremoto registrado na Colômbia em mais de uma década. Epicentro em San José del Palmar, no Chocó, uma das regiões mais isoladas, pobres e vulneráveis do país. Relatos crescentes de destruição em áreas urbanas (cidades como Cali, Pereira e Manizales seriamente afetadas) e rurais.
Enquanto o Serviço Geológico Colombiano atualizava os boletins, o quadro humanitário começava a ganhar forma. Em poucos dias, durante a última semana, as autoridades registrariam centenas de mortos, milhares de feridos, milhares de casas danificadas ou destruídas e mais de cem mil pessoas afetadas direta ou indiretamente pelo terremoto. O impacto se espalhou por boa parte do oeste colombiano, região que beira o Oceano Pacífico, atingindo áreas onde fragilidades históricas já existiam muito antes de a terra começar a tremer.
Não demorou para que o governo da Colômbia solicitasse apoio à Equipe Humanitária das Nações Unidas no país. A estrutura de coordenação que normalmente atua diante das consequências do conflito armado (as chamadas Equipes Locais de Coordenação) foi rapidamente mobilizada para responder também a essa emergência. Não se tratava de qualquer contexto. O terremoto atingia justamente territórios onde o conflito armado continua presente, onde comunidades inteiras convivem com deslocamentos forçados, confinamentos, e graves restrições de acesso humanitário.
Em muitos desses lugares, o desastre natural encontrou populações que já haviam perdido muito, antes mesmo do tremor: comunidades afro-colombianas, indígenas, campesinas e ribeirinhas que continuam vivendo entre rios e florestas, muitas vezes sob a influência ou o controle de grupos armados não estatais. Em várias localidades do Chocó, chegar de carro simplesmente não é uma opção. Não há estradas. Há rios. E são eles que conectam pessoas, comunidades e mercados. Ou que as isolam quando a emergência chega.
Nessas horas, a rotina desaparece. Reuniões são canceladas. Missões são interrompidas. Prioridades cuidadosamente planejadas deixam de existir. A resposta à emergência passa a ocupar o centro de tudo.
Na nossa região, apesar da força com que sentimos o tremor em Medellín, pouco mais de 250 quilômetros do epicentro, os impactos foram relativamente limitados. Isso nos permitiu fazer algo fundamental, apoiar imediatamente meus colegas instalados nas áreas mais atingidas.
Contato feito, instruções operacionais recebidas de Bogotá e começamos a despachar o que havia disponível em nosso pequeno estoque local de emergência. Entre os itens enviados estavam dezenas de lâmpadas solares recarregáveis, um recurso aparentemente simples, mas cuja utilidade aprendi a valorizar profundamente ao longo dos últimos anos em Antioquia, no sul de Bolívar e no Catatumbo, regiões afetadas pelo conflito na Colômbia.
Essas lâmpadas fazem muito mais do que iluminar. Carregadas por pequenos painéis solares, funcionam também como fonte de energia para celulares e rádios, algo indispensável quando a eletricidade desaparece. São o que chamamos, no jargão da ONU, “ferramenta de proteção”. Em comunidades afetadas pelo conflito armado, elas iluminam escolas, centros comunitários e casas. Já vi ajudarem famílias inteiras a atravessar períodos de confinamento em meio às hostilidades da guerra. Já vi servirem de única fonte de luz em deslocamentos massivos. E recordo particularmente uma situação em que contribuíram para salvar vidas de trabalhadores rurais que ficaram presos, durante a noite, em meio a confrontos armados.
Em menos de um dia, nosso pequeno estoque se esgotou.
Todas as unidades disponíveis seguiram para o Chocó. Ali, o terremoto também atingiu diretamente colegas do ACNUR, a agencia da ONU para os refugiados. Nosso escritório em Quibdó sofreu danos importantes e vários funcionários foram afetados pelo tremor. Ainda assim, como costuma acontecer em emergências humanitárias, as pessoas que também enfrentavam perdas pessoais estavam, simultaneamente, ajudando outras pessoas que haviam perdido ainda mais. É parte do compromisso que o ACNUR tem com as pessoas que servimos.
Desde a semana passada, esses equipamentos começaram a ser distribuídos em comunidades rurais e ribeirinhas da região. Nossa prioridade continua sendo chegar às mais isoladas, aquelas onde já trabalhávamos por causa dos impactos do conflito armado e onde a presença do Estado continua limitada. O terremoto não substituiu a crise humanitária que já existia. Somou-se a ela.
E possivelmente essa seja a principal lição destes dias.
Desastres raramente acontecem sobre uma folha em branco. Eles atingem territórios marcados por desigualdades, conflitos e vulnerabilidades acumuladas ao longo de décadas. No Chocó, a terra tremeu sobre comunidades que já conviviam com o deslocamento, o confinamento e a exclusão. O terremoto abriu novas feridas, mas também ampliou muitas das que já existiam. E é justamente por isso que a resposta humanitária precisa olhar além dos escombros. Quando as câmeras vão embora e as estatísticas deixam de ocupar as manchetes, são essas comunidades que continuam ali, reconstruindo a vida, uma vez mais, em meio às adversidades da guerra e, agora, do desastre.

*J.F. Sieber Luz Filho, advogado, funcionário internacional do ACNUR, a agência da ONU para os refugiados. (jose.sieber@gmail.com) O texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião das Nações Unidas.
Medellín, 16 de agosto de 2026.
Para mais informações e para realizar doações:https://www.acnur.org/br/




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