Internet supera TV no Brasil, mas deepfakes ameaçam informação

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Por Iago Filgueiras*

Nos últimos anos, o número de usuários conectados à internet no Brasil cresceu significativamente, e esse cenário tem transformado a forma como os brasileiros se informam. Entre aqueles que fazem uso regular do mundo digital, 72% das pessoas com 16 anos ou mais acessam redes sociais diariamente como fonte de informação.

O dado é da pesquisa Painel TIC – Integridade da Informação, lançada pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) no início deste mês. O estudo entrevistou 5.250 usuários de internet com 16 anos ou mais e foi conduzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

Além de confirmar que as plataformas digitais se consolidaram como principal fonte de informação diária para milhões de usuários, a pesquisa traz outros números relevantes:

  • Embora redes sociais sejam usadas por 72% dos entrevistados para acessar informações diariamente, o formato do conteúdo varia: vídeos curtos lideram (53%), seguidos por sites ou aplicativos de vídeo (50%) e feeds de notícias (46%)
  • Aplicativos de mensagem são fonte diária de informação para 60% dos usuários
  • Rádio e televisão ainda alcançam 58%, mas já ficaram para trás das plataformas digitais
  • Revistas digitais ou impressas aparecem em último lugar, com 34%

A encruzilhada da confiança

Com plataformas digitais e aplicativos de mensagem liderando como fonte diária de informação, algumas questões precisam ser respondidas: qual a qualidade do que está sendo consumido e será que os usuários sabem identificar conteúdos desinformativos?

A resposta é complexa. A pesquisa revela que muita gente desconfia “sempre” ou “na maioria das vezes” das informações que recebe. Mas essa desconfiança não é distribuída igualmente: 48% dos usuários desconfiam de veículos de notícias tradicionais, 47% de canais em aplicativos de vídeo ou streaming e 43% de figuras públicas nas redes sociais.

A mídia tradicional na mira da desconfiança

Na prática, a mídia tradicional tem sido mais alvo de desconfiança do que os influenciadores digitais, e o perfil de quem desconfia — ou não — varia. Homens (52%) e pessoas com apenas o ensino fundamental completo (59%) lideram a desconfiança em relação a veículos jornalísticos. Já os influenciadores digitais são vistos com mais ceticismo por usuários com 60 anos ou mais (51%).

Essa desconfiança também parece guiar as escolhas de consumo. Cerca de 65% dos usuários acessam diariamente notícias de veículos jornalísticos; entre os jovens de 16 a 24 anos, o percentual cai para 46%.

Para Fabio Senne, coordenador-geral de pesquisas do Cetic.br, os dados se alinham a uma tendência já observada em outras pesquisas.

“Há uma queda no engajamento com mídias tradicionais e redução no interesse pelo consumo de notícias, sobretudo entre os mais jovens. Esse é um ponto de atenção para as políticas públicas no campo”, afirma em comunicado à imprensa.

A desconfiança caminha lado a lado com o desinteresse pela verificação. Cerca de 34% dos usuários concordam que “não vale a pena pesquisar se as informações recebidas são verdadeiras ou falsas”, e 30% simplesmente não se interessam por esse tipo de checagem.

O desinteresse pela verificação afeta mais homens, jovens, pessoas das classes C e D/E e com baixa escolaridade. O dado revela que a dificuldade em avaliar informações é um fenômeno atravessado por marcadores sociais que aprofundam desigualdades.

Deepfakes afetam milhões diariamente

Que as ferramentas de inteligência artificial fazem cada vez mais parte do cotidiano já é perceptível. A pesquisa identificou que 47% dos usuários de internet com 16 anos ou mais já utilizaram IA generativa, como o ChatGPT. Mas, além de mais uma ferramenta pela qual os usuários buscam informações, a IA também aparece como vetor de desinformação por meio das deepfakes.

Imagens, áudios ou vídeos produzidos ou manipulados por inteligência artificial são cada vez mais realistas e já chegam diariamente e 41% dos usuários entrevistados. Em ano eleitoral, a circulação de deepfakes com potencial nocivo à democracia já é uma realidade.

No início do mês, o jornalista do ICL Notícias, Leandro Demori, denunciou a circulação de vídeos gerados por inteligência artificial com cenas de agressão a mulheres vestindo camiseta do Partido dos Trabalhadores (PT), incitando a violência política dentro de supostas igrejas evangélicas.

Os vídeos chegaram a circular livremente por plataformas como TikTok, Instagram e Facebook, levantando debates sobre o papel das big techs na disseminação desse tipo de conteúdo.

Deepfakes e o cenário eleitoral

Com a maioria dos usuários de internet usando as redes sociais como principal fonte diária de acesso à informação, o número de pessoas expostas às deepfakes chama a atenção. Mas a pesquisa também revelou um cenário ainda mais perigoso.

Muita gente pode estar sendo exposta a esse tipo de material sem nem perceber ou conseguir reconhecer que se trata de um conteúdo manipulado. O estudo identificou que o percentual de pessoas que desconhecem o tema ou o contato com deepfakes é muito influenciado por marcadores sociais.

Cerca de 20% dos usuários das classes D/E desconhecem o assunto, enquanto na classe A o número chega a 7%. O grau de instrução também é outro fator de influência: apenas 8% daqueles com ensino superior não conhecem o tema, enquanto o número chega a 24% entre quem tem o ensino fundamental incompleto.

O cenário gera preocupações que vão além das fronteiras das redes sociais. Em relatório divulgado em 2025, a Agência Brasileira de Informação (Abin) apontou que a velocidade com que se criam e disseminam conteúdos gerados por IA supera a capacidade de verificação e apresentação da verdade e classificou a contaminação do debate público, sobretudo no ano eleitoral de 2026, como “inevitável”.

Conectados, mas vulneráveis

A pesquisa do CGI.br revela mais sobre o ecossistema informacional brasileiro do que sobre hábitos individuais de consumo. Um dos achados aponta para a relação entre o acesso exclusivo à informação por plataformas digitais e a expansão das redes de internet com zero-rating, modelo oferecido por operadoras que permite navegar em aplicativos específicos, principalmente redes sociais, sem desconto da franquia de dados.

Na prática, o fenômeno pode indicar que, para uma parcela significativa dos brasileiros, o plano de dados é quem define onde a informação é consumida.

O estudo também mostra que marcadores sociodemográficos e socioeconômicos — como classe, gênero, escolaridade e idade —  produzem efeitos distintos na forma como as pessoas se relacionam com o conteúdo que consomem, na capacidade de reconhecer informações enganosas e no domínio de habilidades digitais. A vulnerabilidade à desinformação, portanto, não é distribuída de forma igual.

Desconfiança generalizada não protege e pode aumentar a vulnerabilidade

Quanto a forma como os brasileiros atribuem confiança ou se engajam em conteúdos na internet, “os resultados também chamam a atenção para a existência de uma postura de desengajamento informacional entre uma parcela significativa dos usuários de Internet brasileiros de 16 anos ou mais”.

Segundo o estudo, esse fenômeno tem relação com a falta de interesse ou de confiança na eficácia de práticas de verificação. Esquecer de checar, não ter interesse ou simplesmente ter certeza prévia sobre o que é verdadeiro ou falso foram os fatores mais determinantes para a não-verificação.

Outro achado relevante encontrado pelos pesquisadores, indica que: desconfiar mais não significa, necessariamente, estar mais protegido. Quando expostos a informações falsas e verdadeiras que circularam nos últimos anos, os usuários que relataram desconfiar “sempre” ou “na maioria das vezes” de veículos jornalísticos, informações oficiais e mídias públicas foram justamente os que apresentaram pior desempenho na identificação de conteúdos enganosos

Os melhores resultados ficaram com quem acessa a internet pelo celular e pelo computador, consome notícias diariamente e pratica a verificação com regularidade. Os dados sugerem, portanto, que a desconfiança generalizada não protege. Ela pode, na verdade, aumentar a exposição.

*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu





ICL Notícias

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