Interferência dos Estados Unidos na eleição já aconteceu

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O governador da Califórnia, Gavin Newsom, disse, nesta quarta-feira (23), que, se fosse brasileiro, estaria “muito preocupado” com uma possível interferência dos Estados Unidos em nossa eleição. Para explicar por quê, apontou uma medida que já está em vigor: “Tivemos uma ‘tarifa Bolsonaro’ de 50%”.

Newsom deu à medida um nome mais honesto e preciso do que aquele que pegou no Brasil. “Tarifaço” soa como uma disputa comercial entre governos – um apelido simpático demais para um ataque pesado e injustificado à economia brasileira.

“Tarifa Bolsonaro” obriga a olhar para a dimensão política do ataque, em meio a uma eleição na qual a família Bolsonaro tem o apoio de Donald Trump. Trata-se de uma forma de pressão com potencial para desestabilizar a democracia e influenciar o voto.

A verdade é que Newsom teve uma clareza maior do que a que nós tivemos aqui no Brasil nos últimos meses. Perdemos muito tempo discutindo se haveria reconhecimento dos Estados Unidos ao resultado das urnas. Assim, deixamos de reconhecer a interferência que já ocorreu e seu impacto gigantesco no processo político.

Creio que a imprensa brasileira teve papel em minimizar a gravidade de tudo que está acontecendo. Um tanto por não dar espaço devido a reportagens sobre o tema. Outro tanto por considerar um dos lados desta história como legítimo, e não criminoso.

No último final de semana, a seção Painel do Leitor, da Folha de S.Paulo, deu destaque, logo abaixo de uma carta preocupada com a pressão americana sobre a eleição, a um comentário que pedia: “Venha logo, Trump, como fez na Venezuela! O brasileiro de bem te apoia!”.

A disposição gráfica apresentou o apelo por uma intervenção estrangeira como se fosse apenas o outro lado de uma divergência de opinião. É uma escolha editorial servil diante da gravidade do assunto.

Isso não apaga o trabalho de jornalistas da própria Folha. As repórteres Ana Luiza Albuquerque e Patrícia Campos Mello, em especial, têm se dedicado à cobertura do tema. Outros profissionais da grande imprensa também se esforçam para apurar os fatos. Há ainda o incansável Jamil Chade, colunista do ICL Notícias, que jamais deixou o assunto ser ignorado. Mas boas reportagens perdem força quando o conjunto das manchetes e das escolhas editoriais dos principais veículos brasileiros. não transmite ao público a importância do que está acontecendo.

Nesta semana, publiquei na newsletter Noites Húngaras, em parceria com o portal Amado Mundo, uma investigação que avança o trabalho de Guilherme Amado sobre a Rockbridge Network. Foi um prazer contribuir para uma apuração que ele abriu e que merece muito mais atenção.

Amado revelou a atuação dessa rede de empresários da direita americana no entorno da campanha de Flávio Bolsonaro, inclusive na formulação de propostas sobre minerais estratégicos.

Minha reportagem mostrou uma conexão empresarial adicional: um fundo criado por integrantes da Rockbridge, do qual Donald Trump Jr. é sócio, investiu numa fabricante americana de ímãs de terras raras que mantém acordo com uma mineradora detentora de direitos sobre um projeto no sul da Bahia.

A apuração não demonstra que minério baiano já esteja sendo fornecido à fabricante americana, nem que integrantes da campanha de Flávio tenham participado da compra das áreas. Demonstra algo suficientemente grave por si só: a rede que discute o futuro das terras raras brasileiras com pessoas próximas à campanha também tem interesses econômicos numa cadeia produtiva ligada a esses recursos.

O debate sobre influência estrangeira deixa de ser abstrato quando chegam à mesma mesa projeto de governo, acesso a minerais estratégicos e negócios privados.

Em outra reportagem que publiquei nesta semana, em parceria com a CTRL+Z, mostrei que um documento interno do Rosewood, hotel de luxo em São Paulo, reuniu ao menos 15 hóspedes sob a identificação “Thiel Capital & Presidio One” durante a passagem de Peter Thiel pela cidade.

Thiel, cofundador da Palantir, é uma figura importante na aproximação entre grandes fortunas, tecnologia e a direita dos Estados Unidos. A lista não prova uma operação eleitoral no Brasil, e seria irresponsável dizer que prova. Revela, porém, a dimensão até então desconhecida de sua comitiva em um momento no qual precisamos prestar atenção aos interesses estrangeiros voltados para o país.

Há ainda uma imagem que circulou pelo Brasil, mas foi esquecida: Flávio Bolsonaro recebido por Trump no Salão Oval poucos meses antes da eleição. O efeito de uma cena dessas não depende de um pronunciamento formal de apoio. Ela comunica prestígio, acesso e poder ao eleitor. Pode influenciar a percepção sobre a força de uma candidatura e sobre o lugar que o Brasil teria no mundo sob um governo Flávio. Esse impacto político também precisa ser tratado como parte da interferência que já aconteceu.

Por isso, é míope reduzir a discussão à pergunta sobre o que Trump fará depois da votação: se reconhecerá ou não o resultado das urnas, se contestará uma vitória de Lula, se apoiará alguma investida contra a Justiça Eleitoral. Essas são preocupações legítimas, mas partem muitas vezes de uma premissa confortável: a de que Lula vencerá.

Flávio Bolsonaro tem chances reais de ganhar. A questão urgente é como a pressão econômica, o apoio político e a articulação de interesses americanos já pesaram sobre uma disputa cujo resultado continua aberto.

Reconhecer essa interferência não significa atribuir aos Estados Unidos cada decisão do eleitor brasileiro. Significa chamar os fatos pelo nome enquanto ainda é possível debatê-los publicamente. A eleição não começa quando as urnas abrem. E a interferência não precisa esperar o resultado para produzir efeitos.





ICL Notícias

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