Ilha que recebeu navios de cruzeiros é esquecida após COP30

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Por Luciana Cavalcante 

(Folhapress) – Oito meses após a realização da COP30, em Belém, moradores e comerciantes do distrito de Outeiro dizem que as melhorias esperadas para a ilha, após a atenção recebida com o evento, não chegaram.

O distrito, distante oito quilômetros da capital, ganhou visibilidade com a chegada de transatlânticos de luxo, usados como alternativa de hospedagem para suprir o deficit de leitos em hotéis em Belém durante a cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática. A Folha voltou ao local e ouviu de moradores que o lugar continua esquecido pelo poder público.

Em novembro do ano passado, a reportagem esteve nas praias Grande e Brasília, que ficam ao lado do porto de Outeiro, e mostrou o contraste entre os navios de cruzeiro e a falta de serviços básicos para a população local.

Agora, o cenário não mudou. Na Brasília, nem sinal de visitantes. Porto e praia estão lado a lado, na confluência das baías do Guajará e do Marajó. O movimento de navios de carga, mais o lixo, o esgoto e a insegurança, transformaram a praia num lugar esquecido.

Sozinho em seu estabelecimento, o proprietário do bar Dedão diz que não recebeu nenhum estrangeiro na época da COP30 e que os únicos que visitavam o espaço eram moradores da cidade curiosos com a novidade. Hoje, nem eles aparecem.

“Os navios sumiram. Quando aparece algum, fica no meio do rio e logo vai embora. Já tem gente vendendo os terrenos. Todo final de semana fica assim”, conta Raimundo José, apontando para as mesas vazias.

A Companhia Docas do Pará, responsável pelo porto de Outeiro, diz que o movimento de embarcações aumentou 35% depois da COP. De dezembro de 2025 a junho de 2026, 65 embarcações foram atendidas, ante as 48 do mesmo período do ano anterior.

A empresa afirma que a programação de temporadas de cruzeiros é definida pelo mercado com aproximadamente dois anos de antecedência e que está em tratativas com operadores do setor para a inclusão do terminal portuário em roteiros para os próximos anos.

Na praia Grande, que fica logo ao lado da Brasília, a situação é pior. O esgoto é despejado direto na praia. Uma das tubulações abandonadas foi pichada com o nome da conferência da ONU, em sinal de protesto.

Raimundo Pereira, 62, trabalha há mais de 30 anos vendendo coco e abacaxi e diz que o despejo de dejetos na praia é antigo. “Esse buraco já tem uns cinco anos e a prefeitura nunca fez nada. Quando chove a água sai do esgoto e as crianças tomam banho nessa sujeira”, conta.

Ele também é morador da ilha e não vê o prometido legado do evento.

“Não melhorou em nada com a COP30. Tem um monte de rua que não tem asfalto, outras cheias de buracos. Só olham para Outeiro quando é para falar de crimes ou quando a água está imprópria para banho.”

Esburacada e coberta de lixo, a via que leva às duas praias é um exemplo da situação relatada por Pereira.

Há 25 anos atuando na praia Grande, o proprietário da barraca São Jorge, Paulo Almeida, 75, diz que a falta de saneamento básico afasta os visitantes. “Que turista vai querer tomar banho nesse esgoto?”, questiona.

Outro problema apontado por ele é a falta de uma orla padronizada para incentivar o turismo. “Essa orla aqui parece uma favela. As barracas ficam amontoadas nesse corredor e as motos passam a toda velocidade. Não tem estrutura para receber ninguém”, afirma.

A Prefeitura de Belém afirma que mantém serviços permanentes de zeladoria no distrito de Outeiro, com equipes que atuam de forma contínua na limpeza de praias, ruas, praças e outros espaços públicos.

Segundo a administração, o distrito vem recebendo vários investimentos, incluindo o chamado Pistão da Água Boa, que será transformado no novo parque linear do município.

A gestão de Igor Normando (PSDB) diz que a orla passará por revitalização, mas não deu previsão para a obra. As ações incluiriam, ainda, investimentos estruturais em mais de 170 ruas de Outeiro, que devem ser asfaltadas.





ICL Notícias

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