Por Cleber Lourenço e Jamil Chade
O governo brasileiro já monitorava o risco de grupos estrangeiros usarem a manipulação de dados, a produção de informes e estruturas públicas ou privadas para interferir no ambiente político do país antes de Alexandre de Moraes apontar a possível participação de agentes externos na produção de um relatório da Polícia Federal. A suspeita surge enquanto atores da extrema direita intensificam a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) no exterior, às vésperas da eleição.
Nas últimas semanas, a “produção de informes” e a manipulação de dados passaram a ser tratadas em setores do governo como potenciais áreas de atuação internacional. A preocupação é que eventuais operações sejam usadas para aprofundar a instabilidade política durante o processo eleitoral.
“A declaração do ministro não surpreendeu ninguém”, afirmou à reportagem um interlocutor em Brasília.
Na área de inteligência, a possibilidade de interferência externa também é considerada crível. A crise política envolvendo o STF é vista como uma vulnerabilidade que pode ser explorada por atores estrangeiros interessados em influenciar o ambiente brasileiro. A avaliação, porém, é de que a suspeita apresentada por Moraes precisa agora ser submetida a uma investigação técnica.
“Tudo é crível”, resumiu um integrante da área de inteligência ouvido pela reportagem.
Moraes fala em relatório produzido fora da PF
A acusação apareceu numa manifestação de 44 páginas enviada por Moraes no domingo (14) ao presidente do STF, Edson Fachin, no âmbito da Petição 16.704. O documento respondeu a um pedido de esclarecimentos da Presidência da Corte em meio à crise provocada pelas investigações do Banco Master.
Moraes questiona a origem de um relatório da Polícia Federal que reuniu informações contra ele e sustenta que os metadados do arquivo mostram que o documento não teria sido produzido integralmente dentro da corporação.
“O relatório não foi produzido integralmente na Polícia Federal, mas sim com auxílio de órgão externo, provavelmente órgão estrangeiro”, escreveu. Na mesma passagem, classificou o episódio como uma “clara tentativa de interferência externa nas eleições brasileiras de 2026”.
Mais adiante, Moraes afirma que o tempo de elaboração seria incompatível com a complexidade do trabalho e diz que os metadados demonstrariam que o documento “não foi produzido efetivamente pela Polícia Federal, mas sim por agentes externos — pela forma de produção, provavelmente estrangeiros”.
Na versão apresentada pelo ministro, o relatório teria chegado pronto à PF e sido posteriormente inserido nos computadores da instituição. Em outro trecho, Moraes diz que o documento teria sido “‘plantado’ nos computadores da PF” e associa o episódio às pressões internacionais sofridas pelo STF, entre elas cancelamentos de vistos e sanções aplicadas pelos Estados Unidos.
A manifestação não identifica país, agência, organização ou pessoa estrangeira que teria produzido o material. É justamente esse o ponto que, na avaliação da inteligência, transforma a acusação numa questão que precisa ser investigada.
Inteligência vê vulnerabilidade a operações externas
O primeiro passo seria determinar se houve realmente a quebra da cadeia de custódia indicada por Moraes. Isso significa reconstruir por onde passaram os dados e o relatório, quem teve acesso a eles e se houve manipulação fora do ambiente autorizado.
“Houve o metadado? Houve. Houve a quebra de custódia? Essa é a primeira pergunta”, afirmou o integrante da área de inteligência.
Se o documento entrou pronto nos sistemas da PF, como sustenta Moraes, houve necessariamente uma ação humana para colocá-lo ali. A investigação teria então de determinar se isso ocorreu de maneira regular, por erro ou de forma deliberada.
“Se houve isso, houve um erro humano. Esse erro pode ter sido intencional ou não intencional”, afirmou. Se comprovada a quebra, a pergunta seguinte seria direta: “Tem que ver se essa quebra de custódia foi intencional ou não e, se intencional, quem influenciou.”
A suspeita ganha relevância, segundo a análise feita à reportagem, porque ocorre num momento de forte projeção política dos Estados Unidos sobre o Brasil e de confronto aberto de integrantes do governo americano com Moraes.
“Existe claramente uma tendência de projeção de poder dos Estados Unidos dentro da soberania brasileira”, afirmou. A avaliação é de existem elementos concretos no cenário político que tornam uma operação de influência possível, embora não comprovem a participação americana no relatório.
A disputa interna no Supremo aumenta essa vulnerabilidade. Na avaliação apresentada à reportagem, uma operação estrangeira não precisaria criar uma crise: poderia explorar uma divisão já existente.
“É sim possível uma influência, uma operação de inteligência que ajude quem procura influir num ponto que é vulnerável, que é a guerra política dentro do STF”. Segundo fontes na área de inteligência, a crise criada pelo caso master teria deixado a corte vulnerável a interferências externas por atores interessados em influir no processo eleitoral brasileiro.
A área de inteligência também trabalha com a possibilidade de uma interferência não partir diretamente de funcionários de um governo estrangeiro. Entidades privadas, grupos da sociedade civil ou especialistas com capacidade tecnológica podem funcionar como intermediários.
“Para não terem as digitais nesses processos, governos delegam esse trabalho a terceiros”, explicou outro interlocutor do governo que acompanha o mapeamento das ameaças à eleição.
Extrema direita amplia pressão sobre o STF
A suspeita aparece no momento em que integrantes da extrema direita brasileira e aliados nos Estados Unidos aumentam a pressão sobre o STF.
Eduardo Bolsonaro viajou para Washington com o objetivo de buscar uma nova rodada de sanções contra integrantes da Corte. O ex-deputado pretende usar episódios do julgamento como argumento junto a interlocutores americanos.
Jason Miller, ex-conselheiro de Donald Trump e apoiador de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também passou a direcionar publicações ao julgamento. Ele divulgou uma imagem produzida por inteligência artificial mostrando Moraes com uma tornozeleira eletrônica e, em outra postagem, publicou fotografias de Moraes e Daniel Vorcaro acompanhadas da expressão “tick-tock, Xandão”.
Não há elemento apresentado até agora que vincule esses movimentos à suposta participação estrangeira na produção do relatório. Eles compõem, porém, o ambiente de pressão internacional que já vinha sendo acompanhado em Brasília.
Para integrantes do governo, o período eleitoral tende a ampliar os riscos. Operações camufladas e o eventual uso de empresas ou estruturas privadas de tecnologia estão entre os cenários considerados, com atenção especial ao intervalo entre o primeiro e o segundo turno.
“Há uma movimentação real no submundo da tecnologia que não pode ser ignorada”, afirmou um experiente interlocutor do governo.
Uma das avaliações ouvidas pela reportagem dimensiona a preocupação de forma ainda mais contundente: a ingerência externa é considerada a maior ameaça desse tipo enfrentada pelo país desde o período que antecedeu o golpe de 1964.
A acusação de Moraes introduziu um caso concreto nesse cenário. Saber se ele corresponde ou não a uma operação externa depende agora de algo verificável: reconstruir a origem e o percurso do relatório atribuído à Polícia Federal.




Giao diện của fly 88 được thiết kế khá trực quan.
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