O futebol profissional amazonense já viveu dias de destaque nacional. Clubes do estado(Nacional e Rio Negro) chegaram à elite do futebol brasileiro, disputando a primeira divisão do Campeonato Brasileiro em um período em que a estrutura, a formação de atletas e o modelo de competições sustentavam um ecossistema esportivo forte, integrado e funcional.
Artigo de autoria de Nailson Castro
Naquele período, coexistiam três grandes pilares do futebol local: o futebol profissional, o Campeonato Amador — cujas partidas serviam como preliminares dos jogos profissionais — e o Peladão, voltado aos atletas de várzea que não atuavam nem no profissional nem no amador.
Cada competição tinha sua função social, esportiva e econômica, compondo um sistema equilibrado que permitia circulação de atletas, formação de talentos e manutenção da atividade futebolística ao longo do ano.
Esse equilíbrio começou a ruir a partir da década de 1990, quando a Federação Amazonense de Futebol, sob nova gestão desde 1988, decidiu extinguir o Campeonato Amador Oficial. Com isso, restaram apenas dois polos: o futebol profissional, sob a tutela da FAF, e o Peladão, sob responsabilidade de uma empresa de televisão.
Inicialmente o empolgante Peladão, com mais de 1.000 clubes inscritos todos os anos, funcionava de forma relativamente estável sob a coordenação de Messias Sampaio. O regulamento da competição permitia a inscrição de até cinco atletas profissionais por equipe, com três podendo atuar por partida. Essa regra cumpria um papel social e esportivo essencial: os jogadores profissionais, que tinham calendário ativo de apenas cerca de quatro meses por ano, conseguiam complementar renda, manter atividade física, visibilidade e, sobretudo, sustento.
Esse arranjo garantia sobrevivência digna aos atletas, ao mesmo tempo em que mantinha o nível técnico do Peladão equilibrado e competitivo.
A ruptura definitiva ocorre quando a organização do Peladão passa por mudanças administrativas (Arnaldo Santos) e é imposta a proibição da participação de atletas profissionais. A intenção aparente era “proteger” o caráter amador da competição, mas na prática, o efeito foi devastador. Um tiro pela Culatra. Um tiro no pé. Resultados desastrosos para o Futebol Profissional, a essas alturas já cambaleante.
Lentamente os jogadores profissionais foram obrigados a fazer uma escolha severa: ou permanecer no futebol profissional, com salários por apenas quatro meses ao ano (um de pré-temporada e três de competição), ou migrar para o Peladão, onde donos dos times garantiam emprego formal, plano de saúde para toda a familia, 13º salário, ticket alimentação, Aprendizado técnico, evolução em uma nova profissão, renda durante os doze meses do ano e estabilidade…
O resultado imediato foi uma migração em massa dos melhores atletas formados nas categorias de base do Amazonas (quando ainda existiam estruturas reais de formação) para equipes ligadas ao Distrito Industrial, ao setor comercial e a empresas privadas. Em segundo plano, as centenas de atletas revelados nas categorias de base de Nacional, Rio Negro, Fast, Clipper, Comercial, Torino, Olímpico, São Raimundo, Sulamérica, Penarol, Princesa do Solimões etc…, nem sequer chegavam aos PROFISSIONAIS. Antes disso já eram absorvidos pelo PELADÃO, BANCÁRIOS, INDUSTRIARIOS ETC… Isso fortaleceu não apenas o PELADÃO, mas todos os demais campeonatos, enquanto o futebol profissional amazonense entrava em processo acelerado de enfraquecimento e colapso, com nenhum representante nas Série C, B ou A do Futebol Brasileiro.
O profissional perdeu talentos, identidade, público e competitividade. O Público amazonense, criou novas rotinas nos fins de semana (Sitios, chacaras, banhos). Gradualmente, Os clubes profissionais passaram a depender exclusivamente de recursos públicos para sobreviver, sem os quais se tornaria inviável manter equipes minimamente estruturadas. A renda dos jogos não pagava e até hoje não paga os custos dos jogos.
A síntese desse processo é clara: o Peladão, dentro de um sistema mal estruturado e sem políticas de integração esportiva, acabou contribuindo diretamente para o colapso do futebol profissional amazonense. Não intencionalmente, mas por descuido!
Hoje, o cenário começa a apresentar sinais de mudança. A gestão do futebol profissional mudou de mãos, e decisões estratégicas começam a reposicionar o Amazonas no mapa esportivo nacional.
A retomada da cobertura pela Rede Globo de Televisão devolve visibilidade, credibilidade e alcance ao futebol profissional do estado — algo essencial para atrair patrocinadores, investidores, projetos de base e reconstrução institucional.
Paralelamente, o Peladão perdeu seu caráter popular e comunitário original. Muitos times passaram a ser financiados por estruturas alheias ao esporte, tornando o ambiente instável, perigoso e cada vez mais distante da proposta inicial. O que antes era espaço de lazer, inclusão e oportunidade social caminha, lentamente, para a descaracterização e possível esgotamento.
Um ciclo histórico se fecha: o longo domínio familiar sobre o futebol amazonense chegou ao fim, e um novo momento se iniciou sob a tutela de Ednailson Rozenha. Ainda distante de um cenário ideal, é verdade. Mas, pela primeira vez em décadas, existem sinais concretos de reorganização, reposicionamento institucional e reconstrução estrutural.
A luz não voltou a brilhar plenamente — mas os primeiros passos foram dados.
E, no futebol, isso já é o começo de tudo.

Nailson Castro, ex-atleta de futebol, é Radialista, Jornalista e Bacharel em Direito. Durante muitos anos contribuiu com a Crônica Esportiva Amazonense.
O texto acima pode ser muito bem adaptado ao Futebol de Salão Amazonense, rebatizado FUTSAL, que desce em velocidade de cruzeiro a ladeira em direção ao colapso. Assunto a ser abordado em uma futura publicação.



