Exército mantém cursos nos EUA e paga US$ 800 mil durante crise com Trump

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Por Cleber Lourenço

Enquanto o governo brasileiro endurece o discurso diante da escalada da crise diplomática com os Estados Unidos, a cooperação entre as Forças Armadas dos dois países permanece ativa.

Levantamento realizado pelo ICL Notícias mostra que, entre o segundo semestre de 2025 e julho de 2026, militares brasileiros participaram de cursos em escolas americanas, exercícios conjuntos, operações navais, treinamentos em defesa cibernética e espacial e reuniões de planejamento estratégico.

No mesmo período, o Exército autorizou pelo menos US$ 800 mil em novos pagamentos antecipados para cursos nos Estados Unidos e criou uma nova conta destinada ao financiamento de exercícios em centros de treinamento do Exército americano.

O contraste ganhou ainda mais relevância nos últimos dias. Durante a convenção nacional do PSB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o fortalecimento das Forças Armadas diante do cenário internacional.

Na sequência, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou que a crise com Washington poderia representar uma oportunidade para ampliar os investimentos na área, dizendo que momentos como esse podem “abrir a porteira” para resolver antigos problemas da Defesa.

Enquanto o debate político se concentrava na necessidade de fortalecer a capacidade militar brasileira, documentos oficiais mostram que a cooperação entre militares brasileiros e americanos continuou funcionando praticamente sem interrupção.

A cronologia da cooperação

Ao longo da escalada da crise diplomática, Brasil e Estados Unidos mantiveram uma agenda contínua de atividades militares:

  • Julho e agosto de 2025 – militares da Guarda Aérea Nacional de Nova York participaram da Operação Tápio, em Campo Grande, realizando treinamentos de defesa de bases aéreas, patrulhamento e proteção de aeródromos ao lado da FAB.
  • Agosto de 2025 – os Estados Unidos cancelaram a Conferência Espacial das Américas, prevista para Brasília. Na sequência, foram suspensas a Operação CORE 2025 e a participação americana na Operação Formosa, dando a impressão de um esfriamento da cooperação militar.
  • Setembro de 2025 – a Marinha do Brasil enviou a fragata Independência para participar da UNITAS 2025, tradicional exercício naval liderado pelos Estados Unidos.
  • Novembro de 2025 – o comandante do Exército autorizou novo aporte de US$ 400 mil ao programa Foreign Military Sales (FMS) BR-B-OBU, destinado a financiar cursos de militares brasileiros em escolas do Exército americano.
  • Dezembro de 2025 – foi criada a conta BR-B-OBY, voltada especificamente ao financiamento de exercícios de tropas brasileiras em centros de treinamento de combate dos Estados Unidos.
  • Março de 2026 – oficiais brasileiros viajaram ao Texas para participar do planejamento da CORE 26, justamente o exercício cuja edição anterior havia sido cancelada. No mesmo período, militares participaram de intercâmbios sobre comunicações militares, neutralização de explosivos e da 42ª Conferência Bilateral de Estado-Maior entre os Exércitos dos dois países.
  • Maio de 2026 – Marinha do Brasil e Marinha dos Estados Unidos realizaram exercício conjunto com o porta-aviões nuclear USS Nimitz. O comandante do Exército, general Tomás Paiva, e o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, embarcaram na embarcação americana durante a operação.
  • Junho de 2026 – representantes das duas marinhas reuniram-se em Nova Orleans para discutir futuras operações e novos exercícios conjuntos. No mesmo mês, o Exército autorizou outro pagamento antecipado de US$ 400 mil para cursos em escolas militares americanas.
  • Junho e julho de 2026 – militares brasileiros participaram da FLEETEX 250, do Cyber Shield 2026 e do exercício multinacional Salitre, que incluiu operações de guerra cibernética, combate aéreo e uma célula de operações espaciais coordenada pela Força Espacial dos Estados Unidos.

Além dessas atividades, militares brasileiros seguiram frequentando cursos de liderança, defesa cibernética, inteligência artificial, comunicações e tecnologias militares em instituições americanas.

Apesar da intensa agenda, parte significativa dessas informações permanece sob sigilo. Em resposta a pedidos feitos com base na Lei de Acesso à Informação, o Exército confirmou a realização dos cursos, mas recusou-se a informar quais capacitações serão oferecidas, quantos militares participarão, quais escolas receberão os brasileiros e quais documentos embasaram os pagamentos antecipados ao governo americano.

Para o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador das Forças Armadas brasileiras, essa relação vai além da realização de exercícios ou intercâmbios.

“Os militares americanos sempre tiveram uma enorme confiança de que sabiam com quem tratavam quando chamavam os militares brasileiros”, afirma. Para ele, a influência construída ao longo de décadas também se manifesta na formação doutrinária dos oficiais. “Quando eu falo em doutrina, está aquilo que a gente poderia chamar de ideologia num plano mais geral. Especificamente, no plano particular dos militares, isso está constituído como aquele aparelho mental que a gente pode chamar de doutrina.”

O pesquisador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional e doutorando em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas, Jorge Rodrigues, avalia que essa aproximação também se expressa na organização das próprias Forças Armadas.

“O alinhamento doutrinário das Forças Armadas brasileiras aos Estados Unidos se expressa de diversas formas. Recentemente, o comandante da Marinha do Brasil, almirante Marcos Sampaio Olsen, declarou haver um alinhamento doutrinário estreito no emprego da força entre a Marinha brasileira e a estadunidense.”

Segundo Rodrigues, a cooperação também se fortalece por meio da aquisição de equipamentos e sistemas militares.

“Ao exportar um armamento, exporta-se também a forma como aquela força compradora vai se organizar. Nossa dependência vem também desse aspecto material, de assimilar um modelo de força baseado em armamentos e tecnologias importadas.”

Na avaliação do pesquisador, a continuidade dessa relação durante a atual crise diplomática reforça um debate que vai além dos exercícios conjuntos.

“Tudo isso fomenta uma relação de dependência com os Estados Unidos. Ao assimilar um modelo de força específico, ao aceitar uma posição importadora de tecnologias estrangeiras e ao fomentar uma cultura institucional baseada na cosmovisão de uma potência estrangeira, nossas Forças Armadas se colocam como força auxiliar de um projeto externo. É difícil falar em defesa nacional nesses termos.”

Os episódios levantados pela reportagem indicam que, mesmo em meio ao auge da crise diplomática e ao cancelamento de eventos de alto impacto político, a engrenagem da cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos seguiu funcionando sem interrupções relevantes. Cursos, exercícios, operações conjuntas, planejamento estratégico e intercâmbios continuaram ocorrendo no mesmo período em que Brasília e Washington viviam um dos momentos mais tensos das últimas décadas.

O contraste expõe uma contradição central: enquanto o discurso oficial sugere autonomia e fortalecimento da soberania, a prática revela a manutenção de uma relação estrutural de dependência, pouco afetada por disputas diplomáticas conjunturais.

Na avaliação dos especialistas, o episódio não apenas evidencia a profundidade dos laços militares entre os dois países, como também recoloca em debate até que ponto as Forças Armadas brasileiras conseguem — ou desejam — construir uma trajetória verdadeiramente independente em termos doutrinários, tecnológicos e estratégicos.





ICL Notícias

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