Estado laico, povo cruzado – ICL Notícias

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Hollywood foi muito eficiente em enfiar nos corações delirante e nas mentes deseducadas a ideia de que o movimento das cruzadas, ou seja, a perseguição aos povos não cristãos, foi uma aventura heroica, eletrizante e em nome de uma “boa causa”. Sabemos que as guerras santas patrocinadas pelo contexto europeu para “matar mouros”, buscar pelo graal, catequisar povos e essa coisa toda foram sobretudo, fanatismo, sangue, morte, pilhagem, sede de subjugação e poder. Nada de bonito para romantizar.

Essa semana, aqui na distância do Brasil de 2026, em mais um capítulo tenebroso da novela das guerras religiosas que já feriram e mataram milhões, vieram a público as imagens das câmeras corporais de doze policiais que — um deles com metralhadora em punho —, invadiram uma escola em São Paulo em novembro do ano passado. O motivo para tanta truculência diante de crianças pequenas é bizarro, para dizer o mínimo.

Cruzados do século 21

Toda a confusão aconteceu porque o pai de uma aluna de 4 anos de idade, que também é policial militar, viu um desenho da orixá Iansã feito pela filha. Não adiantou a diretora explicar que o desenho é produto das aulas com conteúdos aprovados pela Secretaria de Educação, apoiados nas leis federais 10.639 e 11.645, que determinam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.

Não adiantou a razoabilidade dos argumentos. O comandante da operação, Tenente Ronald Camacho, acusou a diretora de tentar “ditar sua ideologia” ao explicar que atividades sobre cultura afro-brasileira desenvolvidas pela escola nada têm a ver com ensino religioso.

Assim como é impossível estudar a Europa sem tocar no cristianismo, no judaísmo, no islamismo e nos mitos religiosos da antiguidade, é impossível estudar a África e seus ecos na cultura brasileira sem falar nessas mesmas religiões e também na diversidade de cultos que se fazem presentes na musicalidade, na dança, nas comidas, nas práticas, no vocabulário e em infinitas manifestações que, de tão entranhadas no que somos, quase nem mais separamos do que somos como povo.

Ninguém se converte a esta ou aquela religião em função das aulas de história, artes, geografia … Ninguém passa a adorar Tupã, Isis ou Hamsés porque estudou que foram ou são divindades para esta ou aquela sociedade. O que constrói (ou não) fé religiosa é a imersão em um conjunto de fatores que extrapolam em muito o ambiente escolar e o poder limitado que educadores possuem.

Todavia, quem não faltou às aulinhas básicas (mas muito básicas mesmo) de história, sabe que a demonização das inúmeras crenças fincadas no pertencimento trazido por africanos é um projeto — assim como nas cruzadas — de dominação. Pouco ou quase nada a ver com religião e mais com solidificar, impor e aumentar o poder e o dinheiro de quem manipula a fé alheia.

A conversa é longa e não é agradável, pois as “cruzadas” que se desenrolam por aqui há séculos, são respaldadas por um cristianismo que, a julgar pelo que está escrito no Novo Testamento, em nada orgulharia Jesus.

Laicidade do Estado

Embora a maioria dos seus cidadãos não sejam, o Estado brasileiro é laico, ou seja, não adota nenhuma religião oficial há 136 anos. Oficialmente, a separação entre a religião e o poder civil no Brasil aconteceu no decreto 119-A, de 7 de janeiro de 1890, quando o Manoel Deodoro da Fonseca (1827-1892), chefe do governo provisório da república recém-proclamada, proibiu “a intervenção da autoridade federal e dos Estados federados em matéria religiosa”, consagrou “a plena liberdade de cultos” e extinguiu o tal regime do padroado.

Não somos ingênuos. Sabemos que essa separação não se deu assim, em uma “canetada” no final do século 19, e que de certa forma ela ainda está em curso, em disputa. Para citar apenas um exemplo, vide as centenas de crucifixos espalhados em repartições públicas Brasil a fora. No caso das religiões da raiz afro então, muito ainda a caminhar pela tal “plena liberdade de culto”, pois a lógica da sociedade brasileira está profundamente assentada no cristianismo.

Durante a pesquisa para o livro “Água de barrela”, esta colunista se viu mergulhada na transcrição dos debates que resultaram na decisão e é estarrecedor que quase um século e meio depois, tenhamos empobrecido tanto o debate e mergulhado tão intensamente quase na mesma obscuridade fanática que marcou o primeiro milênio de cristianismo.

Perdemos tudo como povo, quando o desenho feito por uma criança de 4 anos, dentro de uma atividade pedagógica embasada em leis e estudos educacionais, passou a ser tão ameaçador que exigiu uma operação policial de intimidação com armamento pesado.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), a atuação dos policiais e as imagens das câmeras corporais estão sob investigação por meio de um Inquérito Policial Militar. A probabilidade de dar em nada é enorme e, em plena era digital, a caça às bruxas, aos ogros e aos infiéis segue seu curso com pulsão de adoecimento e morte.

Que Iansã, tão aliada da justiça, exista e seja por nós.

 





ICL Notícias

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