Erros de Pimenta e Sidônio na Secom levaram Lula a preferir Janones no Congresso

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi direto e pragmático ao dizer ao deputado André Janones (Rede-MG) que se ele quisesse ser ministro, seria. E seria ministro de qualquer pasta ligada à área em que demonstrou excelência de desempenho – comunicação digital e mobilização de núcleos organizados da sociedade – quando recebeu o deputado no Palácio da Alvorada, na última quinta-feira, para uma celebração de agradecimento pelo papel do parlamentar na dura e breve campanha de segundo turno desse ano. A primeira-dama Rosângela da Silva acompanhou o diálogo.

“Mas, acho que você terá um papel maior e mais relevante ficando no Congresso, ajudando a gente nesse enfrentamento com o lado mais conservador e reacionário do país”, ponderou o Chefe de Governo recém-reeleito. O deputado eleito João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara (2003-2005, nos primeiros anos do primeiro mandato de Lula), que está propondo a filiação de Janones ao Partido dos Trabalhadores, já tinha exposto para a bancada petista, para o colega mineiro e para o próprio comando do governo a necessidade de ter a força mobilizadora de Janones auxiliando os debates temáticos no Parlamento para enfrentar a maioria de extrema-direita eleita em 4 de outubro.

João Paulo Cunha cuidou de alertar seus interlocutores que uma vez sentado na cadeira de ministro, o criador do “Exército do Lula” teria de cumprir ritos administrativos de gestor e solenidades formais de postura exigidos pelo cargo ministerial que poderiam ser severamente incompreendidos pelo Tribunal de Contas da União, pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário. Isso provocaria embaraços ao Palácio do Planalto e entraves e atrasos à necessária velocidades de mobilização de temas já candentes como proibição das bets, Marco Temporal para demarcação de territórios indígenas, Reforma Política, Reforma do Judiciário e preservação dos programas sociais e de transferência de renda ante a campanha do “mercado financeiro” para que a Fazenda e o Planejamento promovam um ajuste fiscal podando recursos das áreas de Saúde, Educação e distribuição de renda por meio de programas de benefícios de prestação continuada (BPCs).

 

CONCORDÂNCIA DE JANONES ALIVIOU LULA

André Janones sentiu-se confortável em deixar claro para o presidente que não havia nenhuma pretensão de sua parte em ocupar um ministério. O deputado tem pretensões eleitorais executivas para 2030 – o governo de Minas Gerais é uma delas, mas pode também voltar a se lançar à presidência. Em 2022, ele foi pré-candidato ao Planalto até 4 de agosto, quando renunciou à ideia e passou a apoiar o petista. Naquele ano, elegeu-se deputado federal pelo Avante-MG.

Mais à vontade com a recusa anunciada pelo parlamentar, Lula passou a criticar as mazelas, a lentidão e a falta de foco da comunicação institucional de seu próprio governo no terceiro mandato. Tanto sob a batuta do ainda deputado Paulo Pimenta, indicado ministro-chefe da Secom/PR pelo PT do Rio Grande do Sul o início da gestão, quanto sob o comando do publicitário Sidônio Palmeira, indicado pelo PT da Bahia. Agora, nem Pimenta voltará, nem Sidônio seguirá na pasta.

O presidente da República não desceu a detalhes no seu relato dos erros administrativos e de gestão da Secom/PR nos últimos quatro anos. Porém, ele já dispõe de um relato detalhado de onde se falhou:

1.      Lentidão e total desconhecimento de ação para conferir legalidade ao processo de contratação de agências de publicidade digital que atuassem focadas nas redes sociais e na internet. Uma licitação mal sucedida para a contratação de três agências foi levada a cabo por Pimenta e anulada por Sidônio depois que o TCU levantou suspeitas sobre o tema (mesmo que as suspeitas se revelassem juridicamente infundadas).

2.      Absoluto despreparo da estrutura de governo para lidar com a liderança de opinião e a verdadeira terceirização da gestão dos contratos de publicidade e de comunicação institucional (relações públicas) para a empresa FSB. A terceirizada chegou ao Palácio do Planalto vencendo um certame licitatório empreendido na época de Michel Temer e permaneceu na liderança do contrato em outra licitação realizada no fim do período de Jair Bolsonaro.

3.      Além de coordenar toda a relação com a mídia que cobre jornalisticamente o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios e elaborar os briefings da cobertura externa das viagens presidenciais e eventos como a Cop30, ocorrida em Belém do Pará, a FSB fornece as pesquisas qualitativas e quantitativas que balizam a administração e as linhas-força de comunicação on line e off line por meio da empresa Nexus. A Nexus é a mesma empresa de serviços que serve ao mercado financeiro (BTG, por exemplo) e que é contratada por governos estaduais e partidos antagonistas do PT e do presidente Lula.

4.      Durante o ano de 2026 a FSB consolidou a aquisição de uma das quatro agências de publicidade que também atendem o Governo Federal por meio da Secom/PR, a Calia (também vencedora dos mesmos certames licitatórios dos períodos Temer e Bolsonaro que colocaram a FSB dentro do Palácio). A Calia pertencia aos publicitários Gustavo e Elsinho Mouco, dupla da copa e da cozinha de Michel Temer. Durante a campanha eleitoral a Calia anunciou quer passaria a se chamar Alia, sob a liderança da FSB, que passa então a atuar 360º na comunicação palaciana – publicidade, comunicação institucional e pesquisa. Outras empresas de sociedade cruzada do grupo então plantadas – também por meio de processos licitatórios – no núcleo de comando operacional, político e publicitário dos governos de São Paulo (Tarcísio de Freitas) e Rio de Janeiro (Cláudio Castro e ficam com Douglas Ruas). O grupo empresarial de comunicação ainda atua na Confederação Nacional da Indústria (CNI) e na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Ou seja, estão por trás das cortinas dos principais núcleos de oposição política e de divergências e embates no mercado financeiro e no trade industrial e empresarial contra as políticas traçadas a partir do Palácio do Planalto.

5.      Nem Paulo Pimenta, nem Sidônio Palmeira, bateram-se contra o controle das estratégias de comunicação conflitantes na pasta. Também não levaram adiante nenhuma política mais eficaz de comunicação digital – sequer para definir um novo arcabouço legal que levasse o poder público executivo federal a agir contra os interesses e as chantagens nas redes sociais.

6.      Por fim, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) ancorou-se numa ambição estéril de disputar audiência com as TVs pagas e abertas do país e abriu mão de conduzir a produção de conteúdo de qualidade que pudesse ser ofertado aos diversos canais de mídia digital para que eles fizessem o embate com as linhas editoriais anacrônicas da mídia tradicional. A EBC, na avaliação de um pequeno núcleo de jornalistas e comunicadores que o presidente passou a ouvir, não se dedicou à comunicação pública de qualidade. Mudanças internas na EBC serão necessárias, Sidônio sabia que tinha de fazê-las e preferiu o caminho da acomodação interna das disputas.

Foi o balanço desses seis tópicos reunidos como “problemas de comunicação que o Lula 4 deve atacar”, que chegaram aos ouvidos e às mãos do presidente por interlocutores variados, que levaram o presidente – e também a primeira-dama – a concluírem que a eficácia do papel de Janones e de seu “Exército do Lula” seriam mais rapidamente perceptíveis na sociedade a partir de uma atuação de fora para dentro do Congresso e em diálogo constante com as forças da sociedade civil que se reorganizou ao longo da campanha eleitoral de 2026.





ICL Notícias

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