No último domingo, ao comemorar a sua vitória nas eleições de Berlim, Elif Eralp, advogada e provável futura prefeita da capital alemã pelo partido Die Linke (A esquerda), pulou de alegria e, de mãos dadas com colegas, dançou o “hallai”, dança turca tradicional feita em roda. A imagem é simbólica e rodou o país, causando escândalo na extrema direita,
Explico: Elif, de 45 anos, é filha de refugiados turcos e a primeira candidata do partido socialista a ganhar as eleições de Berlim. Ela é a primeira também a ter origem turca. E ter orgulho disso, como ela mostrou com a dança, chega a ser uma ofensa deliciosa aos racistas. A Alemanha tem a maior comunidade turca do mundo e essa população, junto com árabes, está entre as que mais sofrem preconceito no país.
A imagem serve também como um tapa na cara de integrantes do partido de extrema direita AfD e de gente como o chanceler Friedrich Merz, que disse ano passado que cidades como Berlim tinham problemas na “stadtbild” (imagem urbana), em uma alusão racista a imigrantes que faziam o país “não parecer a Alemanha de verdade”.
É nesse cenário com sérios problemas (não de imagem, mas de conteúdo mesmo) que Elif e seu partido fizeram história na semana passada e mostraram que existe resistência e esperança na Alemanha, país que anda ocupando os noticiários pela preocupante ascensão da extrema direita.
Elif, com seus cabelos pretos com corte moderno, cara de mulher comum e ideias progressistas é o oposto da AfD com suas fantasias nacionalistas. A sua plataforma política inclui, por exemplo, a expropriação de grandes empresas imobiliárias, uma pauta antiga da esquerda berlinense e o fim dos apartamentos de férias estilo Airbnb.
Em uma cidade onde a falta de moradia é um dos principais problemas, Elif é militante dos direitos dos inquilinos (assim como ela, que mora de aluguel com dois filhos), do transporte público barato e do apoio aos mais pobres. Em seu discurso de vitória, ela disse que, naquela noite, “o amor e a justiça venceram o ódio”.
Por conta de suas ideias socialistas e sua origem imigrante, Elif tem sido chamada desde a campanha de “Mamdani berlinense”, em referência ao prefeito novaiorquino Zohan Mamdani. “Primeiro nós tomamos Nova York, depois nós tomamos Berlim”, dizia um meme com a foto dos dois que circulava na internet após a vitória do Linke no domingo, em referência à uma canção de Leonard Cohen (“First we take Manhanttan, then we take Berlin”).
Faz sentido. Assim como o novaiorquino, ela é a cara de uma nova esquerda que surge no mundo e faz sucesso assumindo suas ideais de esquerda sem timidez e sem vestir fantasia de liberal para “ser aceito”.
Falar claramente sobre suas posições tem dado certo. Principalmente entre os jovens. Elif e o Linke tiveram 25,7% dos votos nas eleições de Berlim, mas entre os jovens de 18 a 24 anos, a porcentagem sobe para 43%. Na faixa etária dos 25 aos 34 anos, o número é ainda maior: 49%. Isso é impressionante e auspicioso em um mundo onde a extrema direita perdeu a vergonha e faz sucesso também com os jovens. Nem tudo está perdido e o futuro talvez não seja tão ruim como muitas vezes parece.
Nova esquerda
A provável futura prefeita — na Alemanha o sistema é o parlamentarismo de coalizão, por isso, para governar, o Linke ainda tem que fazer uma aliança com os verdes do Grunen e os social-democratas do SPD — é a cara também do novo momento do Linke, partido tradicional de esquerda que trocou a roupa de esquerdistas sisudos do leste alemão por uma cara mais contemporânea e se tornou o partido que faz mais sucesso entre os jovens, inclusive nas redes sociais, ambiente onde a extrema direita costuma ganhar de braçada.
Uma das responsáveis por esse sucesso online é outra mulher jovem, Heide Reichinnek, parlamentar de 38 anos que virou uma musa dessa nova versão do partido. Em seus discursos, ela abraça o feminismo e o antifascismo. Em uma fala no parlamento que viralizou nas redes, ela citou o hino antifascista ”Wehrt Euch, leistet Widerstand” (“defendam-se, resistam”). “Defendam-se e resistam contra o fascismo no nosso país”. E terminou falando: “para as barricadas!”.
O caminho da resistência, citado por Heidi não é simples. O sucesso de Elif em Berlim causou um alvoroço na cena política conservadora alemã. O “Bild”, tablóide sensacionalista de direita, por exemplo, acusa o partido de ser antissemita (o que não é verdade) e basicamente um “antro de gangsters árabes (o preconceito é nesse nível).
É bizarro, mas na Alemanha de 2026, até um vídeo de Elfe e aliados gritando, na noite da vitória, um dos slogans mais bonitos dos protestos no país: “”Hoch die internationale Solidarität! (algo como “viva a solidariedade internacional”) tem sido usado como prova de antissemitismo (sic). Que Elif e suas aliadas resistam e “tragam novamente esse cheirinho de alecrim”.




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