Eleições na Colômbia: camisa da seleção apropriada pela direita, e esquerda mobilizada no interior

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Por Amanda Harumy*, de Bogotá

O segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia está marcado por uma intensa disputa simbólica, numa sociedade extremamente polarizada. Por trás da luta entre um projeto de extrema direita – alinhado a Trump, Marco Rubio e Miami – e a continuidade do primeiro governo progressista na história do país, há hoje um embate pelo uso da camiseta da seleção colombiana, em plena Copa do Mundo.

Desde a abertura das urnas, às 8h da manhã deste domingo, o processo na maioria dos colégios eleitorais transcorre com rapidez, embora com pontos de atenção que refletem a polarização política do continente.

Há tranquilidade no fluxo da votação, mesmo sob alerta contra a fraude em todo país após o primeiro turno. Nos locais visitados, em diferentes bairros de Bogotá, o procedimento padrão funcionou de maneira organizada.

Iván Cepeda (esq.) e Abelardo de la Espriella (dir.) disputam o segundo turno da eleição presidencial colombiana, que definirá a continuidade ou não do ciclo político iniciado por Gustavo Petro em 2022. | Crédito: Francisco Calderon e Manuel Pedraza/AFP
Iván Cepeda (esq.) e Abelardo de la Espriella (dir.) disputam o segundo turno da eleição presidencial colombiana, que definirá a continuidade ou não do ciclo político iniciado por Gustavo Petro em 2022. | Crédito: Francisco Calderon e Manuel Pedraza/AFP

Apesar da aparência de normalidade, observadores internacionais mantiveram um alerta rigoroso quanto à fiscalização do uso de telefones celulares dentro das cabines. A orientação para coibir registros fotográficos das cédulas preenchidas foi considerada crucial pelas missões, visto que a fotografia do voto costuma ser utilizada como comprovante em esquemas ilegais de compra de votos.

Um dos aspectos que mais chama a atenção dos observadores é o uso massivo da camiseta da seleção colombiana de futebol por parte dos eleitores e, até mesmo em um caso isolado, por um mesário na mesa de um dos postos de votação. Embora a legislação local oriente que os integrantes das mesas mantenham neutralidade absoluta de vestimenta, o caso foi registrado e comunicado aos responsáveis pelo posto.

Eleitores vão votar com a camisa da seleção colombiana, que virou símbolo da campanha de extrema direita
Eleitores vão votar com a camisa da seleção colombiana, que virou símbolo da campanha de extrema direita. (Foto: Amanda Harumy)

A apropriação da camisa amarela por setores da extrema direita reproduz uma estratégia política já observada recentemente em outros contextos da América Latina, principalmente no Brasil. O fenômeno tem levantado debates na Colômbia sobre a captura de símbolos nacionais por projetos ideológicos de extrema direita.

Há uma disputa semiótica até mesmo na própria cédula eleitoral. A foto do candidato Abelardo de la Espriella, alinhado a Trump, traz um gesto de forte conotação ideológica militar. A presença desse tipo de imagem no documento oficial de votação fragiliza o processo e compromete a imparcialidade do sistema de votação. Isso levanta questionamentos de observadores sobre os limites entre a identificação do candidato e a propaganda subliminar no momento decisivo do voto.

Espriella, na foto oficial da cédula, aparece batendo continência
Espriella, na foto oficial da cédula, aparece batendo continência. (Foto: Amanda Harumy)

Segurança ostensiva e a realidade colombiana

Em meio à tensão da polarização política, o acesso aos locais de votação em Bogotá foi marcado por um forte aparato policial. De forma universal e sem distinções, todos os cidadãos foram submetidos a revistas de segurança e passaram por detectores de metal para ingressar nas escolas. A presença ostensiva das forças de segurança reflete o histórico de conflitos armados e violência política que o país enfrenta, evidenciando os desafios para a consolidação democrática no país.

Enquanto na capital existe o debate estético das camisetas amarelas, nas regiões mais remotas da Colômbia o fator determinante é a complexidade territorial do pleito. Comunidades rurais, populações ribeirinhas, indígenas e camponesas enfrentaram longas jornadas por rios e estradas precárias para exercer o direito ao voto.

Eleitores transportados de barco para votar no Departamento de Chocó
Eleitores transportados de barco para votar no Departamento de Chocó. (Foto: Amanda Harumy)

Historicamente excluídos do debate político, centralizado em Bogotá, esses territórios transformaram a participação eleitoral em um ato de resistência democrática.

A dinâmica política hoje está dividida entre periferia/interior e grandes centros. O componente geográfico é crucial para entender os rumos políticos do país. Essa disputa do mapa eleitoral mostra que estão em jogo não apenas projetos de governo distintos, mas também realidades sociais completamente opostas.

Nas regiões mais afastadas e historicamente castigadas pelo conflito armado, o cenário aponta para uma forte inclinação ao progressismo, com o voto concentrado em Ivan Cepeda – candidato apoiado por Gustavo Petro. Após quatro anos de avanços visíveis na redução de desigualdades nessas localidades, a expectativa é de que as periferias e as regiões mais afastadas das grandes cidades atuem como o principal motor de votos da esquerda.

Para essas populações, o voto vai além da ideologia; trata-se de uma aposta direta na continuidade dos acordos de paz e em políticas públicas voltadas para reverter o isolamento do interior do país.

Por outro lado, os grandes centros urbanos, incluindo Bogotá, consolidam-se como redutos de resistência da direita. Nas capitais, o eleitorado mais tradicional se mobiliza em torno de discursos baseados nos valores de família e em uma visão de segurança pública mais rígida e militarizada.

Imagens de seções eleitorais em Bogotá
Seção eleitoral em Bogotá. (Foto: Amanda Harumy)

No entanto, as cidades estão longe de ser homogêneas. Há uma disputa interna acirrada e geracional: de um lado, famílias tradicionais alinhadas à direita; do outro, movimentos jovens e estudantis que tentam tensionar a balança em direção à pauta de direitos sociais e progressistas.

A grande estratégia da esquerda para este pleito não é necessariamente vencer nos grandes centros, onde o voto de direita é consolidado, mas sim conter os danos. O objetivo central reside na capacidade de mobilização no interior, intensificando a participação eleitoral para que o volume de votos dessas regiões seja capaz de reverter a vantagem da direita nas grandes cidades.

Em uma disputa que se desenha extremamente apertada, o resultado final mostra a fragilidade dos processos eleitorais na América Latina, perante ingerência direta dos EUA, por meio comunicacional, político, financeiro e até mesmo militar.

*Amanda Harumy é analista internacional, doutora pelo PROLAM/USP e observadora internacional no segundo turno da eleição colombiana





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