Eleição 2026: Sair do Brics, alinhamento com EUA ou ator global?

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Como poucas vezes na história política do Brasil, a eleição de 2026 será marcada por um debate não apenas domésticos. Mas também sobre quem somos no mundo. As ações de Donald Trump contra o país, a vassalagem da extrema direita diante da Casa Branca, a entrega de minerais críticos ou a adesão ou não a acordos comerciais passaram a fazer parte de um debate que vai muito além das fronteiras do Brasil.

O ICL Notícias publica, nesta segunda-feira, as propostas de cada um dos candidatos à presidência sobre política externa.

Se Romeu Zema quer tirar o Brasil do Brics e Renan Santos sugere um caminho nuclear, Flávio Bolsonaro fala em retomar relações com Israel e insinua alianças com os EUA. Já Ronaldo Caiado quer rediscutir o Mercosul, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva aposta na construção de uma política que rejeite “qualquer tipo de subordinação estratégica”.

Se nos programas a palavra Trump não é mencionada, o presidente americano está presente em todos os planos, cada qual com sua visão do espaço que o Brasil deve ocupar.

Confira o que cada um dos candidatos propõe como o caminho diplomático do Brasil no mundo nos próximos quatro anos:

Lula: sem subordinação estratégica

Presidente Lula discursou na Assembleia Geral da ONU (Foto: Reprodução)

No caso do programa de Lula, a constatação é de que o mundo vivencia o ressurgimento do unilateralismo, do protecionismo e de conflitos sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Diante desse cenário, o petista defende que o “Brasil deve reafirmar sua soberania e preservar sua capacidade de fazer escolhas políticas e econômicas de forma independente, à luz de seus interesses, sem qualquer tipo de subordinação estratégica”.

No caso da defesa, Lula propõe uma política baseada na autonomia estratégica, na inovação tecnológica, na integração entre defesa e desenvolvimento e na combinação entre persuasão diplomática e capacidade de dissuasão, o que exige um orçamento nacional consoante a essas necessidades e responsabilidades.

“A defesa nacional exige Forças Armadas bem equipadas e uma indústria de defesa sólida, capazes de proteger o território brasileiro e seus recursos naturais diante de ameaças externas”, diz.

“Por isso, fortaleceremos a Base Industrial e Tecnológica de Defesa, de modo a assegurar maior autonomia nacional nesse campo e estimular inovações com impactos positivos sobre o conjunto da economia”, destaca.

Em seu programa, as fronteiras, a Amazônia e a Amazônia Azul são tratadas como “espaços estratégicos de integração e desenvolvimento, com maior presença do Estado, infraestrutura, serviços públicos e cooperação com os países vizinhos”.

Destacando o fato de o seu governo ter negociado acordos para abrir 656 novos mercados para os produtos brasileiros, Lula insiste que acredita “em um país com autonomia para decidir seus próprios rumos, livre de interferências externas e comprometido com a paz, a cooperação e o direito internacional”.

O candidato petista defende um Brasil “cada vez mais independente, ativo e comprometido com a integração regional e com a afirmação da América do Sul e do Caribe como zona de paz”.

Nesse aspecto, a integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil. “Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional, especialmente nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Consolidaremos o Mercosul como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul. Aprofundaremos a integração em infraestrutura, priorizando redes multimodais, com destaque para as conexões com o Pacífico e o Caribe. Promoveremos um mercado comum sul-americano de energia, com interconexões e coordenação regulatória”, propõe.

Mas ele também sugere manter política externa “universalista” e ampliando negociação com todas as regiões do mundo. A estratégia seria o caminho de “continuar enfrentando agressões comerciais e a defender os interesses do país com base nas normas internacionais e no multilateralismo”.

Um dos pontos críticos é a dos princípios que devem nortear a nova ordem.

“Manteremos o empenho na construção de uma ordem mundial mais justa e equilibrada, livre da lógica da submissão, das imposições unilaterais e dos esquemas obsoletos de uma nova Guerra Fria. O Brasil defenderá relações internacionais fundadas na reciprocidade, na cooperação pacífica e no respeito entre as nações”, diz.

O texto fala em aprofundar relações com a África, com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), além de Ásia, o Oriente Médio e a Europa.

Na ONU, ele pede uma reforma, especialmente do Conselho de Segurança, para torná-lo mais democrático e representativo, com maior participação dos países em desenvolvimento entre os membros permanentes. Ele quer ainda uma reforma da OMC, a retomada do mecanismo de solução de controvérsias, o tratamento diferenciado para os países em desenvolvimento e a articulação entre comércio, sustentabilidade e acesso a tecnologias verdes.

Quer ainda a reforma da arquitetura financeira internacional, com a democratização do FMI, do Banco Mundial e dos bancos multilaterais e o fortalecimento do CAF, do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e dos mecanismos financeiros dos BRICS.

No caso do Brics e Sul Global, Lula sugere uma uma “aproximação geopolítica”, bem como com o G20, “espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”.

“Ampliaremos a Cooperação Sul-Sul em áreas nas quais o Brasil é referência contribuindo para a redução das desigualdades globais”, defendeu.

Segundo ele, serão prioridades da ação externa a implementação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o enfrentamento da emergência climática, inclusive o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.

Lula também propõe “liderar a construção de uma governança internacional para as tecnologias digitais e a inteligência artificial, baseada na soberania digital com proteção de dados, cooperação científica, transferência de tecnologias estratégicas e regulamentação democrática das plataformas digitais e da IA”.

Ele resume sua postura da seguinte forma:

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas. Defenderemos os interesses do Brasil e do povo brasileiro com firmeza, responsabilidade e altivez. Para nós, soberania não é palavra de ocasião: é princípio permanente e inegociável”, completou.

Flavio Bolsonaro: terrorismo, EUA, Argentina e Israel

Dois homens posam no Salão Oval: um está sentado atrás da mesa presidencial e o outro em pé ao lado. Ao fundo, bandeiras dos Estados Unidos e da presidência, além de janelas com vista para árvores. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) posa para foto com Donald Trump na Casa Branca - 29.mai.26/@flaviobolsonaro no Instagram
Dois homens posam no Salão Oval: um está sentado atrás da mesa presidencial e o outro em pé ao lado. Ao fundo, bandeiras dos Estados Unidos e da presidência, além de janelas com vista para árvores.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) posa para foto com Donald Trump na Casa Branca – 29.mai.26/@flaviobolsonaro no Instagram

Em seu documento oficial de campanha, o candidato Flávio Bolsonaro prevê “declarar guerra ao crime organizado. PCC, CV, milícias e todas as outras facções serão declaradas como organizações narcoterroristas”. O passo é, no fundo, um alinhamento às propostas de Donald Trump para atender à sua estratégia de ampliação de influência e militarização na América Latina.

“Nossas ações concentrarão esforços no combate ao crime organizado e outras ameaças à segurança e defesa nacional. Incentivaremos amplo espectro de tecnologias disponíveis, com foco em inovação como drones e inteligência artificial. Os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um país que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”, declara o candidato do PL.

Apesar de insistir que o Brasil retomará seu “pragmatismo” nas relações internacionais, Flávio indica que “as relações com países como Argentina, Estados Unidos e Israel foram levadas ao limite do rompimento”. “Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, disse.

Ele ainda garante que negociará com “todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos”.

Mas, sem mencionar nem o Brics e nem a ONU, deixa claro que a prioridade é se aproximar ao bloco Ocidental.

“O passo mais urgente é retomar o cronograma interrompido de adesão à OCDE, incluindo o fim gradual do IOF sobre o câmbio, que é condição obrigatória do processo”, afirma.

Segundo ele, a adesão à OCDE é “mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”.

O bloco, porém, tem sido visto como um caminho de padronização de regras adotadas pelos EUA para os demais atores internacionais.

Flávio Bolsonaro, sem mencionar o Mercosul, também sugere que o país pode buscar novos caminhos comerciais, com uma queda importante de tarifas. “Vamos nos preparar para uma abertura comercial que dê ao setor produtivo acesso a bens de capital, tecnologia e insumos importados, num ambiente de concorrência que reduz preços e melhora a oferta ao consumidor”, diz.

“Vamos executar um plano nacional de integração às cadeias globais de valor, com apoio real para o setor produtivo ganhar produtividade, tendo como prioridade a agroindústria avançada, os minerais críticos, a saúde e a economia digital, e apoiar a internacionalização das pequenas e médias empresas”, apontou.

A referência às cadeias globais de valor é vista como um sinal de uma abertura da economia nacional, principalmente para projetos que estão sendo desenhados pelos EUA para transformar a América Latina em uma espécie de reserva de mercado e local de abastecimento.

Caiado: repensar o Mercosul

Ronaldo Caiado, por sua vez, insiste que existe um “déficit de inserção” do Brasil no mundo. Com o foco na exportação, principalmente do setor do agronegócio, ele defende que o Mercosul seja repensado.

“O futuro do Mercosul não pode continuar sendo tratado como tema interditado, nem o Brasil pode seguir fugindo de uma discussão que se tornou inevitável”, diz. Uma de suas apostas é dar prioridade para a Ásia, a África e o Indo-Pacífico.

Ele ainda coloca as parcerias em minerais estratégicos como uma de suas prioridades, com a incorporação de processamento, pesquisa, formação e indústria no território nacional. “O Brasil não escolherá um único bloco nem aceitará permanecer mero fornecedor de matéria prima”, garante.

Foi Caiado, como governador de Goiás, que assinou um acordo sobre minerais críticos com os EUA, sem passar pelo governo federal.

Seu programa ainda fala em “cooperação internacional contra o crime organizado transnacional Ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional, ao narcotráfico, ao tráfico de armas, aos crimes ambientais, à lavagem de dinheiro e às ameaças cibernéticas, com mecanismos permanentes de inteligência, investigações conjuntas e controle de fronteiras”.

Para completar, cita a participação ativa do Brasil na ONU, da OMC, do G20 e do BRICS. Mas, da mesma forma que Flávio, aponta que quer “retomar, com pragmatismo, o processo de aproximação com a OCDE”.

Renan: Brasil nuclear e desdolarizar a América do Sul

 

Renan Santos é pré-candidato do Missão à Presidência da República | Crédito: Republicação/Instagram Renan Santos
Renan Santos é pré-candidato do Missão à Presidência da República | Crédito: Republicação/Instagram Renan Santos

Renan Santos anuncia que quer “inaugurar uma doutrina de política externa”, dividida em 13 pontos. Entre os principais elementos estão:

Posicionamento do Brasil como Árbitro do Sul – “Global por meio de uma diplomacia ativa nas três regiões estratégicas: África, onde o país pode mediar conflitos, expandir sua influência em recursos naturais e rotas comerciais; Ásia, onde pode usar Timor-Leste como porta de entrada e estabelecer parcerias com a ASEAN, em particular com as Filipinas e o Vietnã; e América Latina, sua zona natural de influência onde deve consolidar liderança por meio da integração multilateral”, diz.

Ele quer um Pacto Interamericano contra o crime organizado, liderado pelo Brasil, com a criação de um Centro de Operações Central na América Latina e um tribunal internacional especializado em criminalidade transnacional. “O Brasil não pode liderar o Sul Global enquanto narcotraficantes controlam cidades e fronteiras”, justifica, com um tom de “guerra” contra o crime.

Para que o Brasil tenha liderança na América do Sul, ele sugere a desdolarização do continente busca “reduzir a dependência do dólar americano mediante a criação de uma cesta de moedas sul-americana liderada pelo real brasileiro, linhas de swap entre bancos centrais e cooperação monetária regional, convertendo o Brasil em âncora financeira do continente”.

Sua proposta é a de ter o real “como alternativa complementa essa estratégia, posicionando a moeda brasileira como reserva de valor regional e mecanismo de integração econômica”.

Nas alianças internacionais, ele coloca um questionamento sobre o Brics ao alertar sobre a necessidade de que o Brasil reconheça a “dominação crescente chinesa dentro do bloco e propõe que o Brasil extraia benefícios concretos, por meio dos mercados, investimentos e cooperação tecnológica, enquanto evita ser subordinado aos objetivos geopolíticos de Pequim, mantendo autonomia decisória”.

No setor de defesa, Renan quer o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) e que ela seja integrada à política externa e segurança regional, para “investir em ciberdefesa e tecnologias emergentes, e criar modelos de financiamento sustentável”.

Mas é sua proposta de apostar num caminho atômico que difere dos demais nomes. Diz o texto:

“Proposta de nuclearização brasileira busca alcançar autonomia completa do ciclo de combustível nuclear, incluindo capacidade de reprocessamento, convertendo-a em ativo estratégico de deterrência e garantia irrestrita da soberania nacional”.

Zema: sair do Brics

romeu zema

Em seu documento de campanha, Romeu Zema é o único que propõe uma retirada do Brasil do Brics.

“Retirar o Brasil do BRICS de forma diplomática, preservando pragmaticamente as relações comerciais com todos os países do bloco e recusando qualquer direcionamento que comprometa valores constitucionais e democráticos do Brasil”, diz o programa.

No seu lugar, ele sugere uma adesão à OCDE, bloco dos países desenvolvidos.

Outra proposta concreta de Zema é a de acabar com a União Aduaneira no Mercosul. A ideia é de que o bloco seja apenas uma zona de livre comércio e que cada país tenha o direito de negociar acordos comerciais com o resto do mundo de forma individual.

Hoje, por conta de uma tarifa externa comum, o Mercosul apenas pode negociar acordos em bloco.

 





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