Por Iago Filgueiras
Em 19 de setembro de 2025, um grito ecoou do palco do Vibra São Paulo, uma das maiores casas de espetáculo da América Latina. “Chegou a hora de despertar”, foi esse o convite feito às mais de 4 mil pessoas que participaram do Despertar 2025, o evento progressista mais relevante do país.
Entre os dias 19 e 20, o Instituto Conhecimento Liberta reuniu milhares de pessoas para debater aquilo que realmente importa: política, sociedade, cultura e o futuro do Brasil. A cada palestra, debate ou painel, um turbilhão de ideias rondava a mente de quem estava na plateia. Sem amarras e pautado pelo pensamento crítico, nenhum assunto foi tratado de forma isenta: crise climática, defesa da democracia, combate à extrema direita, fé e transformação social.
Não foram raros os momentos em que o sorriso ficou estampado no rosto, as lágrimas escorreram pelos olhos e os aplausos tomaram conta do Vibra São Paulo. Mas o Despertar não foi apenas um encontro de emoções. Em um momento em que democracia, justiça social e o futuro do país voltam a estar em disputa, o evento também reafirma por que imaginar um Brasil diferente continua sendo um ato político.
Como foi o Despertar 2025?
O Despertar 2025 reuniu mais de 4 mil pessoas no Vibra São Paulo, uma das maiores casas de espetáculo da América Latina, para dois dias de debates, reflexões e encontros dedicados ao futuro do Brasil. Promovido pelo Instituto Conhecimento Liberta, o evento levou ao palco grandes nomes da política, da cultura, da ciência, da educação e dos movimentos sociais para discutir democracia, justiça social, crise climática, tecnologia e os desafios do nosso tempo.
Ao longo dos dois dias, o palco também recebeu jornalistas da equipe do ICL, como Heloísa Villela, Xico Sá, Gabriela Varella, Roberta Garcia, Laura Kotscho, Rodrigo Vianna e Chico Pinheiro, que dividiram experiências e conduziram debates ao lado de convidados nacionais e internacionais.
Também participaram os jornalistas Serginho Groisman e Daniela Lima, debatendo o futuro da imprensa; o ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, que abordou a desigualdade e a precarização das relações de trabalho; e o neurocientista Miguel Nicolelis, que refletiu sobre os riscos da inteligência artificial.
Provando que política, cultura e arte não se separam, o público vibrou com o show irreverente do cantor Falcão e a apresentação marcante de André Frateschi, ao lado de Nasi e Edgard Scandurra, ambos da banda Ira.
Muito além de um evento comum, o Despertar foi um espaço de troca e construção coletiva. Entre palestras, painéis e apresentações culturais, a comunidade do ICL se reuniu para fortalecer uma convicção comum: transformar a realidade começa pelo conhecimento, pelo diálogo e pela ação coletiva.
Entre debates, apresentações culturais e encontros marcantes, alguns instantes ficaram gravados na memória de quem passou pelo Vibra São Paulo. Estes foram alguns deles.
Quando Aleida Guevara emocionou o Despertar 2025

O painel “Lições Revolucionárias” reuniu três vozes de gerações e trajetórias distintas, mas unidas por um mesmo horizonte. Eduardo Moreira, fundador do ICL e mediador do encontro; Frei Betto, frade dominicano e referência da Teologia da Libertação; e Aleida Guevara, médica e filha do revolucionário Che Guevara, emocionaram o público ao falar sobre solidariedade e revolução.
Aleida relembrou a memória do pai que, mesmo viajando o mundo e trabalhando mais de 16 horas seguidas, “sempre dava um jeito de ficar com a família”. A médica também exaltou a Revolução Cubana e destacou as dificuldades e o papel de ser uma mulher revolucionária:
Ser uma mulher revolucionária pode dar muita dor de cabeça, mas o importante é que, quando você encosta a cabeça no travesseiro, você dorme tranquila”, disse.
Frei Betto destacou que pessoas de fé com visão progressista têm um papel fundamental na transformação social e comentou as intersecções entre religião e desigualdade social no Brasil. O painel emocionou a todos ao mostrar que a revolução não está só nos livros, mas na voz daqueles que resistem e que a mantêm viva, dia após dia.
A revolução que nasce da periferia

A revolução não é feita a partir dos gabinetes. No palco do Despertar 2025, ela ganhou voz a partir das histórias daqueles que transformam a realidade dia após dia. Jones Manoel, Renata Alves, Leonardo Péricles e o rapper GOG mostraram que ela também é construída nas ruas, vielas, favelas e ocupações.
Como disse Eduardo Moreira, um dos fundadores do ICL, esses “são heróis de carne e osso, que mostram que a revolução virá da periferia”.
Cada relato mostrou que a resistência se constrói todos os dias. O rapper GOG transformou em poesia a violência vivida nas periferias e destacou o trabalho da Casa GOG. Renata Alves emocionou o público ao relembrar a mobilização que salvou milhares de vidas durante a pandemia e celebrou a Escola de Tecnologia do Legado Paraisópolis. Já Leonardo Péricles, fundador da Unidade Popular (UP), destacou a força da organização popular e lembrou que “quem move a máquina é o trabalhador, e é esse mesmo setor que pode parar tudo e construir outra sociedade”.
É esse o espírito que move o Despertar, provando que a revolução se faz no dia a dia e que ela acontece quando comunidades se organizam, criam oportunidades e mostram, na prática, que outro futuro é possível.
Quando o conhecimento transforma vidas

Transformar a realidade depende do olhar crítico e é por isso que o ICL acredita que o conhecimento realmente liberta. Por isso, no segundo dia do Despertar 2025, o primeiro painel da tarde reuniu a médica e cantora Júlia Rocha, professores do Instituto Conhecimento Liberta e três bolsistas da pós-graduação Repensando o Brasil: Sociedade, Política e História, fruto da parceria entre o ICL e a FESPSP.
A apresentação emocionante de Júlia Rocha resgatou clássicos como Zé do Caroço (Leci Brandão), Vamos à Luta (Gonzaguinha) e Meu Lugar (Arlindo Cruz), além de apresentar sua composição autoral Pedida Certa. E foi a voz dos bolsistas da pós-graduação que provaram como o acesso ao conhecimento se traduz em transformação social:
- Aline Monteiro: jornalista, cria da Baixada Santista, contou como a educação foi essencial para romper com o ciclo de violência que assola as periferias do país: “perdi amigos baleados na porta de casa. A educação me trouxe até aqui, me fez acreditar que podemos ocupar outros espaços.”
- Ana Paula Gomes: professora de História e membro da Educafro, destacou como o conhecimento também cria novos ciclos, formando agentes transformadores na política. E reforçou o papel da pós-ICL nesse processo ao dizer que ela “nos mostra que corpos negros são potência de resistência, não vítimas da sociedade. A ajuda que recebemos transforma vidas, que, por sua vez, transformam a política”.
- Gesiel: formado em Administração, comoveu a todos ao relatar seu encontro com a própria identidade. Ele relatou o preconceito vivido dentro da própria família, a relação com o pai e a descoberta da sua sexualidade e concluiu: “quando repensarmos nossa história, descobriremos verdadeiramente o Brasil”.
O alerta de Marina Silva: “A natureza já está no vermelho”

Em um dos momentos mais marcantes do Despertar 2025, as pessoas acompanharam, em silêncio, a participação virtual da então ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Direto de Nova York, onde integrava a comitiva brasileira na Assembleia Geral da ONU, ela fez um alerta contundente: “a natureza já está no vermelho”.
Ao definir a crise climática como o “armagedom da crise civilizatória”, Marina lembrou que o desafio ambiental também é uma questão de democracia, justiça social e responsabilidade coletiva. Para ela, já existem respostas técnicas para grande parte dos problemas. O que falta é compromisso ético para transformar esse conhecimento em ação.
A ministra também defendeu que o futuro depende da capacidade de unir diferentes saberes, da ciência aos conhecimentos dos povos indígenas e tradicionais, e afirmou que a sustentabilidade precisa deixar de ser uma pauta secundária para orientar as decisões da sociedade.
O efeito da fala foi imediato e, na ausência de palavras para expressar, o público reagiu com palmas. De pé, a comunidade ICL aplaudiu por longos minutos, com a certeza de que é hora de assumir responsabilidade e agir.
A democracia foi aplaudida de pé

A nossa jovem democracia também foi celebrada, com o compromisso de que defendê-la é um dever coletivo. No palco, os jornalistas do ICL trouxeram os bastidores do documentário “O fim de Bolsonaro“, produção original que narra o caminho que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à condenação por tentativa de golpe de Estado.
O jornalista Maurício Arruda destacou a potência e o diferencial do ICL Notícias, ao relembrar sua chegada ao projeto. “A gente foi entendendo que não dava mais para fazer jornalismo do jeito tradicional. A construção foi coletiva, uma experiência de comunidade que se materializou em algo muito maior”, disse. Já Juliana Dal Piva, que cobriu o julgamento, celebrou o resultado das madrugadas viradas para a produção do documentário, destacando: “foi uma das maiores experiências profissionais da minha vida”.
Quando o golpismo cai no esquecimento, é a democracia que corre risco e o futuro do país que entra em xeque. A uma plateia emocionada, a jornalista Marcia Cunha concluiu que “o filme é um registro para as próximas gerações, para que ninguém esqueça a violência e a tragédia que foram esses anos”.
A fé também pode transformar o mundo

Quando o assunto é resgatar a esperança e devolver a todos o direito de imaginar um mundo novo, a espiritualidade também entra em cena. O Sagrado é Revolucionário e isso ficou claro no culto ecumênico realizado no palco do Despertar 2025.
O deputado federal pastor Henrique Vieira, o frei David, o escritor e líder indígena Daniel Munduruku e o sacerdote afro-brasileiro Mário Filho se uniram com a mediação de Marco Schultz. Para mais de 4 mil pessoas que assistiam comovidas da plateia, o que ficou claro é que a fé jamais deve ser uma ferramenta de manipulação, mas um instrumento para transformar o mundo, romper com a desigualdade, o racismo e a opressão.
Citando o evangelho, o pastor Henrique Vieira lembrou a face revolucionária de Jesus de Nazaré: “perseguido, torturado pelo Estado e executado com cidadãos de bem comemorando sua morte”. Sua reencarnação, para o pastor, é profunda: “ele ressuscitou contra toda forma de opressão”.
Por que o Despertar 2026 importa?

A democracia não é uma conquista definitiva. Ela depende da capacidade de uma sociedade de participar, debater, discordar e decidir coletivamente os rumos do país. A proximidade das eleições coloca essa responsabilidade em cena, mas revela também uma oportunidade: é nesse momento que o futuro se torna também uma escolha.
Ao mesmo tempo, cresce a sensação de que nada pode mudar. A desinformação, a polarização, o avanço da extrema direita e as sucessivas crises ambientais e sociais alimentam o medo, a desesperança e a impressão de que o amanhã já está determinado. É justamente quando o desejo de mudança dá lugar à desesperança que a democracia sai perdendo — quando deixamos de acreditar que outro caminho é possível, também deixamos de construí-lo.
Uma das pós-graduações do Instituto Conhecimento Liberta é dedicada à Teoria Crítica da Sociedade, corrente de pensamento que propõe que o conhecimento não deve apenas explicar a realidade, mas transformá-la. Afinal, as estruturas sociais não são permanentes. Elas foram construídas ao longo da história e, justamente por isso, podem ser transformadas.
É esse o espírito que move o Despertar. Reunindo grandes pensadores, pesquisadores, lideranças sociais e artistas do Brasil e do mundo, o evento convida milhares de pessoas a refletirem sobre democracia, justiça social, crise climática e os desafios do nosso tempo, sem perder de vista aquilo que torna qualquer transformação possível.
Antes de mudar o mundo, é preciso recuperar o direito de imaginá-lo diferente. E, em um momento em que o futuro do Brasil volta a estar em disputa, talvez não exista tarefa mais urgente do que essa.
Um evento construído por quem acredita na transformação

Seguindo na contramão dos grandes eventos, o ICL reafirma, dia após dia, mês após mês e ano após ano, o seu compromisso com a independência. Sem amarras de patrocinadores ou interesses obscuros, o Instituto Conhecimento Liberta é feito e sustentado por uma comunidade que acredita que conhecimento, democracia e transformação social são inegociáveis.
É essa independência que permite reunir pensadores, lideranças populares, artistas e aqueles que fazem da revolução uma prática cotidiana. E é essa comunidade que se mobiliza para ajudar, fortalecer o jornalismo, defender a democracia e imaginar um mundo novo.
No Despertar, o público não ocupa apenas as cadeiras da plateia. Ele faz parte daquilo que torna o evento possível. Afinal, quando uma comunidade decide financiar as ideias em que acredita, ela deixa de ser espectadora da história e passa a ajudar a escrevê-la.
Uma fala de Eduardo Moreira, feita na edição de 2025, segue ressoando: “Pode ser que a vitória não aconteça em nossa geração, mas, quando ela vier, será também nossa”. Mas é a esperança que continua nos movendo e nos lembrando de que o caminho se faz ao caminhar. E o Despertar é justamente isso, um caminho. Um caminho que nos lembra que “resistir é dançar, sorrir, se abraçar. É assim que a gente atravessa o tempo necessário para transformar o mundo. Chegou a hora de despertar”.
Transformar o mundo começa ao lado de quem compartilha a mesma esperança. No Despertar 2026, nos reunimos mais uma vez para ocupar espaços, debater caminhos e fortalecer a nossa democracia. As vendas começam no dia 16 de agosto, às 12h. Garanta acesso a condições exclusivas e não fique de fora desse encontro transformador.



