Cury encontrou uma onda. Agora precisa provar que existe chão

0
1


Por Cleber Lourenço

Augusto Cury deixou de ser uma curiosidade eleitoral. Em poucas semanas, saltou de cerca de 2% para 10% na Quaest, 8% no Datafolha e 7,8% na AtlasIntel. Três institutos, metodologias diferentes e a mesma direção: existe uma onda Cury.

A dúvida agora é outra. Existe chão?

A pergunta é importante porque a política brasileira tem certa compulsão por transformar qualquer crescimento de uma candidatura alternativa em certidão de óbito da polarização. Cury mal chegou aos dois dígitos e já reapareceu o velho papo sobre terceira via, eleitor cansado dos extremos e uma suposta maioria silenciosa finalmente encontrando alguém para chamar de seu.

Esse eleitor cansado existe. O exagero está no tamanho que costumam atribuir a ele.

Se houvesse um gigantesco contingente de brasileiros esperando apenas o candidato certo para abandonar os dois principais campos políticos, seria difícil explicar as últimas três eleições presidenciais. Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves foram ao segundo turno. Em 2018, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Em 2022, Lula e Bolsonaro concentraram juntos mais de 91% dos votos válidos já no primeiro turno.

Talvez a realidade seja menos emocionante: há um eleitorado cansado dos polos, pouco identificado politicamente e disposto a experimentar alternativas. Ele só nunca demonstrou ser grande o bastante para reorganizar sozinho uma eleição presidencial.

Cury encontrou esse eleitor. E encontrou muito bem.

Na Quaest, chega a 24% entre os chamados independentes, contra 21% de Lula e apenas 9% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A diferença para Lula está dentro da margem específica desse segmento, mas isso pouco altera o significado político do número. O candidato que nacionalmente tem 10% virou uma das principais escolhas justamente entre aqueles que não se identificam com os campos dominantes.

Entre os polos, porém, as muralhas continuam de pé.

Flávio tem 91% entre bolsonaristas. Lula, 93% entre lulistas. Cury marca 1% nos dois grupos. Mesmo na direita não bolsonarista, Flávio concentra 72%, enquanto Cury tem apenas 6%.

Cury não está quebrando a polarização. Está crescendo no espaço entre ela.

E os detalhes das pesquisas permitem desenhar melhor quem ocupa esse espaço.

A idade é provavelmente o dado mais impressionante. Na Atlas, Cury chega a 19,8% entre brasileiros de 25 a 34 anos. Tem 12,1% entre os de 16 a 24 e vai perdendo força conforme o eleitor envelhece, até praticamente desaparecer entre os maiores de 60 anos, com 0,3%.

Quaest e Datafolha enxergam praticamente a mesma coisa. Na Quaest, Cury tem 14% entre 16 e 34 anos e apenas 4% entre quem passou dos 60. No Datafolha, chega a 14% entre 25 e 34 anos e 10% entre 16 e 24.

Não parece acidente estatístico. É um perfil eleitoral.

O Datafolha acrescenta outra característica: Cury alcança 14% entre brasileiros com ensino superior. Ele está encontrando força sobretudo entre jovens, escolarizados, conectados e menos amarrados às identidades políticas tradicionais.

Isso ajuda a explicar a velocidade da arrancada.

Em duas semanas, segundo a Quaest, a parcela dos brasileiros que não conhecia Cury caiu de 74% para 54%. Ao mesmo tempo, aqueles que o conheciam e admitiam votar nele passaram de 10% para 21%.

Mais exposição virou conhecimento. Conhecimento virou intenção de voto.

Só que a mesma pesquisa traz a primeira luz amarela. Enquanto o percentual que conhece Cury e poderia votar nele aumentou, também cresceu, de 16% para 25%, a parcela que passou a conhecê-lo e diz que não votaria nele.

É assim que campanhas funcionam.

Enquanto você é desconhecido, praticamente todo novo eleitor é uma possibilidade. Quando vira candidato relevante, começa a ser examinado, confrontado e atacado. Cada brasileiro que passa a conhecê-lo pode virar eleitor ou rejeitá-lo.

Cury ainda tem 54% do país para atravessar essa porta.

Há outro sinal de fragilidade. Na Quaest estimulada, quando os nomes são apresentados ao entrevistado, ele tem 10%. Na espontânea, quando a pessoa precisa dizer sozinha em quem pretende votar, Cury cai para 4%.

Não significa que seus 10% sejam fictícios. Significa que uma parte considerável desse eleitorado ainda precisa ser lembrada de que Augusto Cury é uma opção presidencial.

E praticamente metade de seus próprios eleitores admite trocar de candidato: 48% dizem que ainda podem mudar de voto.

A onda é real. O voto ainda é mole.

Quem acha que isso basta para antecipar uma revolução eleitoral deveria visitar o cemitério dos fenômenos de campanha.

Em 2002, Ciro Gomes chegou a 28% das intenções de voto, apenas cinco pontos atrás de Lula. Terminou com 12% e fora do segundo turno. Heloísa Helena chegou a 12% em 2006 e recebeu 6,85% nas urnas.

Marina Silva oferece talvez o caso mais pedagógico. Em 2014, chegou a 34%, empatou com Dilma Rousseff e apareceu vencendo a petista numa simulação de segundo turno. Terminou com 21,3% e assistiu Aécio Neves disputar a Presidência.

Cury hoje tem entre 7,8% e 10%.

Isso não é pouco. Só existe uma distância monumental entre ser o fenômeno da semana e ameaçar uma vaga no segundo turno.

A própria distribuição regional, porém, impede que se trate Cury como simples bolha de internet. Na Quaest, ele marca 12% no Nordeste, 10% no Sudeste, 9% no Sul e 7% no Norte e Centro-Oeste. Não é um fenômeno restrito a São Paulo ou a meia dúzia de bolhas digitais.

Por isso, descartá-lo seria tão precipitado quanto coroá-lo.

O próximo teste não será apenas crescer mais dois pontos. Será mostrar persistência. Cury precisa manter seus novos eleitores quando deixar de ser novidade, aumentar seu voto espontâneo, consolidar aqueles 48% que admitem mudar e ampliar sua presença para além dos jovens e escolarizados.

Se começar a penetrar de maneira consistente entre eleitores mais pobres e mais velhos e caminhar para 15% ou 20%, aí a eleição começa a contar outra história.

Até agora, Cury provou que existe um eleitorado disponível para uma alternativa. Não provou que esse eleitorado é enorme, nem que consegue  formar um novo campo político.

Afinal, na Atlas, Lula tem 43,4% e Flávio, 33,7%. Juntos, concentram 77,1%. Cury tem 7,8%.

É uma onda importante.

Para chegar ao segundo turno, porém, ele vai precisar descobrir se existe terra firme quando ela passar.





ICL Notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui