Como dividir despesas no casamento sem gerar conflito financeiro

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Poucos temas exigem tanto acordo dentro de um casamento quanto o dinheiro. A forma como um casal organiza contas, divide gastos e planeja objetivos varia de acordo com a renda de cada um, o momento profissional e, mais adiante, com a possível chegada dos filhos.

Não existe um modelo único de organização financeira. Há famílias que mantêm contas separadas e dividem as despesas de forma proporcional à renda de cada parceiro. Outras preferem reunir todo o dinheiro em uma conta conjunta e tratá-lo como patrimônio comum do casal.

Para a consultora financeira Carol Stange, entrevistada pela Folha, o que realmente faz diferença é a existência de regras claras sobre o uso do dinheiro em casa. Segundo ela, o desequilíbrio nas contas costuma vir da falta de comunicação e transparência entre o casal, não do modelo escolhido.

Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo
Conflito financeiro costuma ser um grande embate e um dos motivos que causam brigas em relações, veja como se prevenir (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Quando um ganha mais que o outro

A divisão proporcional das despesas tende a surgir como solução quando há diferença de renda entre os parceiros: quem ganha mais assume uma fatia maior dos gastos da casa.

É esse o modelo adotado pela gerente de marketing Marina Souza, 34, e o marido, o advogado Felipe Santana, 35, casados há nove anos. Eles mantêm contas separadas e distribuem as despesas conforme a renda de cada um, por considerarem esse formato mais justo e sustentável para a relação.

Felipe concentra a maior parte da renda do casal, já que soma o trabalho como advogado associado em um escritório com atendimentos particulares. Marina trabalha em regime CLT e ainda cursa a graduação em Direito. Essa diferença se reflete na divisão das contas: Marina cobre o financiamento do apartamento e as despesas de educação, transporte e lazer da filha, Ana Júllia, de 14 anos, enquanto Felipe é responsável pela alimentação, saúde, manutenção do imóvel e outros gastos domésticos.

Stange explica que esse modelo ajuda a reduzir o risco de sobrecarga para quem ganha menos, e costuma funcionar bem quando cada parceiro destina uma faixa parecida da própria renda, algo entre 30% e 40%, dependendo do custo de vida, para as despesas em comum.

Mesmo com contas separadas, Marina e Felipe decidem juntos compras maiores, investimentos e metas de longo prazo. O casal não usa planilhas: preferem anotar receitas, despesas e vencimentos, e revisam esse registro todo mês para acompanhar a evolução dos gastos.

Quando o dinheiro é só um, de dois

Outros casais optam por não separar rendimentos, tratando toda a renda como patrimônio comum, reunido em um único orçamento para cobrir despesas e planos da família.

Esse é o caso da administradora Amanda Koga, 33, e do médico psiquiatra Mário Koga, 31, casados desde 2018. Para Amanda, o dinheiro do casal nunca foi “dele” ou “dela”, e sim sempre da família como um todo, uma visão que se manteve firme mesmo com as mudanças na vida profissional dos dois: no início da relação, a renda vinha só de Amanda; depois, durante a formação médica de Koga, passou a depender apenas do trabalho dele; mais tarde, os dois ainda investiram em um empreendimento próprio. Em nenhuma dessas fases houve divisão financeira entre eles.

É Amanda quem cuida de boa parte da administração das contas, acompanhando pagamentos, saldo disponível e uma planilha de gastos ao longo do mês. Para organizar decisões em conjunto, o casal criou um grupo de WhatsApp só para assuntos financeiros, onde reúnem informações do dia a dia e planejam compromissos futuros, de compras grandes a viagens, pesquisando opções e valores antes de decidir, seja por mensagem ou em uma conversa reservada para o tema.

Desde 2025, o casal também conta com uma consultoria para estruturar a reserva financeira e definir a estratégia de investimentos.

Comunicação evita conflitos

Além do modelo de divisão escolhido, especialistas apontam a comunicação como fator central para evitar conflitos financeiros na relação. A professora de economia da FGV Celina Ramalho afirma que metas bem definidas em casal reduzem o risco de endividamento, e que o maior cuidado deve ser não desviar a renda combinada para outros gastos sem planejamento, já que isso é o que costuma abrir espaço para problemas financeiros.

O impacto de virar família

A chegada dos filhos costuma ser uma das maiores mudanças no orçamento familiar. Novas despesas aparecem antes mesmo do nascimento e podem exigir revisão de metas, adiamento de planos e reorganização das contas.

Para casais que planejam engravidar ou adotar, Carol Stange recomenda começar a se preparar financeiramente ainda no primeiro trimestre da gestação, verificando se a reserva de emergência é suficiente para sustentar a nova estrutura de gastos por pelo menos seis meses.

A especialista chama atenção também para um ponto que costuma ficar de fora do planejamento: quando um dos parceiros reduz a jornada ou pausa a carreira para cuidar da criança, o impacto vai além do salário que deixa de entrar, afetando também a contribuição previdenciária e a progressão profissional, algo que precisa entrar na conta.

Amanda e Koga sentiram esse efeito na gestação do primeiro filho, José Vicente. Sem uma reserva financeira grande na época, precisaram parcelar diversas despesas urgentes e adiar congressos, viagens e alguns projetos profissionais para priorizar a nova fase.

O planejamento também muda com o crescimento dos filhos. Marina e Felipe contam que, quando a filha era pequena, os gastos se concentravam em necessidades básicas. Hoje, na adolescência, o orçamento passou a incluir despesas com educação, tecnologia, lazer e desenvolvimento pessoal, além de investimentos em educação financeira para estimular o uso responsável do dinheiro pela própria filha.





ICL Notícias

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