A Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania concedeu, nesta terça-feira (2), por unanimidade, perdão e indenização a José Reinaldo Lima, ex-atacante do Atlético Mineiro e da Seleção Brasileira, por ter sido perseguido pela ditadura militar. Reinaldo também reivindicava uma indenização, que foi igualmente concedida. Ela será paga em uma prestação única de R$ 100 mil.
O ex-jogador chorou durante quase todo o pronunciamento que fez nesta terça. Reinaldo recordou ter sido vítima de uma campanha de difamação, além de impedido de atuar por mais tempo na Seleção Brasileira por questões políticas.
“Eu sou o Reinaldo, muitos me conhecem como um grande talento do futebol brasileiro. Talvez vocês se lembrem da minha trajetória nos campos, mas pode ser que muitos não saibam das lutas silenciosas que tive de enfrentar”, disse. “Durante os anos da ditadura, muita gente sofreu perseguição de várias formas. Todos nós sabemos dos horrores, das prisões, das torturas, que tiraram a liberdade e a vida de tantos brasileiros. Mas a verdade é que a repressão do Estado foi muito além dos porões e das celas”, prosseguiu o ex-atleta, chorando.

Eles criaram campanhas de difamação, verdadeiras operações para acabar com a reputação e a vida social de pessoas que eles consideravam inimigos ou ameaças ao poder deles. Existia sim uma central de boatos oficial, uma verdadeira máquina de propaganda e mentiras que agia nas sombras, mas com resultados terríveis na vida real. Essa central não só inventava histórias, mas também as espalhava de forma calculada. Usavam telefonemas, cartas anônimas e até plantavam notícias falsas em jornais e revistas”, lembrou Reinaldo.
Reinaldo comemorava gols com punho cerrado para o alto
Reinaldo comemorava seus gols com o punho cerrado para o alto, o mesmo gesto dos militantes negros do movimento dos Panteras Negras, que atuou contra o racismo e pela conquista dos direitos civis no Estados Unidos. Por isso, era visto com desconfiança pelos militares.
“Um simples gesto meu, com o punho cerrado, nas minhas comemorações, ou as minhas declarações pedindo a volta da democracia, foram suficientes para acionar uma campanha gigantesca de difamação contra mim. O objetivo era claro: destruir a minha reputação, me associando a coisas ruins e a comportamentos desviantes e a ideias perigosas”, afirmou Reinaldo.

O ex-jogador foi monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), que servia de base para prisão e tortura. O ex-atleta também foi perseguido pelos generais que comandavam o governo e a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
“A campanha de difamação e perseguição política me tiraram muitas oportunidades. Talvez, a prova mais evidente seja a não convocação para a Copa de 1982, em que, apesar de o treinador (Telê Santana) falar em questões físicas, todo mundo sabia que o motivo eram as restrições sobre o meu suposto comportamento fora de campo”, comentou Reinaldo.



