(Folhapress) – “Se juntar direitinho peças dá para se divertir ainda.” “Vou fazer concurso para o IML.” “Infelizmente era linda, se fosse mulher feia seria menos triste, na verdade engraçadíssimo, mas enfim tragédia.” Esses são alguns dos comentários feitos na rede social X, o antigo Twitter, em reação à morte de Maria Eduarda Rodrigues Freitas, uma jovem de 21 anos que morreu após ser arremessada de uma ponte sem cordas de segurança em Limeira, no interior de São Paulo, num salto de rope jump.
Maria Eduarda foi enterrada em Jandira no dia 14, um dia após o acidente. Seis pessoas envolvidas no caso foram detidas pela polícia.
Os comentários feitos no X geraram uma onda de indignação e as deputadas Erika Hilton (PSOL) e Tabata Amaral (PSB) protocolaram pedidos de investigação dos autores.
Hilton pediu à Diretoria de Combate a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal a instauração de uma investigação criminal contra os usuários do X. Tabata entrou com uma ação no Ministério Público Federal. “Nem mesmo no leito de morte, nós, mulheres, temos paz”, escreveu a deputada em suas redes sociais.
Segundo especialistas, os comentários misóginos feitos no X não são uma novidade restrita a esse caso. Isabela del Monde, coordenadora da ONG Mee Too Brasil, cita o caso de um ex-policial militar que minimizou a pena de violação sexual de cadáveres durante uma aula de cursinho sobre o tema, em 2023.
Para Clarice Tavares, diretora de pesquisa do InternetLab, “a internet não cria violência, ela amplifica, com alcance e o anonimato, questões que já existem”. Ela diz que apesar de a violência online conter elementos específicos, está muito conectada a uma misoginia anterior.
Tavares diz que o fato de comentários como os feitos sobre Maria Eduarda serem chocantes, responde à lógica da atenção que é própria da internet. Quanto mais chocantes, mais tração online as declarações ganham. “Isso dá visibilidade tanto para as denúncias quanto pra que outras pessoas agregem novas camadas de violência”, afirma a especialista.
O caso ocorre na esteira da mobilização em torno do PL da Misoginia, projeto de lei em tramitação ma Câmara que equipara a misoginia ao racismo, caso seja aprovado, ela passaria a ser um crime imprescritível e inafiançável, com penas de dois a cinco anos de reclusão.
Tavares afirma que denúncias como as feitas por Tabata e Erika Hilton servem também para jogar na luz na responsabilidade das plataformas de mídias sociais. Uma decisão recente do STF cobra mais proatividade das empresas em casos como esses, que devem remover esse tipo de comentário mais rapidamente.



