Brasil registra 13 ataques contra indígenas após vitória de Lula 

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Por Guilherme Pavarin

A Ação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e organizações independentes relatam uma série de ataques, ameaças e episódios de discriminação contra comunidades indígenas desde a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) informou ao ICL Notícias que recebeu 13 denúncias de violência no contexto pós-eleitoral.

Os casos começaram a ser registrados poucas horas depois do resultado no domingo de votação (25). Em Tacuru, no Mato Grosso do Sul, onde Lula teve 62,19% dos 5.128 votos válidos, dois servidores municipais trocaram áudios com ofensas aos indígenas Guarani Kaiowá, responsáveis, segundo eles, pela vitória do petista. Em uma das gravações disseminada na noite do anúncio da derrota de Flávio Bolsonaro (PL), um dos homens sugeriu envenenar a água consumida pela aldeia Sassoró. Os funcionários foram afastados, e a prefeitura abriu procedimentos disciplinares. A Polícia Federal investiga o episódio.

Indígenas Terena, Tupi-Guarani e Kaingang também afirmaram terem recebido ameaças depois da eleição em Avaí, cidade do interior de São Paulo. Gravações divulgadas em grupos de WhatsApp sugeriam retaliações contra moradores da Terra Indígena Araribá que teriam votado em Lula. Os conteúdos mencionavam agressões e suspensão da distribuição de cestas básicas.

À Folha de S.Paulo, o homem apontado como responsável pelas gravações disse estar arrependido e negou intenção de perseguir indígenas. A Prefeitura de Avaí repudiou as declarações e afirmou que os benefícios às comunidades não serão interrompidos. A cidade tem 4139 eleitores, sendo que a maioria votou em Flávio — 51,23% dos votos válidos —, 

Outro episódio de ameaças ocorreu contra o povo Terena, na aldeia Tereré, em Sidrolândia (MS). Antes e depois do domingo de votação, circularam mensagens de teor racista contra indígenas que manifestaram apoio a Lula. Os comentários incluíam propostas de cortar o fornecimento de água e energia e retirar o direito ao voto. 

Na cidade com 35.156 eleitores, Flávio Bolsonaro venceu com 55,96% dos votos válidos. Na seção próxima à aldeia, a Nova Tereré, com 232 eleitores, deu-se o inverso: Lula teve 84,4% dos votos válidos.

Ameaças e incêndios

No Pará, indígenas Parakanã foram alvo de ofensas e ameaças de confronto armado em áudios que circularam em 27 de outubro. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), as mensagens tinham motivação político-eleitoral.

No dia anterior, um incêndio havia atingido a vegetação próxima às aldeias, na região de Novo Repartimento, cidade que conta com 45.702 eleitores — e onde Flávio obteve 60,12% dos votos válidos. O órgão não estabeleceu relação direta entre o fogo e o resultado da eleição.

Em 29 de outubro, a casa da rezadeira indígena Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada na Terra Indígena Jaguapiré, em Tacuru. Segundo a Apib, o fogo destruiu também objetos sagrados usados em rituais Guarani e Kaiowá. A entidade classificou o episódio como criminoso, mas a motivação eleitoral ainda não foi comprovada.

Na mesma quinta-feira (29), outro incêndio atingiu a Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, no Ceará, cidade com grande domínio lulista — nela, o presidente teve 75,3% dos 86.866 votos válidos. Segundo lideranças indígenas, o fogo começou poucas horas depois de uma mensagem ameaçadora ser enviada ao perfil da comunidade nas redes sociais. A relação entre os episódios ainda é investigada.

Na madrugada de sexta-feira (30), o indígena Damácio Moraes, de 40 anos, foi encontrado morto sob a arquibancada de um estádio na Terra Indígena Porto Lindo, em Japorã (MS), onde, no local de votação Escola Polo Municipal Guarani, nas proximidades da aldeia, Lula teve 97% dos 2431 votos válidos. O caso é investigado pela Polícia Civil, que ainda não estabeleceu a motivação do crime.

O MPI informou também ter recebido denúncias de discursos de ódio contra indígenas Kaingang, da Terra Indígena Ligeiro, em Charrua (RS), cidade com amplo domínio de Flávio Bolsonaro — 78,9% dos votos válidos — e de possíveis incêndios criminosos na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará. O ministério não especificou as datas dessas ocorrências nem confirmou ligação com o resultado eleitoral.

Violência anterior à disputa eleitoral

O Cimi informou ao ICL Notícias que não possui um levantamento nacional dos ataques com motivação política desde 25 de outubro, mas afirmou ter recebido relatos de retaliações, ameaças e intimidações contra comunidades indígenas durante e depois do processo eleitoral.

Segundo Luís Ventura, secretário executivo da entidade, os ataques relacionados à escolha dos eleitores indígenas se somam a um histórico de violência territorial, sobretudo em Mato Grosso do Sul.

“Este conjunto de violências contra os povos indígenas responde, conjunturalmente, ao exercício livre, autónomo e consciente dos povos indígenas do voto”, afirmou.

Segundo o relatório anual da entidade, 37 indígenas foram assassinados e outros 18 sofreram tentativas de assassinato em Mato Grosso do Sul em 2025.

“As motivações políticas derivadas do último processo eleitoral engrossam uma situação que permanece com caráter estrutural no estado do Mato Grosso do Sul sem que haja medidas adequadas para reverter esta violência sistemática”, disse Ventura.

O governo federal informou que mobilizou uma força-tarefa com participação da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e Funai para investigar as denúncias e proteger comunidades ameaçadas. O Cimi considera insuficientes as medidas adotadas até o momento.

Na terça-feira (3), o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu prazo de cinco dias para que órgãos federais, o governo de Mato Grosso do Sul e o Ministério Público Federal prestem informações sobre as investigações das ocorrências e as medidas adotadas para proteger as comunidades.





ICL Notícias

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