Brasil diz que EUA informaram que embaixadora pode continuar trabalhando

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Por Jamil Chade e Heloisa Villela

A Casa Branca não revogou por completo o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti. Segundo fontes do governo Lula, o Departamento de Estado informou que a diplomata não será expulsa e que a modificação do visto se refere ao número de entradas de Viotti ao território dos EUA. No lugar de múltiplas entradas, agora ela tem só uma. Se deixar o país precisará pedir novo visto para voltar.

Na terça-feira, o governo Trump anunciou que estava revogando o visto da embaixadora, um ato inédito na relação bilateral. O gesto seria, na visão da Casa Branca, uma resposta diante da demora do Brasil em aceitar o nome indicado pelos EUA para ser o embaixador americano em Brasília, Daniel Perez.

Mas, nos bastidores, o governo Trump informou que ela continua sendo a representante do governo brasileiro em solo americano.

Há poucos dias, Viotti foi chamada para uma reunião no Departamento de Estado e, no encontro, ela foi informada de que o governo Trump pensava em modificar seu visto.

Nesta terça-feira, ela recebeu um telefonema confirmando que o visto seria modificado. Mas que suas funções seriam preservadas.

Se ela tiver de sair dos EUA, não poderá voltar e terá de pedir um novo visto, o que certamente seria dificultado.

O governo Lula entendeu que ela não foi declarada como persona non grata, continua sendo a representante oficial do Brasil nos EUA e que não está presa em sua casa.

Na prática, portanto, o governo brasileiro considera que ela continua sendo a embaixadora. Se o Brasil for convidado, por exemplo, para uma reunião com o Departamento de Estado, será Viotti que terá o poder de dizer quem irá aos encontros, inclusive com sua própria presença.

Mas o governo Lula sabe que entre sua interpretação e a realidade da manipulação diplomática de Trump, pode haver uma diferença. Por isso, o Palácio do Planalto optou por adotar uma extrema cautela antes de reagir.

O governo vê o gesto como um constrangimento e uma tentativa de ingerência na eleição. Mas quer ainda entender de que forma a decisão terá um impacto real no trabalho da diplomata. Fontes do governo informaram que a interlocução entre os dois países já é difícil e a medida adotada contra a embaixadora agora não deve mudar essa realidade. O Departamento de Estado, disse uma das fontes, não tem interesse em conversar com os reais representantes do governo brasileiro, sugerindo que preferem conversar com os aliados de Flávio Bolsonaro.

Por enquanto, o Brasil não pensa em retirá-la de Washington. Mas se o constrangimento for maior do que os EUA indicaram até agora, uma nova atitude pode ser adotada. A mudança no visto da embaixadora brasileira foi vista como uma chantagem pública e a convicção no Planalto é de que o Brasil não pode ceder a chantagens.

O Brasil ainda interpretou a decisão dos EUA como uma “arapuca”. O objetivo poderia ser o de forçar o governo Lula a responder e, então, uma crise ainda maior seria instaurada.
Por isso, o Palácio do Planalto não prevê nenhum tipo de retaliação imediata. A meta é a de não dar aos EUA motivo para abrir uma tensão política, às vésperas das eleições nacionais.

De todas as formas, o Brasil não pensava em dar o visto para Perez antes das eleições e isso não será modificado. Na avaliação do governo, se Trump passou um ano e meio sem embaixador no Brasil, sua pressa atual por ter alguém em Brasília seria apenas um indício extra de que o ato faz parte de uma estratégia de ingerência.

A desconfiança no governo Lula, porém, é de que os ataques de Trump não irão cessar, principalmente até a eleição.

Num jogo de xadrez com capítulos intrincados, o Brasil estima que os EUA calcularam que, diante do gesto de revogar o visto, Lula ordenaria a retirada imediata da embaixadora. Em resposta, a Casa Branca culparia o Brasil por ter rebaixado a relação.

Ao manter Viotti em Washington, o Brasil anulou essa cartada e obriga os EUA a ter de buscar uma nova manobra para conseguir minar a relação bilateral.





ICL Notícias

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