Até que ponto o brasileiro acha que os fins justificam os meios?

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Por Pedro chê*

 

Prosseguindo na análise da pesquisa e seus quesitos sobre a opinião do brasileiro novas surpresas emergiram. Observou-se um elevado nível de aceitação social quanto a efeitos colaterais no combate ao crime. Quando questionados se apoiariam a punição de um grupo de dez pessoas sabendo-se que, entre elas, haveria nove culpados e um inocente, a maior parcela dos respondentes afirmou apoiar a punição mesmo diante desse risco (42%). Outros 15% posicionaram-se contrariamente, enquanto 43% declararam não saber responder, indicando que o tema permanece politicamente em aberto.

Chama atenção o apoio à punição mesmo nesse cenário entre 33% do eleitorado de Lula. Contudo, o dado mais expressivo aparece no recorte de classe social: entre os mais ricos, o índice de apoio alcança 77%.

E se a punição fosse a morte ou seu filho(a) estivesse no grupo?

 

Contudo, quando essa mesma pergunta recebe dois novos elementos, o resultado se inverte, oferecendo ao campo progressista uma de suas poucas leituras favoráveis. Ao dar a punição o caráter de pena capital (pena de morte), 51% passam a se declarar contrários, 17% favoráveis e 32% afirmam não possuir opinião formada.

A inversão é particularmente expressiva entre os mais ricos, cuja adesão cai para apenas 1%. Entre pessoas pretas, o apoio ainda alcança 27% — dado que remete ao fenômeno observado no quesito relativo ao roubo de celulares —, enquanto entre pessoas brancas o índice é de 17%.

Outros números relevantes aparecem no recorte religioso: apenas 10% dos evangélicos concordam com a medida, percentual significativamente inferior aos 22% observados entre católicos. Embora os evangélicos tendam a apresentar posições mais rígidas na maioria dos temas relacionados à segurança pública, nesse ponto específico o comportamento se inverte.

Não há, contudo, um diagnóstico conclusivo para explicar tal fenômeno. Uma hipótese possível reside na forte presença desses grupos em atividades evangelizadoras no sistema prisional e em projetos ligados a casas de recuperação (para dependentes químicos), o que pode contribuir para uma percepção menos favorável a respostas de caráter ‘capital’ ao problema criminal. É uma dentre algumas possibilidades.

E quando se introduz outro novo elemento: a possibilidade de que um dos punidos, culpado ou inocente, fosse filho do próprio entrevistado? Observa-se um leve aumento entre os contrários à punição, que passam a representar 55%, sem que haja, contudo, uma alteração estrutural significativa no quadro geral das respostas.

Entre os dados que se destacam, o apoio residual à punição aparece entre jovens de 16 a 29 anos (22%), pessoas pretas (25%), espíritas (26%) e moradores da região Sul (28%). Em sentido oposto, os índices são menores entre indivíduos com mais de 70 anos (8%), pessoas pardas (13%), nordestinos (10%) e evangélicos (11%).

Bandido bom é…

 

Chegamos, então, ao clássico “bandido bom é…”. Quando trazida essa pergunta, percebe-se um relativo equilíbrio — algo que, inclusive, aparece em outras pesquisas semelhantes — com os seguintes resultados: 38% defendendo a prisão, 31% a morte, 28% a ressocialização e 2% afirmando não saber responder.

Contudo, é necessário cautela na interpretação desses dados, por diferentes razões. A percepção de que haveria uma margem amplamente favorável a formas mais ‘civilizadas’ de enfrentamento da criminalidade é provavelmente enganosa. Os 38% que apontam a prisão como saída preferencial, ao darem essa resposta, não necessariamente rejeitam a ideia da morte do criminoso como alternativa possível; trata-se de uma distinção que exigiria uma pergunta mais direta para ser adequadamente aferida.

Nesse sentido, vale recordar levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que, em 2015, ao questionar diretamente se os entrevistados concordavam ou não com a afirmação “bandido bom é bandido morto”, encontrou 50% de concordância, frente a 45% de discordância. Embora exista um intervalo temporal relevante entre as pesquisas, é difícil sustentar — à luz da nossa quadra histórica -, que o cenário atual apresente uma conjuntura mais moderada do que era há 10 anos.

Além disso, é possível supor — ainda que apenas como hipótese — que tenha havido certo receio, por parte da equipe responsável pela pesquisa, em formular perguntas que pudessem conduzir a respostas mais extremadas. Por exemplo, se os entrevistados prefeririam que um criminoso fosse morto (mesmo desarmado) ou ficasse impune após a prática de um crime grave —, é plausível imaginar que os resultados tenderiam a ser significativamente favoráveis a respostas violentas se comparadas as que encontramos na pesquisa.

Retornando aos números, alguns recortes se destacam entre aqueles que aderem à ideia do “bandido morto”. O maior índice aparece entre os mais ricos (63%) — dado que contrastaria com a resposta anteriormente apresentada no quesito relativo à punição de inocentes com a morte, possivelmente explicado pela percepção que neste caso a punição recairia sobre um criminoso claramente culpado (e que não teria chances de ser seu filho(a)). Destacam-se ainda a geração Z (16 a 29 anos), com 38% — reafirmando-se como o grupo etário mais rigoroso —, pessoas pretas (36%), católicos (38%), indivíduos identificados com a centro-direita (52%) e eleitores de Bolsonaro (48%). Em sentido oposto, a adesão é significativamente menor entre pessoas com mais de 70 anos (17%), entre os mais pobres e entre pessoas pardas (30%), entre indivíduos que não acreditam em Deus (20%), entre aqueles que se identificam com a esquerda (8%) e entre eleitores de Lula (13%).

 

*Policial civil e historiador





ICL Notícias

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