Aliados de Lula querem manter mobilização digital, mas com regulamentação das redes

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Por Arthur Guimarães e Juliana Arreguy

(Folhapress) – O engajamento digital da esquerda veio para ficar. Ao menos é o que garantem lideranças, influenciadores e o próprio presidente Lula (PT) diante da mobilização nas redes sociais na campanha de segundo turno das eleições.

O deputado federal André Janones (Rede-MG), com comandos de “urgente” e “explode”, reuniu mais de 10 milhões de pessoas no “Exército do Lula”, no WhatsApp, e liderou a tropa digital que foi apontada por Lula como corresponsável pela virada sobre Flávio Bolsonaro (PL).

O petista derrotou o adversário por 51,8% dos votos, ante 48,2%, sendo o primeiro presidente do país a vencer uma eleição após ter terminado em segundo lugar no primeiro turno — ele havia ficado atrás do bolsonarista na primeira etapa, com 45,2% dos votos ante 47% do rival.

A atuação digital virou modelo de sucesso mundo afora, rendendo a Janones convites para auxiliar em campanhas de esquerda em outros países, como na tentativa de reeleição do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. O deputado disse à Folha que o “Exército” será mantido para servir como ferramenta de pressão popular a favor de Lula no próximo mandato.

“O grande objetivo desse ‘Exército’, pós-eleição, é compensar a minoria que o presidente Lula vai ter na Câmara e no Senado, porque a extrema direita está com uma maioria esmagadora”, disse ele. “O ‘Exército do Lula’ tem como missão, a partir de agora, dar governabilidade ao presidente”, acrescentou.

No discurso de vitória, no domingo, o presidente agradeceu a Janones. Destacou a atuação do parlamentar na mobilização digital da campanha, chamou-o de general e disse que “teve um papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa”.

Por insistência de Janones e de outros aliados, Lula aderiu ao uso do smartphone na reta final da campanha, após anos de resistência à tecnologia, e prometeu estabelecer um canal direto de diálogo com a população, sem depender de intermediários.

“Já estou aprendendo a conversar com o meu general e podem ficar certos que, daqui para frente, vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalistas com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço”, disse em seu discurso da vitória no domingo.

Assim como Janones, outros políticos com alto engajamento nas redes sociais ganharam destaque na campanha durante o segundo turno, como os deputados federais eleitos Ana Elisa (PT-MG), Jones Manoel (PSOL-PE) e Guilherme Cortez (PSOL-SP).

Cortez, com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, defendeu que a esquerda precisa manter a estrutura de mobilização digital ativa. Segundo ele, o campo progressista demorou a compreender a importância das redes sociais para a disputa política, mas recuperou terreno nesse segundo turno.

“A direita chegou antes, se desenvolveu nesse terreno, beneficiada por uma série de coisas, inclusive pelo algoritmo das redes sociais”, disse o deputado eleito. “Para ganhar eleição foi preciso que a gente tomasse ofensiva nesse terreno, e conseguimos, mesmo com todas as comprovadas tentativas de boicotar nossa campanha pelos aplicativos.”

A campanha deste ano foi marcada por acusações de interferência de plataformas digitais na eleição. Como mostrou a Folha, em mensagens internas da Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), funcionários reconheceram prejuízo a contas de Lula e benefício às de Flávio. A empresa negou ingerência.

Teste feito pelo jornal também identificou diferenças de tratamento nas respostas da ferramenta de inteligência artificial da big tech a pedidos de criação de imagens de campanha dos dois candidatos. No primeiro turno, a reportagem mostrou que modelos de IA burlavam a Lei Eleitoral ao promoverem rankings entre os presidenciáveis.

Como mostrou a Folha, integrantes do governo e parlamentares pretendem correr para votar até dezembro o projeto de lei da regulamentação concorrencial das big techs. A percepção é a de que há uma janela favorável para aprovação agora, que ficará mais estreita no próximo ano, quando o novo Congresso Nacional tomará posse.

Cortez defende a manutenção da mobilização digital acompanhada da regulamentação das plataformas, sem que uma exclua a outra. Ele afirmou que o modelo de regulação ainda deve ser discutido com outros atores, mas levantou a possibilidade de um que ofereça a opção de “desligar” o algoritmo.

A ideia seria oferecer a possibilidade de feeds de rede social sem recomendação algorítmica. Nesse molde, o que apareceria no feed seria o conteúdo de conhecidos ou perfis seguidos, e não mais o que a plataforma entende que vai prender a atenção do usuário.

Lula, também no discurso da vitória deste domingo, sinalizou que a regulação das redes estará entre as suas prioridades. O presidente disse que precisou “vencer a intromissão vinda de fora”, em referência também ao tratamento desigual da do pela Meta na campanha.

“Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real”, afirmou o petista.

O presidente acrescentou que não é possível que empresas bilionárias não paguem impostos enquanto tentam “direcionar o resultado eleitoral” do Brasil.

Na campanha de 2022, Lula já havia sinalizado interesse em regulamentar as redes sociais. O governo chegou a trabalhar em propostas para enquadrar as plataformas, mas não conseguiu avançar com o tema durante o mandato.





ICL Notícias

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