Ali Larijani, que traduziu Kant para persa

0
24


 

A guerra é um exercício de desumanização. A violência começa sempre por aí, pela desumanização do inimigo que deixa de ser igual a nós e passa a ser um monstro, uma fonte do mal. Nós, o bem, eles, o mal. Os iranianos foram atacados enquanto decorriam negociações e os seus líderes foram covardemente assassinados enquanto se reuniam. Ainda assim as televisões ocidentais apresentam os iranianos como culpados –um país de ditadores sanguinários e sem qualquer humanidade: filhos do mal.

Pode ser. É verdade que talvez não haja regime mais tirânico do que uma teocracia. Mas, desculpem — eles foram os atacados, eles são as vítimas. Os Estados Unidos usaram a mesa de negociações enquanto planeavam a decapitação do regime liquidando os seus dirigentes num ataque surpresa. Eixo do mal? Qual é, afinal, o eixo do mal?

A meio da guerra uma breve notícia quase passa despercebida, devolvendo-nos a humanidade perdida do inimigo. O filho do presidente do Irã, um jovem doutorado em física, publica na rede social Telegram um diário de guerra onde podemos ler o lamento com a desgraça do conflito — a sua preocupação é com a família e com o sofrimento do povo.  As suas palavras não são palavras de exaltação nacional, de feitos de combate, mas de humanidade. São palavras de quem se preocupa com os amigos e com os dirigentes do seu país que caem assassinados. Não fala de obliteração ou de regresso à idade da pedra, ele simplesmente chora a guerra e as suas consequências.

O jornalismo ocidental zomba: está com medo, dizem os repórteres. Sim, está com medo do Ocidente, do Ocidente que mata à distância, do Ocidente que mata sem aviso. Ter medo — a humanidade regressa por instantes ao palco da guerra.

Nunca percebi como os americanos se regozijam com a morte dos inimigos. Nunca entendi este aspecto da cultura americana que fica satisfeita com a morte dos combatentes inimigos. Ontem ouvi o Fareed Zacharias, personagem bem-pensante do estrelato liberal da América, que começou a sua análise da situação confessando o seu alívio com a morte do aiatola Ali Khamenei. Alívio, disse ele. Não, nunca gostei de padres em lugares políticos (nem de militares). E, no entanto, para os criticar, nunca precisei de me declarar aliviado com a morte de ninguém. E afinal aí têm o brilhante resultado desse alívio e dessa suja táctica de assassinatos- alvo: saem os padres, entra a guarda revolucionária. A estratégia de decapitação talvez tenha mudado o regime — mas para pior.

Por último. Acabei de ouvir uma pequena história sobre um dos líderes iranianos liquidados, Ali Larijani, que, quando era presidente do parlamento iraniano, fez uma visita a Nova York e se encontrou com Kissinger com quem falou durante muito mais tempo do que estava previsto. Nessa conversa o americano quis saber quando é que a revolução iraniana acabaria e falou de Immanuel Kant e do ensaio do filósofo alemão sobre a paz perpétua. Larijani respondeu que o grande objetivo da revolução islâmica era a independência do seu país e que gostaria de saber quando é que os Estados Unidos os deixariam em paz. Anos mais tarde Kissinger recordaria esta conversa dizendo ter sido uma pena não saber que Larijani tinha traduzido a filosofia de Kant para a língua persa. Monstros? Pensemos melhor.

 





ICL Notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui