Quando a Europa entrou em guerra no verão de 1914, os Estados-Maiores tinham planos extraordinariamente detalhados para a mobilização de milhões de homens, para os horários dos comboios, para a concentração dos exércitos e para as primeiras grandes ofensivas. Todos esperavam uma guerra rápida. A Alemanha enfrentava o problema estratégico de uma guerra em duas frentes, contra a França, a oeste, e a Rússia, a leste. O plano consistia em derrotar rapidamente a França para depois deslocar o grosso das forças para leste. Os alemães partiam confiantes. Depois de um início sangrento e agressivo, a guerra acabaria rapidamente com os diplomatas a tomarem o lugar dos soldados. Afinal, entre a guerra e a política a diferença era apenas de meios.
A ilusão não foi exclusivamente alemã. Os preparativos financeiros dos diversos beligerantes europeus foram, em larga medida, construídos para um conflito de alguns meses ou, no máximo, aproximadamente um ano. A própria organização econômica revelava que os Estados não estavam preparados para uma guerra industrial de desgaste. Na verdade, todos partilhavam a ilusão da guerra breve. Estaremos de volta pelo Natal.
Cem anos depois, a ilusão da guerra breve regressou em força no Golfo Pérsico. Também aqui o plano era de um ataque fulminante, um golpe decisivo que decapitaria o regime, levaria à sublevação do povo e à mudança de regime. A surpresa e a covardia do ataque (dois dias antes, americanos e iranianos tinham concluído em Genebra mais uma ronda de negociações) levariam o inimigo imediatamente ao tapete, não lhe dando nenhuma hipótese de recuperação. A guerra estaria resolvida em dias.
Sete meses depois o conflito arrasta-se sem solução militar, os custos económicos disparam, as munições escasseiam e as operações militares de parte a parte parecem cada vez mais fúteis. Enquanto isso, o estreito de Ormuz permanece no centro do confronto e os efeitos da guerra propagam-se às rotas marítimas, aos mercados energéticos e aos restantes conflitos do Médio Oriente. A imprensa americana começa a falar de outra “forever war”.
As grandes potências imaginam a guerra segundo o seu próprio relógio. Mas o adversário possui outro. Para uma potência tecnologicamente superior, o tempo é sempre um fardo: cada mês significa mais despesa, mais baixas, maior desgaste do material, maior pressão política interna e maiores perturbações económicas. Para a potência mais fraca, principalmente se atacada, como foi, o tempo transforma-se numa arma. Ela não precisa necessariamente de derrotar militarmente o adversário. Pode procurar simplesmente sobreviver. Pode dispersar forças, conservar parte dos seus meios, atacar irregularmente, utilizar aliados regionais, ameaçar rotas comerciais, elevar os custos econômicos e esperar que a vontade política do adversário se desgaste antes da sua própria capacidade de resistência. Esta é a assimetria fundamental, que nem sempre funciona a favor do mais forte. Quem possui o exército mais poderoso nem sempre consegue impor o desfecho político de uma guerra.
O ponto crítico sempre foi a ilusão de que quem escolhe o primeiro dia de uma guerra também escolhe o último. Não, não é assim. Mas há uma segunda ilusão, tão perigosa como a primeira. É a tentação do último esforço. Se os primeiros ataques não foram suficientes, talvez sejam necessários mais alguns. Se o adversário não cedeu, talvez seja porque ainda não sofreu o bastante. Se a pressão não produziu o resultado esperado, aumenta-se a pressão. A escalada militar é então apresentada não como o princípio de uma nova fase da guerra, mas como o esforço adicional que finalmente permitirá terminá-la. É aqui que se fecha a armadilha. Passada a primeira ilusão da guerra breve, estramos na segunda: a da ilusão da escalada militar como último esforço para acabar com a guerra. É aqui que estamos.




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