As pessoas dizem que é milagre
andar sobre a água;
mas para mim o verdadeiro milagre
está em andar
pacificamente sobre a terra.
A terra é um milagre.
Cada passo é um milagre.
Thich Nhat Hanh
Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome.
Adriana Calcanhotto
[Jesus] caminhando junto ao mar da Galileia,
viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro,
e André, que lançavam as redes ao mar,
porque eram pescadores
(Mateus 4.18).
Por uma espiritualidade que caminha e na caminhada vê o outro no seu ambiente natural.
Pedro e André eram pescadores e por isso lançavam as redes ao mar. Jesus os viu à beira mar porque não era profeta de gabinete.
Maestria em caminhar leve. Viver leve para seguir adiante.
Jesus estava sempre a caminho. Sempre de fora. Indo.
Andando na beira.
Não tinha a responsabilidade de abrir ou fechar a porta do templo, por isso não precisava carregar chaveiros.
A religião costuma ter endereço fixo. Jesus era um caminhante em êxodo permanente.
Ele não era guardião de livros, por isso não carregava o peso da lei.
Também não era um cacheiro viajante, por isso não carregava tralhas para vender nem vivia com medo de ser assaltado na estrada.
Seguia leve aprendendo com o que via.
Revigorados com o ar puro, somos capazes de fazer as melhores escolhas.
Caminhar como estilo de vida é a coragem para romper e seguir adiante.
Quem não consegue soltar as amarras fica preso com as chaves nas mãos, ocupado vigiando para que as letras não pulem as pautas, sobrecarregado com o peso do vil metal.
Quem diz seguir a Jesus deve lembrar que ele era um andarilho. Seu ensino geralmente ocorria em cenários do cotidiano, pessoas e paisagens estavam diante dos seus olhos.
Jesus era profeta ao falar e poeta ao olhar.
Sobre o olhar que consegue se maravilhar com o comum, o ateu Eduardo Galeano escreveu um conto curto em que o gesto poético é notado. Atento não ao Deus anuviado no céu, mas ao guri das dunas (Galeano, 2016, p. 15).
O menino ficou mudo de beleza. Era a primeira vez que via o mar.
O pai o levou para ver o mar. Venceram distâncias, depois subiram e desceram dunas altas.
Na areia da praia, defronte para o mar, perdeu a voz. Quando conseguiu finalmente falar, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!
Espantado com a grandiosidade do oceano. Encantado com a memória afetiva da longa caminhada com o pai.
Mesmo quando adulto, o menino do conto devia lembrar das coisas miúdas e simples que aconteceram no caminho, ao lado do pai. Antes do deslumbramento do olhar, o toque de uma mão enrugada com unhas por cortar.
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Galeano, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 15



