Por Cleber Lourenço
Brasília finalmente encontrou uma solução para a escala 6×1. Infelizmente, não é para você. Enquanto milhões de brasileiros discutem se é razoável trabalhar seis dias para descansar um, deputados e senadores entraram naquela época em que o calendário legislativo adquire uma flexibilidade invejável. Com a campanha nas ruas, o Congresso passa a funcionar em semanas de “esforço concentrado”, expressão criada por alguém que certamente compreendia a importância de escolher muito bem as palavras.
Campanha faz parte da democracia e parlamentares não deixam simplesmente de trabalhar fora do plenário. Mas há uma ironia difícil de desperdiçar: justamente quando o país discute reduzir a jornada de milhões de trabalhadores, seus representantes reorganizam a própria rotina para conciliar mandato, campanha e vida política. A compreensão de que o tempo é um recurso limitado existe em Brasília. Só falta universalizar o conceito.
A proposta para acabar com a escala 6×1 é um exemplo maravilhoso de como o Congresso consegue fazer um assunto andar sem cometer a imprudência de levá-lo a algum lugar. Nesta semana, conforme apurou o ICL Notícias, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, assinou o despacho das propostas sobre o tema. A Secretaria-Geral da Mesa prepara os encaminhamentos, mas ainda não há definição clara sobre quando a discussão efetivamente avançará.
O trabalhador pode ficar tranquilo: o processo está andando. Só não sabemos exatamente para onde nem quando chega. É uma especialidade brasiliense. O assunto se movimenta o suficiente para permitir uma nota oficial dizendo que se movimentou, mas não o bastante para causar o transtorno de uma decisão.
Enquanto o Congresso organiza sua agenda, a campanha trouxe outra paixão antiga da política brasileira: segurança pública. É o assunto perfeito para eleição. Tem medo, indignação, polícia, facção, arma, cadeia e, sobretudo, frases que cabem maravilhosamente num vídeo de 30 segundos. Levantamento da Quaest apontou segurança como o assunto mais discutido em sete dos primeiros debates para governos estaduais.
Flávio Bolsonaro percebeu a oportunidade e colocou o tema no centro de sua campanha, exibindo Guilherme Derrite como uma de suas principais credenciais na área. Derrite fala em endurecimento penal, redução da maioridade e mudanças profundas na segurança. Tudo perfeitamente coerente até aparecer um número: neste ano, ele faltou a 22 das 26 reuniões da Comissão de Segurança Pública da Câmara. Uma ausência de 84%.
É uma relação sofisticada com o tema. Segurança pública parece ser uma dessas paixões que funcionam melhor à distância.
Presença em comissão evidentemente não mede sozinha o trabalho de um parlamentar. Deputados têm plenário, articulações, viagens e outras atividades do mandato. Mas seria uma delicadeza excessiva fingir que 84% de ausência não significa nada quando o parlamentar é apresentado ao eleitor justamente como especialista naquele assunto. Se educação fosse a grande bandeira de alguém que quase nunca aparecesse na Comissão de Educação, provavelmente alguém faria uma pergunta. Com segurança, aparentemente, basta falar mais alto.
É aí que 6×1 e segurança começam a contar a mesma história. A política brasileira desenvolveu uma extraordinária paixão por problemas na mesma proporção em que eles são eleitoralmente úteis. Jornada de trabalho mobiliza gente cansada. Segurança mobiliza gente com medo. Ambas produzem discursos, vídeos, slogans e promessas. A parte desagradável vem depois: votar, negociar, comparecer, escolher, explicar como fazer e apresentar resultado. Essa etapa infelizmente rende menos reels.
Na segurança, a contradição é especialmente grave porque o problema é real. Facções controlam territórios, disputam mercados ilegais e infiltram atividades econômicas. Nesta eleição, a própria Justiça Eleitoral recorreu às Forças Armadas diante de riscos à votação em localidades de nove estados. Há um país bastante complicado acontecendo fora do palanque.
Mas campanha gosta de solução simples para problema complexo. Aumentar pena, diminuir idade, construir presídio, botar Exército, mencionar Bukele. Discutir inteligência policial, lavagem de dinheiro, controle territorial, integração entre forças, sistema prisional, fronteiras e capacidade de investigação dá um trabalho infernal. E nós já estabelecemos que trabalhar é um assunto delicado.
A 6×1 sofre de fenômeno parecido. Todo mundo tem opinião. Pouca gente com poder para decidir demonstra pressa suficiente para transformar opinião em voto. Por isso “esforço concentrado” é uma expressão tão maravilhosa para este momento: sem querer, descreve mais do que o calendário do Congresso. O esforço está cada vez mais concentrado onde existe voto.
Não há obrigação de aprovar o fim da 6×1 simplesmente porque a proposta é popular, nem de um deputado comparecer a absolutamente todas as reuniões de uma comissão. A questão é coerência. Se acabar com a 6×1 é prioridade, quando o Congresso pretende decidir? Se segurança é a emergência nacional descrita nos palanques, onde está a mesma urgência quando as câmeras vão embora?
E se deputados e senadores conseguem reorganizar a agenda porque campanha, deslocamentos e vida política exigem tempo, talvez não seja revolucionário compreender por que um trabalhador também gostaria de ter mais do que um domingo para lembrar que existe.
O eleitor também merece mais do que candidatos prometendo acabar com o crime antes da sobremesa. Precisa saber o que será feito, quanto custa, se funciona e quais resultados autorizam aquela pessoa a pedir confiança.
Talvez essa seja a melhor fotografia da primeira semana de campanha: o trabalhador quer tempo. O eleitor quer segurança. Brasília quer voto. E, dos três, só Brasília já conseguiu reorganizar a agenda.
Com esforço concentrado.



