A barbie fascista Alice Weidel e a normalização do fascismo na Alemanha

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Seus cabelos loiros estão sempre bem alinhados em um coque, que costuma ser combinado com brincos e colares de pérola. As camisas são sempre impecáveis e combinadas, muitas vezes, com calças jeans e sapatilhas. Seu estilo despojado já foi comparado até com o de Lady Di. Ela poderia ser uma mulher moderna do mercado financeiro. Só que ela é Alice Weidel, uma fascista perigosa e colíder da AfD, o partido de extrema direita xenófobo e racista que cresce em toda Alemanha.

A biografia pessoal de Weidel dá a ela um tom ainda mais “descolado” (com muitas aspas). Ela é lésbica, casada com uma mulher do Sri Lanka e mãe adotiva de dois filhos. Mas Alice é uma mulher perigosa, que fala abertamente em fechar as fronteiras do país e em “reimigracao”, uma palavra horrível para, basicamente, mandar imigrantes de volta para seus países de origem. Qualquer semelhança com o nazismo não é coincidência.

Sucesso esmagador na Saxônia-Anhalt

Na semana passada, o mundo todo se chocou com um fato que é mesmo assustador. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um partido de extrema direita ganhou a eleição em um estado da Alemanha, a Saxônia-Anhalt, leste do país. E os números são assustadores: o partido conseguiu 43,8% dos votos.

O sistema de governo na Alemanha é o parlamentarismo de coalizão, o que significa que é preciso que o partido vencedor tenha maioria no parlamento para governar. Isso é alcançado, quase todas as vezes, por alianças entre partidos. O atual governo federal, por exemplo, é formado por uma aliança entre o SPD e o CDU. Por muito pouco, o sucesso da AfD na Saxônia quase faz com que eles possam governar sozinhos. No momento, negociações ainda estão em curso, mas tudo indica que o partido, com ajuda irá, sim, governar o estado.

Para nós que moramos na Alemanha, esse resultado não foi uma surpresa, mas apenas uma confirmação de algo que já sabíamos: a AfD cresce em todo o país, principalmente no leste que era comunista, mas não só nele, e cada vez é visto mais como uma opção “normal” de voto, e não como uma “declaração fascista”, o que é assustador.

O primeiro-ministro eleito é Ulrich Siegmund. Mas Alice é a cara do partido e candidata às eleições federais. Seu visual clean serve para suavizar e normalizar discursos nazistas e racistas que, de acordo com os estereótipos, seriam proferidos por carecas tatuados ou homens raivosos com bigodinho de Hitler. O fato dela ser lésbica, casada com uma imigrante e mãe adotiva reforça essa normalização de ideias e planos nazis como, por exemplo, separar nas salas de aula “alemães de verdade” de imigrantes. Sim, qualquer semelhança com a segregação de judeus no início do nazismo não é coincidência.

Lésbica contra queers

Como uma mulher casada com uma mulher do Sri Lanka e mãe adotiva pode ser contra imigrantes e a diversidade? Essa pergunta roda a internet e causa justo espanto e deboche. Com motivos.

Alice Weidel é lésbica, mas jura que não é queer (termo usado para abranger quem não se encaixa nos padroes heteronormativos) . Ela se define como uma “lésbica biológica!” e, apesar de rejeitar pautas de apoio à comunidade queer, usa o fato de ser lésbica para pregar o racismo. “”Se vocês apoiam fronteiras abertas, levem a próxima grande família afegã para a vossa casa e vejam o quão compatíveis eles são com o vosso estilo de vida queer”, já disse.

Quando o casamento gay foi aprovado na Alemanha, em 2017, ela disse: “dizemos adeus à família alemã”. Ao mesmo tempo, ela usa o fato de ser lésbica para fingir que a AfD não é um partido homofóbico. “O fato de eu ter sido eleita candidata para o partido mostra o quão tolerante ele é.”

Alice mora na Suíça (cadê o amor pela Alemanha?). E, apesar dela mesma ser mãe adotiva de duas crianças, seu partido é contra a adoção de crianças por homossexuais e defende “a família tradicional”.  Como pode? É bizarro mesmo. E também cínico e a cara do novo fascismo alemão.

Weidel costuma dizer que não é contra imigrantes, apenas contra aqueles que não se adequam aos valores alemães e suas leis. O que ela quer dizer com isso é que imigrantes brancos, “limpinhos” e que servem ao mercado de trabalho da Alemanha (carente, por exemplo, de enfermeiros e profissionais de TI) são bem vindos. Os outros que não se atrevam, principalmente se eles forem mulcumanos.

O mesmo pensamento maluco parece ser a lógica de Weidel ao afirmar que “é lésbica, mas nao é queer”. Essa é uma maneira esquisita de dizer que ela “não é como as outras”. Ou seja, ela é casada com uma mulher, mas é “limpinha”, de família, loira, branca e não uma “degenerada” (sic).

Com ajuda de Alice Weidel, a AfD cresce em níveis alarmantes. Nas pesquisas para as eleições federais de 2029, eles estão com cerca de 28% das intenções de voto, oito pontos na frente do segundo colocado, o conservador CDU.

Mesmo assim, é pouco provável que o partido governe a Alemanha (pelo menos por enquanto). Isso porque os partidos tradicionais respeitam o chamado “brand mauer” ( um muro de contenção que funciona como um compromisso de não fazer alianças com o partido de extrema direita.  Mas, não há como negar, com esse sucesso estrondoso e com a ajuda da Barbie fascista Weidel, esse muro está cada vez mais fraco.

Enquanto isso, em choque, alemães voltam a ocupar as ruas contra o fascismo. Como canta o músico antifascista alemāo Danger Dan na música Keine Angst (Não tenha medo) lançada mês passado: “Existem duas opções e as duas são estressantes. Ou começamos a resistir agora ou esperamos eles terem mais lugares nas ruas e nos parlamentos antes de começarmos a lutar contra eles”. A impressão que dá é que a sociedade alemã já está esperando ha tempo demais.





ICL Notícias

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