Por Cleber Lourenço
Um levantamento feito pelo ICL Notícias mostra que o filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, precisaria atingir arrecadações muito acima do padrão histórico do cinema brasileiro para gerar retorno financeiro aos investidores citados por Flávio Bolsonaro.
As projeções foram feitas com base nas mensagens reveladas pelo Intercept Brasil, segundo as quais o senador buscava levantar R$ 136 milhões junto ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o projeto.
Durante entrevista à GloboNews nesta quarta-feira, Flávio afirmou que Vorcaro colocou dinheiro no filme esperando retorno financeiro.
“Eu imagino [que Vorcaro tenha investido no filme] por expectativa de retorno desse investimento”, declarou.
Na mesma entrevista, o senador também afirmou:
“Não fez doação, não está me fazendo favor, não tenho nada a oferecer (…) ele bota um dinheiro com a expectativa de receber um percentual em cima do lucro desse filme”.
Flávio também declarou que havia “mais de 10 investidores” envolvidos no projeto além de Vorcaro, mas não informou quem seriam, quanto cada um teria aportado nem qual seria o valor total efetivamente captado.
Uma nova reportagem publicada pelo Intercept ampliou os detalhes sobre o modelo financeiro da produção. Segundo documentos obtidos pelo veículo, o orçamento total projetado para “Dark Horse” variava entre R$ 127 milhões e R$ 143 milhões — valor compatível com os R$ 136 milhões negociados por Flávio com Vorcaro.
Os documentos mostram ainda que o plano de negócios previa a venda de 40 cotas de aproximadamente R$ 2,75 milhões para investidores privados, totalizando cerca de R$ 110 milhões.
Também eram oferecidos pacotes VIP. Quem investisse cerca de R$ 5,5 milhões teria direito a participar do conselho de produção do filme. Já o pacote mais caro, de aproximadamente R$ 6 milhões, prometia uma “oportunidade de imigração” para os Estados Unidos.
O plano apresentado aos investidores prometia devolução integral do capital investido acrescida de lucro de 20%. Após essa etapa, o lucro líquido restante obtido com bilheteria e plataformas de streaming seria dividido igualmente entre investidores e produtores.
O tamanho do retorno necessário
No mercado cinematográfico, a arrecadação bruta das bilheterias não retorna integralmente aos produtores.
Em geral, cerca de metade do valor dos ingressos fica com as salas de cinema. Sobre a parcela restante ainda incidem custos de distribuição, publicidade e promoção da obra. Distribuidoras costumam ficar com algo entre 25% e 35% da receita restante.
Na prática, apenas uma fração da bilheteria chega efetivamente aos produtores do filme.
Dados recentes do setor ajudam a dimensionar o cenário. Em análise sobre o desempenho de “O Agente Secreto”, especialistas apontaram que uma bilheteria próxima de R$ 27 milhões gerou retorno líquido ao produtor em torno de R$ 5 milhões após descontos operacionais.
Isso significa que, para devolver integralmente os R$ 61 milhões atribuídos a Vorcaro e ainda garantir o lucro de 20% prometido aos investidores, “Dark Horse” precisaria gerar ao menos R$ 73,2 milhões líquidos ao banqueiro.
Considerando estimativas usuais do mercado audiovisual, em que produtores recebem entre 20% e 35% da arrecadação final após todos os descontos, o filme precisaria atingir uma bilheteria estimada entre R$ 209 milhões e R$ 366 milhões apenas para entregar o retorno prometido sobre o valor atribuído apenas a Vorcaro.
Os cálculos levam em consideração apenas os R$ 136 milhões que Flávio Bolsonaro buscava captar junto a Vorcaro nas mensagens reveladas pelo Intercept.
Como o senador afirmou em entrevista que havia mais investidores além do banqueiro — sem informar os valores envolvidos — o montante total captado pelo projeto pode ter sido ainda maior.
Caso os demais investidores também tenham recebido promessa semelhante de devolução integral do capital com lucro de 20%, a necessidade de arrecadação da produção aumentaria proporcionalmente.
Comparação com sucessos nacionais
Os números ficam ainda mais expressivos quando comparados às maiores bilheterias do cinema brasileiro.
O cálculo usado pelo ICL Notícias compara a relação entre orçamento e arrecadação dos maiores sucessos nacionais. Em vez de olhar apenas para o valor bruto arrecadado, o levantamento mede quantas vezes cada filme multiplicou o próprio orçamento nas bilheterias.
“Minha Mãe é uma Peça 3”, por exemplo, custou cerca de R$ 8 milhões e arrecadou aproximadamente R$ 181,7 milhões. Isso significa que o filme faturou cerca de 22,7 vezes o valor investido na produção.
A mesma lógica foi aplicada aos valores atribuídos ao projeto “Dark Horse”. Assim, se o filme sobre Bolsonaro tivesse um desempenho proporcional semelhante ao das maiores bilheterias nacionais, precisaria atingir os seguintes valores:

Na prática, isso significa que, para repetir proporcionalmente o sucesso financeiro das maiores bilheterias brasileiras, “Dark Horse” precisaria atingir arrecadações inéditas no cinema nacional.
Mesmo no cenário mais conservador da tabela, baseado em “Nada a Perder”, o filme teria de ultrapassar a marca de R$ 457 milhões de bilheteria apenas para reproduzir proporcionalmente o retorno sobre os R$ 61 milhões atribuídos a Vorcaro.
Já usando como referência filmes como “Minha Mãe é uma Peça 3”, o faturamento necessário ultrapassaria R$ 1 bilhão.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da arrecadação que “Dark Horse” precisaria atingir para gerar um retorno proporcional semelhante ao projetado no plano de negócios revelado pelo Intercept.
As informações sobre o modelo financeiro do projeto passaram a alimentar questionamentos políticos e jurídicos. Representações encaminhadas à Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal, Coaf, Receita Federal e Justiça Eleitoral questionam justamente se uma produção nacional teria capacidade real de gerar retorno compatível com os montantes discutidos.
As ações também levantam suspeitas sobre eventual lavagem de dinheiro, financiamento político irregular e possível uso eleitoral indireto da produção audiovisual.



