O mundo vai parar neste domingo para a grande final da maior Copa de todos os tempos. Nas ruas, nos bares e nas redes, contudo, um mal-estar geral e irrestrito tem dividido os brasileiros. Para quem torcer? Não torcer para ninguém? De um lado, a velha Espanha; do outro, nossos hermanos argentinos. O dilema não se resume à rivalidade futebolística, mas esbarra em feridas históricas ainda abertas. Em geral, as opiniões divididas relacionam-se ao imperialismo espanhol e seu racismo secular, ou ao exclusivismo branco da Argentina, que muitas vezes ecoa um racismo estrutural semelhante.
O óbvio ululante é que não dá para generalizar toda uma população, mas a constatação mais evidente é que tanto a Argentina quanto a Espanha, sua mãe fundadora, foram construídas como nações a partir de uma espécie de exclusivismo branco e supremacista. É uma herança que, sem exageros, daria inveja aos nazistas mais empedernidos. A Espanha ergueu seu império sobre a exploração do “Novo Mundo”, enquanto a Argentina forjou sua identidade nacional tentando apagar suas raízes indígenas e afrodescendentes, embranquecendo-se a ferro e fogo, literalmente, em massacres como o de Napalpí.
Não nos iludamos: toda a modernidade capitalista é uma modernidade de racialização, exploração e hierarquização que atinge e massacra indígenas e africanos desde, no mínimo, 1492. Foi naquele fatídico 12 de outubro que os navios de Cristóvão Colombo chegaram às águas do Caribe, inaugurando uma era de genocídio e espoliação. Lembremos também do nosso Brasil, cujas estruturas sociais até hoje carregam o peso da escravidão de quase cinco milhões de africanos trazidos à força, além do massacre constante do modo de vida indígena. O racismo não é uma anomalia do sistema, é o seu pilar de sustentação.
Em todo caso, o confronto de domingo é entre a Argentina do inacreditável Lionel Messi, o dono do jogo, e a Espanha do já consagrado, mas ainda jovem promessa, Lamine Yamal. Uma foto, hoje viral, sintetiza o confronto com precisão poética: circula nas redes uma imagem de 2007, de um evento beneficente do Barcelona, em que um jovem Messi de 20 anos segura no colo, durante um banho, um bebê de apenas cinco meses. Aquele bebê era Lamine Yamal. Hoje, aos 19 anos, o pequeno Yamal superará o mestre? O destino tem dessas ironias, digamos, fotográficas.
Apesar da disputa em campo, Argentina e Espanha guardam semelhanças sinistras em suas histórias fora das quatro linhas: ditaduras sangrentas, guerras sujas, massacres de minorias e a mesma língua espanhola. Afinal, foi a Espanha quem invadiu e dominou por séculos as terras do Rio da Prata. Seria então uma disputa da colônia contra sua ex-metrópole? Calma lá. Elas têm muito mais motivos para dar as mãos num empate de violência histórica do que qualquer outra coisa. A “Guerra Suja” argentina de 1976 e a longa ditadura de Francisco Franco na Espanha são ecos do mesmo autoritarismo que não tolera a diferença.
Em todo caso, esta é uma das minhas últimas crônicas sobre essa Copa. Fiquei vidrado no torneio e procurei escrever sobre os fatores históricos que atravessam a competição e suas disputas geopolíticas e sociais. O futebol nunca é apenas futebol; ele é o “veneno e o remédio” de nossas maiores contradições. E essa final é apenas mais uma das finais de um mundo violento, que cria fins de mundo e extermínios o tempo todo. Por que calamos?
Enfim, se me perguntarem para qual seleção ou país vou torcer no domingo, eu digo: para aquela que vencer. Que vencer o racismo que as criou. Vale dizer: nenhuma. Mas, se o calado capitão Messi jogar muito, meus vizinhos vão ouvir o grito de um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco: “Chupa essa manga, monarquia tosca da Espanha!”. Que vença o futebol, apesar da História.




