O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou nesta quinta-feira (9) a importância de ampliar a autonomia da instituição e declarou que o BC “não está disponível para negociar o seu mandato”. De acordo com ele, a preservação da institucionalidade passa pelo reconhecimento de falhas e pela adoção de medidas firmes, inclusive com decisões difíceis quando necessário.
“Eu já disse algumas vezes que a palavra ‘autonomia’ precisa de um rebrand, que parece uma ideia de que a gente está virando as costas para a democracia ou qualquer coisa desse tipo. É muito importante a gente completar esse processo de autonomia do Banco Central, porque a autonomia não vem de um dispositivo legal. A autonomia significa algo que é muito caro ao Banco Central, que não é estar disponível para negociar o seu mandato”, disse o presidente do BC.
Na quarta (8), Galípolo, já havia feito um apelo direto aos senadores para a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia a autonomia da autoridade monetária. Durante sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, ele afirmou que a medida é essencial para alinhar o Brasil às práticas internacionais e superar limitações estruturais, especialmente no que diz respeito à dependência orçamentária do Tesouro Nacional.
Segundo Galípolo, o pleito evoluiu ao longo do tempo. “Desde a minha sabatina, fui mudando o pedido. Pedi apoio no início, pedi ajuda, peço socorro. Tem um projeto que está aqui dentro da Casa há bastante tempo, o projeto da PEC do BC, que nos faz equiparar ao que é o arcabouço legal e institucional dos BCs do resto do mundo”, clamou.
O presidente do BC voltou a chamar atenção para a redução do quadro de servidores, atribuída principalmente a aposentadorias e à migração para o setor privado. Ele apontou que a escassez de pessoal compromete a capacidade de supervisão do sistema financeiro.
De acordo com Galípolo, há casos em que um único servidor é responsável por acompanhar até 30 instituições financeiras — cenário que contrasta com o de bancos centrais europeus, onde a proporção é inversa.
Além disso, ele ressaltou que atividades críticas, como o monitoramento de alertas de movimentações atípicas, muitas vezes dependem do comprometimento individual de servidores, inclusive fora do horário de trabalho e sem remuneração adicional.
Crime organizado e sofisticação tecnológica
No contexto da CPI, Galípolo destacou a crescente atuação do crime organizado no sistema financeiro, especialmente por meio de ataques cibernéticos e técnicas de engenharia social. Segundo ele, esses grupos têm acesso a recursos e tecnologia para explorar vulnerabilidades.
“O crime organizado encontra dinheiro para adquirir tecnologia e investir para encontrar maneiras novas de tentar burlar”, disse.
O presidente do BC também mencionou que outras autoridades monetárias, especialmente na Europa, já investem em sistemas baseados em inteligência artificial (IA) para ampliar a eficiência da supervisão. O Brasil, afirmou, tem capacidade técnica para avançar na mesma direção, mas carece de recursos.
Escala do sistema e dificuldade de detecção
Galípolo contextualizou os desafios ao destacar o tamanho do sistema financeiro brasileiro, que soma cerca de R$ 15 trilhões em ativos. Nesse universo, fraudes bilionárias — como casos recentes envolvendo instituições financeiras como o Banco Master — tornam-se difíceis de detectar rapidamente.
“O sistema financeiro tem R$ 15 trilhões em ativos [no Brasil]. Falamos de uma fraude R$ 12 bilhões [do caso Banco Master e BRB]. No meio de R$ 15 trilhões não é simples de identificar isso”, frisou.
A complexidade, segundo ele, reforça a necessidade de modernização das ferramentas de monitoramento e fiscalização.
Avanços na PEC e debate regulatório
Sobre a tramitação da PEC, o presidente do BC afirmou que um dos principais pontos de resistência do governo — a manutenção do regime de direito público — foi superado na versão mais recente do relatório.
Ele defendeu que o fortalecimento institucional do Banco Central é estratégico para um país com grande número de instituições financeiras e fundos, exigindo estruturas de supervisão compatíveis com essa realidade.
Galípolo também destacou a necessidade de evoluir o modelo regulatório, com discussões sobre a possibilidade de regular atividades, e não apenas entidades jurídicas. Segundo ele, empresas que desempenham funções semelhantes deveriam estar sujeitas às mesmas regras, independentemente de sua estrutura formal.
Ao concluir, Galípolo recorreu a uma analogia para ilustrar o papel do Banco Central. Segundo ele, a instituição não tem como prever ou evitar crises — “furacões” —, mas pode construir estruturas sólidas para resistir a elas. Para isso, reforçou, é indispensável ampliar os recursos e a autonomia do órgão.
Boletim Focus
O presidente também destacou, neta quinta, o Boletim Focus e parabenizou os agentes de mercado premiados no Top 5 2025, evento promovido pelo Banco Central para reconhecer as instituições que mais acertaram projeções econômicas com base no relatório. Segundo ele, o Focus é uma ferramenta relevante para orientar o mercado, especialmente em períodos de maior instabilidade econômica.
“É importante mostrar que existem divergências, debates, às vezes as pessoas divergem de alguma coisa, e dentro da própria casa, até da própria instituição, tem divergências.”



