Cortes de Trump deixam 1 milhão de mulheres sem acesso a serviços básicos

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A decisão do governo de Donald Trump de suspender a ajuda a organismos internacionais e ONGs deixou pelo menos um milhão de mulheres e meninas desamparadas e sem acesso a serviços básicos de saúde, educação e higiene pelo mundo.

Os dados estão sendo publicados nesta sexta-feira pela ONU. Num informe, a entidade alerta que, com conflitos armados em níveis não vistos há 80 anos, organizações que prestam serviços vitais a mulheres e meninas estão ficando sem recursos.

Desde que assumiu o governo, Trump decidiu suspender qualquer repasse para organismos ou ONGs com agendas supostamente “progressistas” ao lidar com os direitos da mulheres e meninas. Assim, entidades que lidavam com igualdade de gênero, planejamento familiar, educação sexual e distribuição de preservativos foram punidas com cortes severos de dinheiro.

A esperança do governo Trump, assim, é de sufocar uma agenda de direitos de mulheres e substituir a pauta de direitos humanos por valores ultraconservadores.

O problema, porém, é que o resultado tem sido desastroso para milhões de pessoas “Ultrapassando um limite crítico, o novo relatório sobre o impacto dos cortes na ajuda, divulgado hoje pela ONU Mulheres, destaca que pelo menos um milhão de mulheres e meninas perderam o acesso a assistência essencial desde janeiro de 2025”, alerta.

O relatório baseia-se em respostas de 855 organizações lideradas por mulheres e dedicadas a defender os direitos das mulheres em 52 países que enfrentam crises ou conflitos.

“As organizações de mulheres que enfrentam o risco de fechamento estão na linha de frente das crises humanitárias mais graves do mundo. Elas atuam em países como Afeganistão, República Democrática do Congo e Haiti, chegando a áreas onde atores internacionais não vão e permanecendo no local muito depois de o mundo ter voltado sua atenção para outros lugares”, disse Sofia Calltorp, Chefe de Ação Humanitária da ONU Mulheres.

“Cada dólar retirado das organizações de mulheres é um dólar tirado de sobreviventes de violência sexual relacionada a conflitos, mães deslocadas, meninas forçadas a abandonar a escola e comunidades que lutam para sobreviver”, completou.

De acordo com a ONU, o colapso das organizações de mulheres ocorre paralelamente a um aumento das necessidades a níveis históricos. Cerca de 120 milhões de mulheres e meninas em todo o mundo necessitam de assistência humanitária e proteção, e 84% das organizações de mulheres pesquisadas relatam que a demanda por seus serviços aumentou desde janeiro de 2025.

Quase nove em cada dez não conseguem mais atender aos níveis atuais de solicitações. Duas em cada cinco organizações pesquisadas preveem fechar — temporária ou permanentemente — no próximo ano.

Para manter em funcionamento serviços que salvam vidas, os diretores e as equipes das organizações pesquisadas estão arcando com os custos por meio de seu próprio trabalho e recursos pessoais.

Hoje, 65% das equipes de organizações lideradas por mulheres trabalham sem remuneração para manter os serviços ativos. Com as organizações em modo de sobrevivência, 48% — quase metade — relatam um aumento na exaustão profissional (*burnout*) das equipes, e 88% afirmam que a saúde mental das mulheres e meninas atendidas está se deteriorando.

As consequências dos cortes de financiamento já são evidentes. Metade das organizações de mulheres implementou listas de espera ou teve de recusar pedidos de ajuda de mulheres e meninas necessitadas.

92% das organizações relatam níveis crescentes de pobreza entre as mulheres que atendem, enquanto 82% observam um número crescente de meninas abandonando a escola.

A violência sexual relacionada a conflitos dobrou em 2025, em meio ao colapso dos sistemas destinados a proteger as sobreviventes. Em relação à violência de gênero, 86% das organizações relatam um aumento nas comunidades de suas áreas de atuação. Além disso, 62% indicam que espaços seguros deixaram de existir ou foram drasticamente reduzidos.

“Por trás desses números, escondem-se consequências devastadoras: uma mulher que foge da violência em busca de refúgio encontra as portas de um centro fechadas; uma mulher grávida precisa caminhar por horas para chegar a uma clínica; ou uma mãe tem negado o acesso a alimentos para seus filhos”, alerta o informe.

As mulheres e meninas com maior probabilidade de serem deixadas para trás são aquelas com menos alternativas — as que vivem em comunidades remotas, de difícil acesso ou afetadas por conflitos. Quase dois terços (63%) das organizações já reduziram seus serviços nessas áreas.

O relatório alerta que as consequências vão muito além da resposta humanitária. O desmantelamento das organizações de mulheres não ocorre no vácuo, mas sim no contexto de um retrocesso global nos direitos de mulheres e meninas. Uma em cada cinco organizações já suspendeu seu trabalho de promoção da liderança feminina e…

Mais da metade está testemunhando um declínio na participação das mulheres nos sistemas locais de tomada de decisão e liderança comunitária.

“Sem ação imediata, as próprias organizações que mantiveram mulheres e meninas vivas durante as crises mais graves do mundo correm o risco de se tornarem vítimas da guerra”, concluiu Calltorp.





ICL Notícias

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