A geração sentada e o sedentarismo

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Em 1967, quando o livro Sociologia da medicina foi publicado, o olhar arguto do Gilberto Freyre percebeu que a posição comum nas civilizações industriais urbanas era do “homem sentado”. Passavam a maior parte do tempo sentados.

Como premissa básica, Gilberto Freyre sugere a necessária reorientação do ensino da sociologia para o estudante de medicina. Longe da pretensão de produzir um manual didático, aborda em profundidade a realidade brasileira.

Daí, supõe, as ciências sociais e médicas devem ter como objeto de estudo a pessoa concreta, social e existencialmente situada, e não a pessoa abstrata ou reduzida aos aspectos biológicos.

A seguir, adapto o texto de Freyre que evidencia essa ideia.

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Sentados no pré-escolar, na escola e nas universidades. Pode ser enfileirado ou em círculo, mas sentados. Quem aprende, preferencialmente, aprende sentado.

Sentados nas atividades laborais no escritório, na oficina, na fábrica, no banco, nos estabelecimentos comerciais e industriais. Quem trabalha, preferencialmente, trabalha sentado.

Sentados no manuseio de máquinas na indústria e de utilitários, como tratores nos campos e como caminhões nas rodovias. Sentados na direção de arados tecnológicos e de outras máquinas agrárias de última geração. Quem comanda máquinas pesadas em cadeias de produção agrícola, preferencialmente, atua sentado.

Sentados, seja como motoristas ou passageiros de automóveis, aviões, lanchas, bicicletas, motocicletas, barcas ou locomotivas. Quem pilota ou é transportado, preferencialmente, desloca-se sentado.

Sentados em casa no dito merecido repouso.

Sentados na igreja para ouvir o sermão.

Sentados nas arquibancadas para torcer pelo seu time.

Sentados nas casas de espetáculos para assistir a concertos, peças e apresentações artísticas.

Sentados nas assembleias deliberativas em congressos parlamentares, conselhos municipais ou condomínios residenciais.

Sentados, quando crianças, quando jovens, quando pessoas de meia-idade, quando idosos.

Sentados como homens e como mulheres.

Sentados para almoçar, para jantar, para cear, para o chá, para o café da manhã.

Sentados quando defecam e até quando urinam.

Sentados em cadeira de balanço, em cadeira de molas, em cadeira de rodas, em cadeira de couro, em cadeira de vime.

Sentados para os jogos de cartas, jogos de tabuleiros ou jogos on-line.

Sentados para as conversas de porta de farmácia do interior.

Sentados em bancos giratórios de balcão de padaria.

Sentados no bar para beber e no restaurante para comer. Ainda que haja quem prefira comida de botequim e carta de vinhos dos restaurantes, prevalece a postura sentada.

Sentados em movimento. Sentados em repouso.

Sentados no ponto de ônibus, nas estações, à espera de trens e nos aeroportos, à espera de aviões. Há quem espera sentado o mototáxi chegar.

Sentados em bancos, em cadeiras, em poltronas, em espreguiçadeiras, em sofás, em tocos de árvores, sobre a mesa e no chão.

Sentados no cinema, no teatro, na poltrona de casa para ver televisão.

Sentados na cadeira do dentista, na cadeira do barbeiro, na de cabeleireiro e no divã.

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Na nossa realidade contemporânea, a coisa se intensificou. Não saberia dizer em que proporção, mas arrisco afirmar que é bem possível que passemos mais tempo sentados do que deitados ou em pé.

A condição da geração sentada é a postura da pessoa contemporânea. Evidente que essa disposição física fala muito ao nosso respeito. Para entender o fenômeno, educadores, psicólogos, sociólogos, fisioterapeutas, médicos e tantos outros profissionais são chamados a campo. Não é uma curiosidade antropológica banal.

As disciplinas de Saúde Pública e Saúde Coletiva são por natureza conectadas com a vida cotidiana. Interdisciplinaridade porque o sujeito sentado é socialmente situado.

Uma das marcas das sociedades industriais tecnológicas, orientadas para a produção e consumo de massa, ambientadas em contextos urbanos superpopulosos, é justamente o sedentarismo.

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ICL Notícias

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