Faria Lima movimentou quase 13 vezes mais dinheiro com dívidas a juros do que com ações em 2026

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Por Cleber Lourenço

O mercado de capitais brasileiro movimentou quase 13 vezes mais dinheiro com títulos de dívida remunerados por juros do que com ofertas de ações nos primeiros nove meses de 2026. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), foram R$ 441 bilhões em operações de renda fixa, contra apenas R$ 34,8 bilhões em renda variável. Os números expõem a predominância dos instrumentos de dívida no financiamento realizado pelo mercado financeiro, em um país onde a taxa básica de juros permanece em 13,75% ao ano.

A diferença é expressiva: para cada R$ 1 movimentado em ofertas de ações, foram aproximadamente R$ 12,70 em instrumentos de renda fixa. Somente as debêntures, títulos emitidos por empresas para tomar dinheiro emprestado de investidores, responderam por R$ 261,2 bilhões. Em troca desses recursos, as companhias assumem compromissos de pagamento e remuneração, frequentemente vinculados às taxas de juros.

Isso não significa que os R$ 441 bilhões sejam lucro dos bancos ou investidores. O montante corresponde ao dinheiro levantado pelos emissores. Mas revela o peso de um modelo de financiamento no qual os detentores de títulos recebem remuneração pelo capital emprestado.

Investimentos ligados aos juros rendem mais de 10% enquanto indústria recua

Os números da própria ANBIMA mostram como os investimentos financeiros se comportaram nesse ambiente. Entre janeiro e setembro, o IMA-S, índice que acompanha títulos públicos pós-fixados, acumulou valorização de 10,62%. Já o IDA-DI, que reúne debêntures vinculadas à taxa DI, registrou retorno de 10,92%.

Na outra ponta, a indústria brasileira enfrenta dificuldades. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam queda de 0,8% na produção industrial em setembro. A fabricação de bens de capital, categoria que inclui máquinas e equipamentos utilizados para ampliar a capacidade produtiva, recuou 1,9% no mês e 4,9% em relação a setembro de 2025.

Os indicadores ajudam a mostrar o contraste entre a remuneração de ativos financeiros e o desempenho da atividade produtiva.

Juros altos favorecem aplicações financeiras e dificultam crédito às empresas

O problema não se limita aos indicadores industriais. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em outubro, mostrou que 76% das empresas industriais que enfrentaram dificuldades para conseguir crédito de curto ou médio prazo apontaram os juros elevados como um dos principais obstáculos.

Enquanto isso, investidores de grande patrimônio ampliaram sua exposição à renda fixa. Segundo a ANBIMA, o volume aplicado nessa modalidade por clientes do segmento private, destinado a pessoas com mais de R$ 5 milhões em investimentos, passou de R$ 360,6 bilhões, em julho de 2021, para R$ 1,28 trilhão, em julho de 2026.

A participação da renda fixa nas carteiras desses investidores saltou de 20,8% para 45,9%. A própria associação reconhece que os juros elevados contribuíram para tornar essas aplicações atraentes. O crescimento do patrimônio também reflete aportes e valorização dos ativos, não apenas os rendimentos recebidos.

A contradição ganha relevância diante da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que interrompeu a sequência de cortes e manteve a Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira (4).

A manutenção dos juros elevados preserva a atratividade de aplicações remuneradas pelas taxas de mercado, ao mesmo tempo que encarece o financiamento de famílias e empresas. Isso não significa que toda emissão de dívida seja prejudicial à economia: esses instrumentos também financiam investimentos produtivos. O problema está no custo desse financiamento e nos efeitos de uma política monetária restritiva sobre quem precisa tomar crédito.

Os levantamentos revelam uma divisão importante na economia brasileira: de um lado, investidores encontram oportunidades de remuneração elevada; de outro, empresas enfrentam dificuldades para financiar máquinas, produção e expansão. A política de juros não afeta todos da mesma maneira — e os números ajudam a identificar quem recebe essa remuneração e quem precisa arcar com seus custos.





ICL Notícias

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